Athena Parthenos

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O quê

Escultura em mármore de uma mulher vestida, com um elmo, um escudo e com uma serpente a seus pés (na face interior do escudo). Em sua mão direita pousa uma figura feminina alada.

Quando

A escultura é uma miniatura romana do original grego em madeira, couro e marfim, de Fídias, entre 447 e 432 a.C.

A obra original pertence ao período clássico grego. Nota-se uma grande virtuose, tanto de técnica quanto de anatomia e o equilíbrio dinâmico característico da época, onde as partes estão em movimento, mas sempre obedecendo à harmonia grega. Ainda que sutilmente por razão da vestimenta, podemos perceber a perna estrutural (razão masculina) e a perna decorativa ligeiramente dobrada (sensibilidade e graça feminina). O belo composto ainda não denota emoção na fisionomia, característica que só acontecerá mais tarde no período Helenístico.

Quem

A escultura representa Pallas Athena.

Por quê

O elmo indica se tratar de uma guerreira. Ela segura ainda um daimon, Nike, que representa a vitória. A presença da serpente, em referência à medicina de Asclépio, indica a habilidade e esperteza. A figura representada é, sem sombra de dúvidas, a deusa Pallas Athena, filha de Zeus e Metis.

Athena Parthenos

Athena Parthenos

Onde

A escultura original recebeu seu nome por ter sido parte do complexo arquitetônico do Partenon. A miniatura romana atualmente encontra-se no Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

O escultor oficial de Atenas, Fídias, usava materiais preciosos (ouro, marfim, pedras preciosas, etc). Todas as esculturas foram destruídas por colonizadores, para aproveitar a matéria-prima. Fídias fez também os relevos dos templos de Zeus, em Olímpia e do Partenon.

O Partenon era inicialmente um prédio público, e comportava o arsenal  e a reserva do tesouro. O que conhecemos é a ruína da reconstrução. O original foi explodido quando os turcos invadiram e armazenaram pólvora no Partenon (que foi pelos ares). Gregos e turcos brigam até hoje. Péricles reconstruiu Atenas, com o saldo da guerra. Depois da reconstrução, o Partenon passou a homenagear a padroeira da cidade, Pallas Athena (Minerva).

Logo na entrada, no interior do Partenon encontrava-se uma colossal estátua de Pallas Athena, com 11 metros de altura, feita em madeira, coberta com materiais preciosos (armadura e a roupa em ouro, pele de marfim, olhos – tanto de Athena quanto da serpente – de pedras preciosas) e cravejada com todo tipo de riquezas.

Mitologia

Pallas Athena é filha de Zeus com a Titã Metis. Gaia profetizou que Zeus, assim como seu pai, seria destronado pelo filho. Contou ainda que Metis daria à luz primeiramente uma filha e depois um filho, o próximo rei dos deuses e dos homens.

Zeus resolveu então, assim como seu pai Cronos havia feito com os filhos, engolir Metis grávida. A filha de Metis cresce dentro do corpo do pai até que Zeus começou a ter dores de cabeça insuportáveis. Ordenou a Hefesto que abrisse seu cérebro com um machado, de onde saiu (já vestida e equipada) a sua filha, Athena.

Athena, a filha favorita de Zeus, sempre lhe foi leal. É a deusa da habilidade, da astúcia, da inteligência, da indústria, da guerra e da justiça.

Elementos iconográficos

Roupa

A figura feminina na cultura Greco-romana pertence ao núcleo privativo e íntimo e jamais pode ser vista nua em público. O universo público, da pólis, pertence à política e aos homens.

Por cima de sua roupa podemos ver um aegis que, de acordo com a mitologia, foi emprestado por Zeus. O aegis é um tipo de armadura que protege os seios e as costas e é – desde a tradição egípcia – um símbolo de proteção e/ou patrocínio. É muito mais um signo do que uma proteção efetiva contra lanças ou golpes. No caso de Athena, o seu aegis mostra a todos que ela é protegida de Zeus. Athena é sempre representada com o aegis mas a sua forma pode variar bastante, indo desde uma cobertura relativamente simples até armaduras ricas em detalhes e símbolos.

Em Athena Parthenos, o aegis repousa abaixo de cachos de cabelo de Athena e mostra também pequenas serpentes espalhadas em sua superfície.

Serpente

Athena é a deusa da habilidade, da inteligência e é muitas vezes associada a Asclépio e à medicina.

A serpente é o animal-símbolo de Asclépio, da medicina.

Higéia, outra deusa, filha de Asclépio, é a deusa da saúde, limpeza, higiene e saneamento. “Higéia” pode ser entendido como um conceito maior, entretanto, o de auxiliares de saúde (atuais enfermeiras), que trabalhavam diretamente com Asclépio. Athena Higéia é um dos títulos dados à Athena, segundo Plutarco: “One of its artificers, the most active and zealous of them all, lost his footing and fell from a great height, and lay in a sorry plight, despaired of by the physicians. Pericles was much cast down at this, but the goddess appeared to him in a dream and prescribed a course of treatment for him to use, so that he speedily and easily healed the man. It was in commemoration of this that he set up the bronze statue of Athena Hygieia on the acropolis near the altar of that goddess, which was there before, as they say.” [PLUTARCO, Life of Pericles. A wikipédia possui uma tradução razoável deste trecho em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hígia]

A imagem de Athena é associada tanto às guerras (e estratégias de guerra) quanto ao saber e à medicina. Por este motivo é representada com serpente(s).

É importante lembrar que, para a cultura Greco-romana, a serpente não transmitia temor ou perigo. Seu veneno era usado como anestesia e era considerada como um animal útil para deuses e humanos.

Elmo

O elmo é um dos elementos representativos de guerra, indicando a deusa guerreira.

O elmo possui três (número sagrado dos gregos) sub-elementos, sendo dois cavalos alados (laterais; o animal-símbolo de Athena é a coruja e portanto faz sentido que os elementos do elmo sejam alados) e uma esfinge (central). Todos possuem elmos individuais, formando o complexo iconográfico do elmo de Athena.

O mito egípcio da Esfinge foi reinterpretado na tradição grega e era uma demonstração de poder (leão, asas de águia).

Gombrich refere-se aos cavalos alados como grifos mas o corpo claramente é de cavalo, não de leão. Pensei na possibilidade de um hipogrifo mas não encontrei referências a respeito.

 

Nike

O daimon da vitória, Nike, pousa sobre sua mão direita, garantindo o sucesso tanto em guerra quanto em tempos de paz. Sabemos tratar-se de Nike por causa das asas, da vestimenta feminina e do contexto.

Escudo

O escudo protege não apenas Athena e Nike mas também a serpente. Ou seja, protege a guerra (e suas conquistas vitoriosas) e o conhecimento (a medicina). O escudo está apoiado na base, em uma posição de paz, ou seja, a imagem representa uma vitória, uma guerra passada e vencida. Trata-se de um momento pós-guerra, portanto.

Acredito que a vitória a que se refere este contexto seja a contra a Pérsia, marcando o início do Século de Péricles e da democracia grega, mas não encontrei nenhuma referência a este respeito.

Bibliografia

CHEERS, Gordon. Mitologia – Mitos e lendas de todo o mundo, trad. Maria Isaura Morais. Lisboa: Lisma, 2006.

GOMBRICH, Ernst Hans.  A História da Arte, trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 2008.

HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

OSTROWER, Fayga. A sensibilidade do intelecto: visões paralelas de espaço e tempo na arte e na ciência. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

WALDSTEIN, Charles, Sir. Greek sculpture and modern art, two lectures delivered to the students of the Royal Academy of London. Londres: Cambridge University Press, 1914. disponível para download na íntegra, em inglês: http://www.archive.org/details/greeksculpturemo00waldrich

WALDSTEIN, Charles, Sir. Essays on the art of Pheidias. Londres: Cambridge University Press, 1885. disponível para download na íntegra, em inglês: http://www.archive.org/details/essaysonartofphe00walduoft

Sp-Arte (fotos)

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Na década de 30 (e por reflexo, na de 40 também), o mundo estava de cabeça para baixo. Sangue para todo lado, Hitler, Segunda Guerra, crise de 1929, enfim, aquele bom e velho caos que todos conhecemos. Não por acaso as pin-ups surgem no país com maiores problemas financeiros naquele momento, os Estados Unidos. As pin-ups tentavam resgatar algum tipo de identidade a um povo massacrado, através da sexualidade e do humor. Naquele contexto já era uma objetificação, já era ruim. Hoje é apenas ridículo.

Existe uma corrente errr.. cof, cof filosófica de endeusamento da mulher que nada mais é que uma objetificação. Explico. Ao retirar aquele determinado grupo de indivíduos (mulher, gay, negro, astigmático, não importa) do ambiente humano, ou seja, ao desumanizar alguém, você o objetifica, mesmo quando sob o pretexto da divinização. Acontece que este tipo de ação, em pleno 2009, não apenas perdeu o sentido como perdeu também qualquer possibilidade de justificativa ou embasamento. Não é mais aceito fora do universo pornô assim tão facilmente.

Diz um amigo meu que as pin-ups não vão além do alcance da mão, referindo-se, justamente, às tentativas de parecer fazer mais do que esta mera objetificação de que falei anteriormente.

O cenário fotográfico geral da SP-Arte é que as pin-ups voltaram. E voltaram em preto e branco, em uma tentativa de posicionar o estilo em um tempo cronológico em que isso era possível, usando a técnica como uma bengala, como uma pseudo-justificativa artística. Além de ridículo fica datado.

Alguns se salvam.

Só na galeria Babel gostei de três.

Thomas Hoepker com uma print de 1936. Hoepker foi historiador da arte e arqueólogo mas acabou sendo mais conhecido como repórter fotográfico. Hoepker sempre tem um olhar poético, tanto na composição quanto no assunto sem aquele distanciamento estereotipado que se espera de um arqueólogo alemão. É um fotógrafo sem clichês.

Iatã Cannabrava, com uma color de 2008 intitulada Capão. A figura dialoga dentro de si, com o quadro dentro do quadro e com o fruidor que entra no cenário e na biografia da imagem. Elvira imediatamente apontou a estrutura de Velásquez, onde uma parte da estória anterior permanece dentro da contada, como um roteiro que cria passados não-vistos das personagens.

E, ainda na Babel, gUi Mohallem, com o seu Ensaio para loucura, pinholes de 1979. Ele se/nos aproxima em camadas, em etapas, devagarzinho para ficar mais gostoso. A primeira é a própria técnica, que retira a lente entre o fotógrafo e o fotografado. Outra aproximação é a da interação, onde o visitante é convidado a usar carimbos. A idéia do carimbo é gostosa, funciona como uma lembrança. E mais uma, as pessoas fotografadas estão em movimento, são reais, fazem parte do seu-nosso cotidiano. Poderia ser você, daí a loucura, uma loucura não ensaiada mas de todos nós, você, eu, fotógrafo e fotografados. E aí tem os carimbos em si, que trazem textos íntimos dos fotografados. São seis, selecionei um: Eu sou tão normal, tudo que eu faço é normal, eu penso tanto antes de fazer as coisas… mesmo quando eu me drogo ou trepo com um desconhecido é muito normal, sabe, dentro dos limites da normalidade.

A galeria Eduardo H Fernandes mostra o Tríptico umbilical do colombiano Fernando Arias. É um mesmo homem, nu, em posição fetal, visto em três planos diferentes e sim, são três fotos. Fazem parte de uma exposição intitulada Humanos Derechos, uma antiga bandeira do artista.

Na Silvia Cintra encontrei um tríptico de Miguel Rio Branco, de quem eu sempre gosto. Ele retrata a tragédia urbana e cotidiana sem recorrer a excessos de texturas ou outros modismos.

A galeria Mário Sequeira trouxe duas fotos de Helena Almeida que brincam com o tempo e com a seqüência narrativa. Estão em um corredor e portanto você pode vê-las sem uma intenção de ordem, de sentido. As fotos são da mesma cena em dois momentos e em um destes o retratado olha para você. É sempre bom encontrar novas linguagens em velhas técnicas.

A Bei mostra Vaqueiros, de Andreas Heiniger. Vaqueiros merece um duplo elogio. Obviamente pela qualidade fotográfica e narrativa mas também pela montagem. A Bei colocou as fotos, portraits dos nossos peões, em colunas enviesadas em relação ao visitante, fazendo com que o olhar fosse imediatamente impactado pela força das pessoas retratadas mas ao mesmo tempo permitindo uma aproximação gentil.

Na H.A.P. encontrei outra sempre ótima, a Claudia Jaguaribe. Ela é artista plástica e historiadora da arte mas poderia perfeitamente ser designer também. As suas duas fotos fazem uma brincadeira cromática, em que ela pega o tom dominante/emocional da fotografia e o (re)aplica sobre a foto em uma faixa, uma foto se contrapondo à outra inclusive em termos de diagramação e com esta delicada interferência ela mostra (e educa) um olhar.

E na Vermelho, vi Odires Mlaszho, com seus seis portraits mixados entre estátuas/figuras notórias e fragmentos de pessoas, em um encaixe perfeito entre as duas imagens. Ao humanizar a estátua, mostrando o carne-e-osso, ele desumaniza a noção de realidade. Odires, aliás, não é nome próprio, é um acrônimo de Objetos Derivados Intrínsecos Restos Emulsionados ou Saqueados.

A SP-Arte sempre vale uma visita. Só fique longe do café, que além de custar inacreditáveis R$4,50 é ruim e veio frio. E ainda vem acompanhado do olhar de desprezo do atendente que está naquele fantástico lugar superior e é o guardião da única fonte de cafeína da feira. Na próxima eu levo uma garrafa térmica. Juro que levo.

Paradigmas

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A ficção científica normalmente não me atrai muito. Existe um problema intrínseco, para mim, que é a da suspensão da realidade na escrita pretensamente calcada em parâmetros científicos. Este é um problema que nasceu com a FC (como carinhosamente é chamada a ficção científica). Existem raríssimos autores que conseguem o fazer acreditar dentro deste contexto, de um irreal científico.

Eric Novello é um desses raros e preciosos autores.

Eric é um dos autores do livro Paradigmas 1, lançado recentemente pela Tarja Editorial.

Por motivos óbvios, comecei o livro pelo conto dele.

Fogo de Artifício na verdade não é FC, é fantasia urbana, e isso por si só talvez já explique eu ter gostado. O conto se baseia no universo ficcional de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, ou seja, espere encontrar um gato sorridente e um chapeleiro maluco mas não leia para seus filhos. É um conto adulto. Adulto como em assassinatos brutais e sexo selvagem. Adorei.

“Eu havia pedido o encontro. Perdido o controle. As mortes precisavam parar. As mortes, só por elas eu transpirava prazer.”

Pelos mesmos motivos, gostei de Um Forte Desejo, de M. D. Amado, um tipo de “fantasia pulp erótica”, se é que existe esta classificação.

Gostei também de Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes, que, assim como Eric, se baseia em um universo ficcional pré-existente, o da mitologia grega.

Não li os outros contos ainda, mas tenho certeza de que a editoria do organizador/autor Richard Diegues fará justiça aos bons autores que assinam o livro.

Cássio Lázaro

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A escultura de grande formato é sempre um diálogo com o público, com a pólis, e portanto com o poder. Os grandes monumentos são tradicionalmente construídos e moldados de acordo com o poder vigente, para a manutenção do status quo. As esculturas ou questionam este poder ou o apóiam. A escultura jamais pode ser, entretanto, neutra.

A neutralidade pertence aos bancos, suíços ou não, e é um modelo falido. A arte não se permite neutra. A arte urbana muito menos.

Um pouco de história. A década de 30 foi marcada por grandes questões políticas e pelo autoritarismo. Tínhamos o nazismo de um lado, Roosevelt de outro tentando erguer o seu país depois da quebra da bolsa de 29 e tínhamos Vargas no Brasil e sua Assembléia Constituinte de 33. É neste cenário complexo e perturbador que o modernismo brota.

O modernismo combate o impressionismo. Por isso temos pinturas que propositalmente desobedecem a anatomia, desenhos que dão as costas para a proporção e perspectiva, ao mesmo tempo que trazem traços mais reais e assertivos. É – ou deveria ser – uma contestação. Compare um Monet com um Picasso, por exemplo. O impressionismo traz a impressão (ahá!) do real com luz, sombra e traços que não são traços. O modernismo traz o traço absolutamente real e concreto em uma interpretação moldada, subjetiva e deturpada da realidade. Um é o oposto do outro.

Estamos falando de um momento, a década de 30, muito perturbador na história mundial, onde as certezas humanas morrem todas, uma a uma, afogadas nas teorias de Einstein.

Passaram-se 80 anos e a história dá voltas. A bolsa quebra novamente, temos Bush, fundamentalistas religiosos em todos os cantos (uma nova forma de nazismo) e uma internet tão revolucionária quanto a relatividade de Einstein.

Temos hoje um chão muito similar ao que deixou brotar o modernismo. É natural, portanto, vermos artistas com os mesmos questionamentos.

Fui no MuBE e saí de lá com a sensação de que a Semana de 22 parece não terminar nunca.

Cássio Lázaro dialoga com o urbano com a forma não-representativa, que por sua vez dialoga em si e entre si com massa e linha. A sua exposição Amassaduras, Dobraduras e Rasgaduras se insere na pólis de forma orgânica, admitindo em si a metamorfose de concreto que a cerca.

Ou seja, considerando que a cidade muda sempre e se molda em cima de sua própria decadência, a escultura que se propõe orgânica mas sem ser representativa, complementa e se permite complementar por este ciclo de vida e morte do concreto.

Falei do modernismo porque Cássio Lázaro pode ser entendido como um modernista. Ele pega a forma e a destrói, a molda de acordo com a sua interpretação da matéria, sem com isso enfraquecer o traço.

O humano, onde está necessariamente inserido o contexto da escultura, pode ser retratado de três formas: por sua presença pictórica, pelo registro de uma interferência ou por sua ausência no espaço.

As esculturas de Cássio Lázaro retratam o humano por sua ausência: é através de suas formas quase fractais que ele questiona a presença (ou não) deste humano e, conseqüentemente, de seu papel na sociedade. Novamente, reproduzindo portanto a vida-morte orgânica da cidade que acolhe e é acolhida por ele.

São esculturas grandes, de aço pintado, laqueado e oxidado que questionam o status quo, ao destruir a forma simbólica do concretismo da nacionalidade e do poder. E isso é bom.

O ruim é que eu tinha uma certa esperança de que a história não desse tanta volta.

Von Uhlendorff

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A arte começa onde a imitação acaba.” – Oscar Wilde

O Mube – Museu Brasileiro de Escultura mantém um atelier com aproximadamente 70 alunos por semestre. O Museu conta ainda com cursos regulares de história da arte, somando quase 400 alunos para 14 professores. No atelier, aulas de pintura, escultura, cerâmica, desenho e arte-inclusão para portadores de deficiências físicas. Em escultura usam argila, papier mâché, cimento, gesso e pedra sabão.

Fui ao Mube com firme propósito de ver tudo, não apenas as peças no atelier mas o fato inegável é que os alunos, de uma forma geral, me interessam sempre mais que os artistas consagrados. Uma aluna estava expondo na lojinha, inclusive. A lojinha do Mube, aliás, é um caso interessante: é administrada pela ONG Ação, Ética e Cidadania e promove novos artistas.

Nos recebeu a gentil coordenadora do atelier, Eneida Fausto. Soube depois que ela é responsável pelas aulas para as crianças também.

Mantendo a minha já declarada opção por escrever apenas sobre aquilo que gosto, quero lhes falar sobre Clarissa Von Uhlendorff, aluna.

Von Uhlendorff cria grandes esculturas em papier mâché que parecem ferro. E a dimensão usa o ar, o vazio e então enche de leveza o seu ferro de papel, em quase uma brincadeira do papel-ferro com o leve-pesado, com o vazio-objeto. E aí nessa dança ela ainda coloca mais um elemento, esse estrutural, bem-humorado: ela faz bonecos soltos e juntos ao mesmo tempo, brincando dessa vez com a noção de indivíduo e conjunto.

Existe um aspecto básico, que todo mundo conhece, de que a escultura, o urbanismo e a arquitetura tratam do e existem no espaço público. E são, necessariamente, influenciados pela política (de pólis, lembra?), servindo à política vigente ou a questionando. As grandes peças robustas, colossais, monumentais, que tocam o céu, fazem apologia ao status quo. Refiro-me a esculturas como o Monumento às Bandeiras, em São Paulo ou ao Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro. São obras feitas para demonstrar grandeza, magnitude e, por serem públicas, demonstram a grandeza do público, ou seja, do Estado. Existe ainda a opção religiosa que, na verdade, se formos pensar bem, segue a mesma lógica e serve ao mesmo status quo.

Quando a escultura moderna consegue transcender essa fácil tentação da austeridade e robustez e torna-se orgânica e leve, como em Von Uhlendorff, e consegue finalmente, com sua mostra do vazio e na liberdade de formas, uma salutar rebeldia.  Em 2008, qualquer coisa diferente de transcendente e moderno é cópia (de Rodin, de Michelangelo, etc). E inovar em escultura quer dizer se libertar, quer dizer se soltar, quer dizer entender e assimilar o vazio. O vazio é rebelde por natureza. Os europeus só foram entender o zero com Fibonacci, em 1228. Vazio não é um conceito simples. O livre não é simples (só parece).

Von Uhlendorff é livre. E isso talvez assuste os curadores menos ousados. Perda deles. Von Uhlendorff deveria estar povoando os jardins do Mube e não contida dentro de um atelier.

Tenho certeza de que em breve estará.

Fotografias na feira

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Passear no Ibirapuera já é bom, (re)ver fotografia de qualidade é melhor ainda. A SP Arte foi um grande feirão comercial. Esse negócio de vender arte é sempre uma incógnita para mim. É um mercado tão simples e fácil de entender quanto física nuclear quântica. Por este motivo, resolvi abstrair o lado comercial e focar apenas no que era bom, no que eu gostei. Vamos a estes, então.

No Instituto Moreira Salles tinha José Medeiros, Hans Günter Flieg, Thomas Farkas, Maureen Bisilliat, Marcel Gautherot e Carlos Moskovics. Em miúdos, nenhuma grande novidade, mas grandes qualidades. Farkas (e seu fotoclubismo), o modernismo comercial de Günter Flieg e o húngaro Moskovics tem pouco mais que a época em comum. Estas organizações por data, apesar de extremamente comuns, sempre deixam a sensação de uma certa simplificação. Por outro lado, as ampliações eram todas boas, grandes, feitas para vender.

A Baró Cruz levou Alberto Simon, Cláudia Jaguaribe, Michael Wesely e Lina Kim, em uma curadoria que me agrada mais. A Lina Kim, sem dúvida alguma a minha preferida desta galeria, tira fotos de ambientes usados, marcando a presença humana sem mostrá-la diretamente. Eu já conhecia o trabalho de Kim e sempre tenho esta mesma melancolia ao vê-lo.

A galeria Amparo 60 (PE), tinha muitas obras interessantes mas eu fiquei hipnotizada pelo Rodrigo Braga. Ele tem uma preocupação (que compartilho) de que a idéia deve ser uma escolha anterior à técnica, então o resultado final é um discurso absolutamente coerente e sólido. A idéia define a técnica, não o contrário. Braga faz isso com maestria e usa todos os recursos à mão para que o conceito não se perca. Ao mesmo tempo, a sua fotografia é impecável e mostra que, mesmo posterior, a técnica não pode ser esquecida ou desvalorizada. Bravo, Braga!

A Vermelho tinha muita coisa misturada, mas de fotografia me chamou a atenção o Marcelo Cidade, com o suporte da fotografia dialogando com a fotografia, que dialoga com o fruidor, que dialoga com o espaço, que… Enfim, muito bom.

A Fortes Vilaça (SP) tinha muitas obras interessantes e aqui tiro uma licença para comentar o trabalho de Mauro Piva, que não é fotografia e sim aquarela sobre papel. O trabalho dele é um conjunto de homens sem rosto, em pequenos quadros coloridos. As posições são bem-humoradas, quase que um convite ao lazer, ao prazer.

Deixei, de propósito, a Tempo por último. Para quem não sabe, a galeria Tempo (RJ) tem tradição em fotografia e era lá, justamente, que eu esperava encontrar a maior quantidade de obras fotográficas. Dito e feito. A maioria já era velha conhecida, como a Pat Kurs e suas polaroids ou o German Lorca e seus pratos voadores, ou mesmo como a Isabel Löfgren e o Felix Richter, um dos meus fotógrafos prediletos. Até Sebastião Salgado tinha por lá. O que eu sempre gosto na Tempo é a curadoria. É difícil preparar obras para exposição, especialmente dentro de um determinado foco, como venda ou crítica. A Tempo sempre surpreende com o bom gosto e o bom humor de suas organizações. Colocar os pingüins e a Serra Pelada, ambos do Sebastião Salgado, como um espelho um do outro e, ainda por cima, colocá-los vizinhos a Antonio Saggese necessita de um olhar muito bem-humorado.

As fotografias na SP Arte provaram é possível unir qualidade e o cuidado de uma boa curadoria com o comércio e, espero, boas vendas.

Brasil Selvagem

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Existe uma diferença básica entre a música e o livro eletrônicos. A música, uma vez que é executada, não causa em seu ouvinte um prazer diferente dependendo de sua origem. O livro depende não apenas de seu conteúdo mas também de seu suporte para que a experiência do leitor seja plena. É este o motivo fundamental pelo qual a indústria fonográfica caiu antes da mídia impressa. Hoje em dia só lê jornal impresso, por exemplo, que suja dedos e não tem “busca”, quem tem em seu gestual algum tipo de prazer.

Dentre os impressos, existem aqueles que nos proporciam uma melhor ou pior experiência e os motivos de cada gradação gera incontáveis teorias, papers, teses, artigos. É, aliás, algo que me intriga e uma questão que me persegue. Isso, claro, sem sequer entrar na obscura física quântica do que vende ou não vende.

Tenho eu cá meus prazeres. A fotografia é um deles. Livros é outro. Um livro com fotografias de Felix Richter, então, é sempre uma felicidade.

Lições de um Brasil Selvagem não é lição nem de Brasil, nem de selvagem. É lição de fotografia.

Entretanto, o simples fato de ser um livro com as fotografias de Richter não é (e nem deveria ser) suficiente para uma resenha. A questão é que ele se superou. E isso não é pouca coisa.

O trabalho anterior de Richter era uma pintura. Ele agora se permite pintar sem forçar o pincel contra o papel. Explico: é necessário um amadurecimento muito grande do fotógrafo para conseguir se manter expressivo sem se tornar caricato. A exposição que eu vi na Casa do Saber, no Rio, era excelente e foi quando conheci (ao vivo e a cores) o trabalho de Richter que até então só tinha visto pela internet mas, mostrava um trabalho que, sem cuidado, poderia ficar estigmatizado facilmente, justamente por ser tão expressivo.

Não deixo de me impressionar como ele lida com cores. Mal posso esperar a próxima safra.

As fotografias atuais de Richter continuam expressivas e ele continua usando e abusando de cores. As cores lhe servem, não o contrário. Tudo, agora, com uma pitada diferente: a captação da luz aceita o que lá está, mostrando muito mais o olho do que as mãos do fotógrafo-pintor.

Felix Richter é, antes de tudo, um profissional que evolui. Vocês não fazem idéia de como esta é uma espécie em extinção (por falar em Brasil selvagem).

A Editora Céu Azul de Copacabana conseguiu fazer um livro facilmente identificável como “livro de fotografia” sem cair na mesmice de livro de centro. É um livro para manusear, para curtir. É um livro para aproveitar.

E aí, me desculpe, mas não tem ebook que dê conta.