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As categorias são autoexplicativas, mas…

  • Aguarrás = artigos publicados no Aguarrás link externo;
  • Wide = artigos publicados na Revista Wide link externo (que antes se chamava Webdesign);
  • Carreira Solo = Artigos publicados no Carreira Solo link externo, podcasts do Fala Freela!, do Sala 101 ou qualquer conteúdo relacionado a esse portal;
  • Rascunho = artigos publicados no Jornal Rascunho link externo;
  • Outros = artigos publicados em congressos, seminários ou outros periódicos.
TitleCategoriesDate
Videogames: o vazio como narrativa do terrorOutros2016/11/14
As garras do macho e da fêmeaRascunho2016/07/12
Nós, os pequenosRascunho2015/12/01
Através de muitos espelhosRascunho2015/10/09
O gênio da maçãRascunho2015/08/25
Shakespeare para todosRascunho2015/06/03
As muitas idades do leitorRascunho2015/04/25
Final feliz possívelRascunho2015/02/03
Caricatura para esquecerRascunho2015/01/03
O voo da liberdadeRascunho2014/12/04
Doce ilusãoRascunho2014/11/04
O charme do ladrãoRascunho2014/10/03
Infância amoralRascunho2014/08/02
Maior que a morteRascunho2014/04/01
Vetores, alemão e um pouco de rumWide2012/01/24
#quebrando #limitesWide2011/12/01
A colheita do cajuWide2011/10/01
Uma época de perguntasWide2011/07/01
Café com sereiasWide2011/03/01
A água turva não mostra os peixesWide2011/01/01
Logomarca existe, passa bem e manda lembrançasWide2010/11/18
Audrey KawasakiWide2010/11/01
PDFs on-lineWide2010/09/25
Pintura digital com artweaverWide2010/09/15
É Primavera!Wide2010/09/01
Scribus: diagramando em software livreWide2010/08/27
A ferramenta não faz o artistaWide2010/07/01
Um rinoceronte com má reputaçãoWide2010/06/01
Toda nudez (digital) será castigadaWide2010/05/01
Mulher de um homem sóAguarrás2010/04/06
O reconhecimento dos símbolosWide2010/04/01
Arlindo Gonçalves e Luciana FátimaAguarrás2010/03/01
Águas de marçoWide2010/03/01
Você também curte o carnavalWide2010/02/01
De Jano aos blogs – a perpetuação da expressão humanaWide2010/01/01
raiva nos raios de solAguarrás2009/12/10
Almoço na relvaAguarrás2009/12/07
Elementos iconográficos em obras de arteWide2009/12/01
Michelangelo Merisi da Caravaggio a partir de A conversão de São PauloAguarrás2009/11/29
Símbolos e signos nas obras de arteWide2009/10/01
Pensando fora da schemataWide2009/08/01
Análise de uma obra de arte: Os esposos ArnolfiniAguarrás2009/07/27
Anima Mundi 2009Aguarrás2009/07/12
Athena ParthenosAguarrás2009/06/04
RascunhosWide2009/06/01
Sp-Arte (fotos)Aguarrás2009/05/15
ParadigmasAguarrás2009/04/01
Indo além do banco de imagensWide2009/03/12
Cássio LázaroAguarrás2008/10/17
Von UhlendorffAguarrás2008/06/27
Fotografias na feiraAguarrás2008/05/01
Brasil SelvagemAguarrás2008/02/14
Havana CaféAguarrás2007/11/27
Captura da Luz 3Aguarrás2007/10/09
Jogos VisuaisAguarrás2007/07/15
Lemos, Lorca e FarkasAguarrás2007/07/01
Recortes de Inquieta RetinaAguarrás2007/06/05
José Eduardo BarrosAguarrás2007/05/12
Frederico Dalton – FotomecanismosAguarrás2007/05/04
Roberto MagalhãesAguarrás2007/04/02
Felix RichterAguarrás2007/02/11
FotoKunstAguarrás2007/01/24
Ronaldo Grossman – Soneto NuloAguarrás2006/11/14
Acessível quem?Aguarrás2006/09/16
Deu Piazzolla na pranchetaAguarrás2006/09/16
Grátis – código aberto, freewareAguarrás2006/09/16
PerceberAguarrás2006/09/15
PapelAguarrás2006/09/15
user centeredAguarrás2006/09/15
Fonte da boaAguarrás2006/09/15
Pretinho básico – quanto você calça?Aguarrás2006/09/15
Cores podem ser confusasAguarrás2006/09/15
Seu designer está te enlouquecendo?Aguarrás2006/09/15
O caso de plágio de Alberto Sughi por Yoshihiko WadaAguarrás2006/07/02
Se o Lautrec pode…Aguarrás2006/05/29
TransparênciasOutros1989/03/12
Como chegamos ao ponto em que nosso coração bate mas estamos mortos?Outros1984/05/01

Vetores, alemão e um pouco de rum

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foto da revista capa

Conheço uma senhora alemã que, assim como tantas outras, veio para cá fugindo dos horrores da guerra. As histórias são sempre de terror, recheadas de traumas terríveis, suicídios e, crueldades variadas. Esta senhora, entretanto, sorri. Não se preocupe, caro leitor, esta coluna não será, jamais, uma versão escrita das liçõeszinhas de vida que infelizmente inundam (flood é inundação) o Twitter e o Facebook.

O que mais me impressiona nesta senhora em específico nem é tanto o sorriso largo depois de tanta história difícil. É o seu conhecimento de tecnologia depois de tanta vida sem computador. Deve ter seus 75, 80 anos e dá dicas sobre redes sociais, e-books, celulares. Outro dia estávamos ela e eu esperando uma aula começar e eu não achava uma rede aberta nem com reza forte. Percebendo minha frustração, ela gentilmente pegou das minhas mãos meu Eee-PC e com uma assustadora facilidade se conectou. “Impressionante como pessoas acham que ein-zwei-drei… que 123456 é uma boa senha”, me disse ao devolvê-lo.

Sempre que a encontro penso em como a ideia de que produtos e serviços online devem ser voltados exclusivamente ao público mais jovem ou [insira aqui qualquer “verdade” do meio publicitário] é, no mínimo, ultrapassada.

Vivemos uma época de muitas transformações. Publicações em papel desde Gutenberg se metamorfoseiam em pixels. Redes sociais, não agências de notícias. Youtube, não horário nobre na TV. Não preciso ensinar a missa ao vigário, não continuarei a lista, você a conhece. Pergunto, entretanto, se nós, que estamos “morando” nesta nuvem, temos real consciência de como somos importantes. Tenho certeza de que os filhos da Clara Clarinha vão se gabar na escola de como seu avô, o über CrisDias, ajudou a construir o que seus amiguinhos estarão usando. Até mesmo uma forma única de ilustração nós criamos, algo tão transformador quanto a invenção da tinta a óleo. Lembrando que a ilustração vetorial é, por natureza, mais leve (em termos de Kbytes) do que os bitmaps, fica a dica de que será do ilustrador vetorial o mercado dos e-books, que eu nem preciso falar que vai explodir, né?

Sei que me repito, mas não é a ferramenta que faz o artista. Você pode usar Illustrator, Inkscape, OpenOffice.org Draw, Xara Xtreme, Aviary Online Vector Editor, CorelDraw, DrawPlus, KOffice Artwork… Sim, eu fiz uma salada proposital com programas comerciais, opensource, windows, linux, etc. Google it. Voltando, se você está querendo morder um pedaço do bolo de e-book com suas ilustrações vetoriais, precisa pensar em flexibilidade (nem todos os leitores são iguais), muitas camadas que possibilitem pequenas animações interativas, visibilidade e legibilidade tanto em cores como PB.

É bom ter também uma noção de como os e-books são feitos, para poder atender melhor seu futuro cliente. Considerando como um programa decente de formatação para e-books aquele que consegue exportar vários formatos (e não apenas pdf), temos as versões mais novas do conhecidíssimo InDesign e o igualmente ótimo Calibre que, além de tudo, é opensource. Encontrei também os programas gratuitos eCub e Jutoh, ambos de um mesmo desenvolvedor, Julian Smart, mas ainda não os testei. Como a nossa vida não é simples, claro, a Amazon tem o seu app próprio, o KDP (Kindle Direct Publishing). Quem desenvolve para trezentos navegadores diferentes já deve estar até acostumado. O Gizmodo publicou um bom post a respeito dos formatos de ebook (em inglês) e no eBook Architects, você encontra bons exemplos de diagramação.

Lembre que o Kindle agora suporta Html 5 e portanto aquela conversa de convergência, de soma de conhecimentos, não é para boi dormir. Tudo aquilo que estamos cansados de falar (e ouvir) sobre acessibilidade vale aqui também: o tamanho da letra precisa permitir mudança para se adaptar ao usuário-leitor; o seu índice precisa fazer algum sentido; o conjunto precisa ser leve; mantenha coerência na informação: links com uma mesma indicação em toda a publicação, títulos com a mesma formatação, etc.

Claro que e-books também usam imagens raster mas por conta da leveza, flexibilidade e possibilidade de animação, aposto como o vetor vai rapidamente se tornar o queridinho dos editores.

A minha amiga alemã, apesar de não ser nenhuma n00b, não está nem aí para tudo isso. Tira seu Kindle da bolsa como se tivesse feito isso a vida inteira e, orgulhosa, me mostra o livro do filho. “Dessas coisas só não uso o gravador de DVD que meu filho me deu”, diz. “Não gosto das Fernsehen, não gosto”. Sorrio de volta, cúmplice por também não gostar de televisão e por achar muito divertido essa Torre de Babel em que o mundo se transformou.

 

Vetores, alemão e um pouco de rum. Revista Wide, Rio de Janeiro, 01 fev. 2012.

#quebrando #limites

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foto da revista capa

Desde que conheci o trabalho de Augusto Sampaio tenho vontade de escrever a respeito, mas como ele foi meu professor na Belas Artes e sei o quanto o meio acadêmico pode ser paranóico, achei melhor esperar não ser mais sua aluna para lhe dedicar uma coluna.

A obra de Sampaio poderia facilmente ser organizada em três hashtags se o seu meio fosse o digital. A primeira, como não poderia deixar de ser, é o questionamento, o pensar. A segunda é talvez a mais óbvia delas: a obra em si, ou seja, a sua produção artística, as gravuras. A terceira é o compartilhamento. Vou da terceira para a primeira.

3. Sampaio é professor com p maiúsculo e isso já deveria ser suficiente para terminar o artigo, mas insisto. Ele é artista-educador de uma das iniciativas mais legais da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a oficina de desenho e gravura da Ação Educativa Extramuros, do PISC (Programa de Inclusão Sociocultural), que leva moradores de rua para dentro de um espaço tido como erudito e os instrumenta a ampliar seus repertórios.

2. As xilogravuras de Sampaio – ou, pelo menos, as que conheci – não são figurativas e trazem uma repetição proposital que se traduz em ritmo. Ele as instala em espaços urbanos, especialmente em muros, paredes, fachadas. Ou seja, ele as instala em limites. E, com a composição (cor, textura, ritmo, forma, etc), chama a atenção para este limite e nos leva a perceber uma linha separadora que muitas vezes simplesmente não nos importa mais. A gravura aponta esse limite, esse contorno e, ao apontá-lo, se apropria dele e o destrói. Uma vez que o limite nos “pertence”, deixa de ser um limite.

1. Que limites nos contém? Muros não definem um ambiente. Uma escola ou qualquer outro centro de convivência é uma experiência que vai muito além de seus muros. Conheço pessoas que definem suas casas como “onde meu computador está”. E aí vem o cloud computing e nem isso existe mais. Cadê o muro? Existe algo que separe o morador de rua do curador do Museu além deste limite absolutamente arbitrário? Na verdade não faço ideia se o questionamento de Sampaio é este mas é nisto que penso quando vejo o seu trabalho. É, portanto, o meu-dele questionamento. Outro muro que cai. Derrubar muros é sua-nossa especialidade. Ele compartilha o tempo todo. Por este motivo, inclusive, o escolhi para esta coluna. O que é a internet senão a quebra de fronteiras, de limites? Fazemos algo online que não seja, justamente, questionar e romper com estas arbitrariedades? Digo, além de ver vídeos de gatos, é claro.

Agora conto que Sampaio é arquiteto pós-graduado em Multimeios: cinema, vídeo e fotografia. Não que isso faça qualquer diferença. O melhor consultor em presença online que conheço, o Roney Belhassof, já foi piloto de navio. Meu irmão, tradutor, é formado em Economia. Aprendo filosofia com um historiador. Gosto de pessoas complexas, heterogêneas e com histórias complicadas. E nós, nesse backstage da internet, o que nos enriquece? Nem só de Php e Java vive o programador. Uma das minhas maiores queixas das atuais formações acadêmicas é a falta destas referências “externas”. O designer que decide estudar algo completamente fora da sua área (capoeira, finlandês, culinária, tanto faz) será necessariamente um designer melhor. Obviamente isso vale para todos, mas é na Wide onde escrevo.

Voltando ao Sampaio. Tenho a sensação de que sua meta é quebrar limites. Nas artes visuais, isso se traduz em um novo olhar, em ampliar o repertório visual e na experimentação. Não acho, entretanto, que se limite a isso. A arte visual é apenas a sua ferramenta para estimular a humanidade a refletir, a crescer. Somos capazes de evoluir apenas quando nos abrimos para esta possibilidade. Ou seja, quando estamos dispostos a sair da zona de conforto, quando estamos disponíveis para experimentar o mundo sem muros.

Vejo nele uma coerência que me inveja. Ou me falta o amadurecimento para ter esta coerência no meu trabalho ou me falta o distanciamento para percebê-la. Dúvidas, entretanto, tenho aos montes.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. #quebrando #limites. Revista Wide, Rio de Janeiro, p. 42, 01 dez. 2011.

A colheita do caju

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A arte e a tecnologia são muito mais ligadas do que pensa a maioria das pessoas. Observamos a influência de uma sobre a outra desde os tempos das cavernas. No Paleolítico pintamos com tinturas naturais, musgo, barro e o que mais estivesse ao alcance. Quando conseguimos lascar pedra logo começamos a esculpir. Um pouco mais tarde, a indústria teve a iluminação de criar tinta em tubos, dando mobilidade ao pintor, que começou a pintar fora de seu ateliê. A fotografia e a indústria gráfica também influenciaram de maneira muito significativa o nosso pensar e a nossa arte. Chegamos à era da informática, e com ela a ilustração 3D, vetorial, digital, pixel art e tudo mais que seremos ainda capazes de inventar. E que bom que seremos capazes de inventar. A imaginação é mais importante que o conhecimento, já dizia Einstein. Precisamos imaginar um futuro melhor para podermos inventá-lo.

Estes saltos evolutivos, que não são nem saltos e nem evolutivos, acontecem sempre movidos ou pelo desejo ou pela necessidade humana. E o desejo e a necessidade não andam separados. Nós hoje precisamos de celulares, i-coisas e toda uma quantidade de traquitanas móveis conectadas. Primeiro o desejo ou a necessidade? A vida mudou, as sociedades mudaram, a economia evoluiu, o profissional criativo não trabalha mais batendo cartão no escritório. Naturalmente, a mobilidade – e portanto o celular e demais gadgets – tornaram-se uma necessidade. Por outro lado, é o desejo de liberdade que nos move. É impossível dissociar um do outro. Assim “evoluímos”. Coloco entre aspas porque não existe aqui uma noção de valor, ou seja, não somos melhores nem piores que nossos antepassados ou que nossos sucessores. Somos diferentes. E isso é muito.

A arte é uma criação nossa e é necessariamente um reflexo de nós mesmos. O estudo da arte, conseqüentemente, é um estudo comportamental da nossa espécie.

Tudo muda, mesmo que você não note. Quer dizer, tudo menos o reinado felino no mundo nerd, é claro. Mudar é necessário, desejado e, humano.

Até mesmo o entendimento que temos de conceitos tão básicos como infância muda com o tempo. Quando a expectativa de vida era de 30 anos, 12 anos era considerado adulto. Mesmo mais tarde, com a vida já maior, ou éramos crianças ou éramos adultos. A adolescência só foi inventada a pouco mais de 100 anos, entre o final do século XIX e o início do XX.

Construímos sociedades mas felizmente não somos formigas que passam milhões de anos fazendo a mesma coisa. Assim como o Raul, eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

A Wide completa com esta edição o seu primeiro ano de vida e surgiu de uma mudança, de uma mutação que uniu as antigas Webdesign e TI Digital.

Os 365,2425 dias do calendário Gregoriano sempre me pareceram uma medida bastante estranha da passagem do tempo. A medida dos índios tupi-guarani fazia muito mais sentido. Eles contavam os anos pela época da colheita de caju, que – sem estufas e outras tecnologias agrícolas – acontece entre agosto de outubro. Então, fica aqui os meus parabéns à Wide e o voto de que muitas colheitas ainda venham!

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. A colheita do caju. Revista Wide, Rio de Janeiro, p. 42, 01 out. 2011.

Uma época de perguntas

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O fato é que nada é nunca claro em nosso estado de espírito, e nossa pintura sofre desta falta de certeza. Às vezes eu acho que o significado do meu trabalho está exclusivamente ligado à produção de uma pintura; às suas contínuas referências e modificações; a pequenas descobertas, como balsas em que um náufrago se agarra, e que depois afundam nas profundezas, levando com elas linhas, cores e pseudo-significados.” – Alberto Sughi

Em um ato de coragem escolhi falar sobre Alberto Sughi na coluna desta edição que, junto com Egon Schiele e Lucien Freud, é um dos meus artistas prediletos. Digo coragem porque é muito difícil analisar alguém por quem somos apaixonados, mas eu vou tentar. Antes de começar, entretanto, preciso dizer que o filho dele, Mario, é também um grande artista e ilustrador. Desta vez vou só falar do pai.

Os italianos consideram Sughi “il maestro della realtà” mas o realismo em Sughi é filosófico. Sua obra é pictórica e realista, sem dúvida, mas não é este seu maior realismo. O mestre da realidade é um título mais do que merecido pela ausência de hipocrisia. La classe dirigente (1965) é tão satírico sobre o governo e o poder vigente quanto Goya foi em seu tempo, enquanto Notturno no.2 (1998), por exemplo, é um retrato da vida noturna urbana quase carinhoso de tão próximo emocionalmente. Seus quadros de cidade e clubes noturnos, aliás, são os meus favoritos. É quase possível respirar a fumaça e ouvir a música.

O equilíbrio entre drama e leveza é uma das marcas características de Sughi. Outra é a mescla entre o desenho e a pintura, algo que muitíssimo me agrada. Em um vídeo, ele aparece colocando carvão sobre tinta a óleo. É de uma liberdade total, de alguém aberto ao diálogo entre a obra e o artista. O diálogo entre a obra e o fruidor é velho conhecido de qualquer um que já tenha posto os pés em um museu ou galeria, mas nem sempre o artista assume – ou mesmo admite – que sua criação responda. O questionamento estético da representação não se coloca como o saber técnico-artesão e nem como o de uma intangível identidade filosófica ou cultural. Seu questionamento acontece através da história contada. Ele é livre e sabe disso, faz uso desta liberdade. Nada mais contemporâneo.

A contemporaneidade é sempre muito difícil de definir porque não temos ainda o filtro do tempo e o afastamento emocional necessários para análise, mas posso afirmar com certa segurança de que o nosso tempo é marcado por diálogos, contradições, quebras de fronteiras e o questionamento de regras e paradigmas. Por vivermos em uma época de perguntas (e não de respostas), é natural que o desenho e o rascunho, antes entendidos como intermediários descartáveis, ganhem reconhecimento e valor. Existem até mesmo aqueles – como eu – que preferem ver o sketchbook do artista do que a obra pronta. Se pensarmos na trajetória da idéia artística e, considerando que ainda não conseguimos entrar dentro da mente do artista, o mais próximo do pensamento original é o rascunho, não a obra finalizada. O inacabado e o incorreto traduzem nossos desejos desde o ato falho de Freud (o Sigmund, não o Lucien). A verdade não está lá fora, a verdade está no erro.

Alberto Sughi, em outro trecho do mesmo post com que abri esta coluna, diz: “A pintura terminada, em exposição, emoldurada e fotografada, é apenas um ato convencional. É uma norma antiga da profissão do pintor mas é incapaz de nos representar completamente. Em outras palavras, no final, a história de nossos fracassos na tela seriam guias melhores para entender a mente do pintor do que a soma dos métodos, concessões, experiência ou outros truques que usamos para levar uma pintura à fruição. E talvez não seja nem mesmo assim!

Fico me perguntando se o real não está, justamente, nesta veia aberta que admite diálogo, que passa carvão em cima de tinta a óleo e que vê na soma dos erros a essência do artista. As redes sociais nada mais são do que uma soma de nossos erros e uma veia aberta ao diálogo. Nosso conceito de real só mudou tanto quanto com a internet quando descobrimos que o mundo não era plano e que o Sol não girava em torno de nós. E tem gente que ainda insiste em chamar esta experiência de “virtual”!

Obs: os trechos citados são traduções livres.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. Uma época. Revista Web Design, Rio de Janeiro, p. 42 – 42, 01 jul. 2011.

Café com sereias

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Não sou barista, mas sou fanática por café ao ponto de ter um blend favorito, prensa francesa em casa e sinceramente notar a diferença entre tipos de grãos. Eu praticamente sustento a franquia de Starbucks aqui perto de casa com o meu consumo semi-industrial de Gold Coast Blend®. Acompanhei, portanto, com interesse o último redesign da identidade visual do Starbucks, que tem uma sirena bicaudata (sereia de 2 caudas) no centro.

A primeira figura mitológica metade pessoa, metade peixe de que se tem registro era homem. Um tritão, portanto. Foi o deus Oannes, que pertence à mitologia da Mesopotânia, de 5000 anos atrás. Ele saía todo dia do mar para ensinar artes e ciências à população do Golfo Pérsico que, na época, era o que se considerava “toda a humanidade”. Alguns milênios depois, na mitologia grega, “tritão” se tornou nome próprio. O Tritão, filho de Poseidon e Anfitrite, é um deus marinho. Assim como acontece hoje com algumas marcas famosas (Gilette, Bombril, Perfex, etc), o nome próprio se tornou sinônimo do objeto em si. Tritão, hoje, é entendido na maioria das vezes como sendo o deus e poucas pessoas usam a palavra como o masculino de sereia. Na mitologia grega, as pessoas-peixe são sempre masculinas. As divindades aquáticas são ninfas e não possuem caudas ou escamas.

As sereias eram, originalmente, metade mulher, metade pássaro e é esta a origem da sua linda voz. Tinham grandes asas, garras e penas nas pernas. Acredita-se que a versão peixe surgiu em um bestiário do século V chamado Physiologus, escrito em grego e de autor desconhecido, que teve uma tradução para o latim muito popular. Na Idade Média ainda vemos híbridos das duas versões e existem muitas sereias esculpidas em tumbas com asas. O mito de que atraíam marinheiros para a morte com seu canto é comum às duas versões. A Odisséia, certamente a estória mais conhecida envolvendo estes seres míticos, já foi retratada tanto com mulheres-peixe quanto com mulheres-pássaro.

Segundo o blog do Starbucks, a origem da sereia deles é uma xilogravura norueguesa do século XVI mas todas as referências que encontrei falam desta gravura como sendo do século XV. De toda forma é anterior à internet. O que acho interessante é como uma gravura de no mínimo 5 séculos de idade ainda pode render tanto. A mitologia sobre sereias é vasta e atinge diversas culturas, inclusive a nossa. Em algumas vertentes da Umbanda, Iemanjá é representada como uma sereia. É uma imagem forte de um mito presente em várias civilizações diferentes. Muito apropriado para uma multinacional. Se vamos usar um ícone existente, é sempre uma boa idéia escolher um que seja compreendido em qualquer lugar do mundo e por um longo período de tempo.

A sereia do Starbucks sofreu um processo de vários redesigns para se tornar menos sexual. Primeiro teve os seios cobertos pelos cabelos e depois perdeu o umbigo. Deixo para vocês a interpretação da posição em que a bicaudata segura as suas caudas, minimizada pelo enquadramento que gradativamente saiu de um plano médio para o close.

Edições moralistas na arte não são incomuns. O MASP recentemente fez um brilhante trabalho de restauro no quadro Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, de Nicolas Poussin (1594-1665). Uma das etapas do restauro foi retirar o repinte de pudor do falo de Príapo. A cena do quadro é um ritual pagão de fertilidade. Acredita-se que a censura tenha ocorrido no século XVIII, quando estava em posse da família real espanhola. O quadro pertence hoje ao acervo do museu. Então, se Poussin sofreu um, digamos, redesign pudico, imagine uma identidade visual de cunho 100% comercial.

Agora em março, no seu 40º aniversário, o Starbucks decidiu tirar o nome escrito e adotou uma marca sem texto, apenas com imagem.

É no mínimo uma atitude ousada retirar o nome da identidade visual mas atenção, crianças: não façam isso em casa! Algo assim só é possível com um branding muito forte, como os das empresas Nike, Apple, Volkswagen e, acredito, Starbucks.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. Café com sereias. Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 mar. 2011.

A água turva não mostra os peixes

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Expressões envolvendo peixes são comuns na nossa cultura: “peixe ensaboado”, “um peixe fora d’água”, “peixe não puxa carroça”, “vender o meu peixe”, “puxar a sardinha para o meu lado”, e por aí vai. Lições de vida também não faltam: “não dê o peixe, ensine o homem a pescar”, lembra? O título desta coluna é um ditado budista.

A simbologia do peixe é muito forte. O primeiro símbolo cristão foi um peixe, antes mesmo de usarem a cruz. O peixe cristão tem voltado à moda e pode ser visto na traseira de muitos carros de fiéis.

Desde quando morávamos em cavernas, os peixes eram importantes. Estranhamente, as representações na arte rupestre são raríssimas. Aqui no Brasil, podemos ver algumas na Serra do Ererê, na Amazônia, e umas poucas em Lascaux, mas mesmo assim não em número expressivo.

O peixe encontra espaço em quase todas as tradições. Moisés proibiu o consumo de peixes faltando alguma parte, como escamas ou nadadeiras. Os peixes nessa tradição, inclusive, são classificados em comestíveis ou não de acordo com a presença de escamas.

No Egito, os sacerdotes e os reis não podiam comer peixe, mas a população podia. Era tipo um x-tudo de carrocinha, bem popular, mas considerado “impuro”. Em Esna, existem múmias de percas-do-nilo, um peixe azulado bastante comum na região e venerado pelos antigos egípcios. Ainda no Egito, a deusa-peixe Hatmehit é uma das formas de Isis, a deusa da maternidade e da fertilidade.

Em Moçambique, é o peixe-deus Chipfalamfula quem controla os rios.

Na China, o peixe dourado significa harmonia e abundância. Os chineses consideram que o peixe e a água juntos são um símbolo do prazer sexual. Na Turquia, esse lado sex symbol do peixe é tão cotidiano que “peixe de um olho só” é gíria para o órgão sexual masculino.
Na Índia, tem o deus-peixe, Matsya, uma das muitas formas de Vishnu, que derrotou o demônio Hayagriva e salvou a espécie humana da destruição.

No Japão, acreditava-se que o bagre podia prever terremotos. O símbolo de peixe mais famoso tanto no Japão quanto na China é a carpa — símbolo de coragem e vitória — e pode ser vista em incontáveis tatuagens no mundo todo.

No feng shui, os peixes significam sorte, prosperidade, riqueza e sucesso. De acordo com essa filosofia, esculturas com duplas de peixes representam casamentos felizes.

Um dos meus contos prediletos, O velho e o mar, do Ernest Hemingway, conta a luta entre um velho pescador e um peixe grande, um marlim. Esse conto ganhou uma adaptação em animação, de Alexander Petrov, feita com pinturas a óleo sobre vidro que, se você ainda não conhece, precisa ver. É linda.

Não posso esquecer das sereias, ícones de sensualidade e perigo que habitam nosso imaginário desde a Grécia Antiga. O mito diz que, com sua beleza e linda voz, a sereia atrai os inocentes marinheiros para a morte.

E, claro, peixe na astrologia é o melhor dos signos (nasci no dia 12 de março)! O peixe é muito mais próximo dos humanos do que à primeira vista possa parecer. Passamos nove meses envoltos em líquido. Para muitos, a água é a representação do inconsciente, e o peixe é um dos símbolos do Self, a noção psicológica que temos de nós mesmos como indivíduo. Evolutivamente, já fomos peixes. Parece, portanto, natural que o peixe represente tanta coisa em tantas culturas diferentes.

Muitos animais têm representatividade na nossa iconografia, mitologia e simbologia. Escolhi o peixe para esta coluna por motivos óbvios: fica aqui os meus parabéns a todos os participantes e, especialmente, aos vencedores do Peixe Grande.

 

A água turva não mostra os peixes. Revista Web Design, Rio de Janeiro, p. 34 – 34, 01 jan. 2011.