Caricatura para esquecer

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Apesar do cunho moralista e religioso, narrativa juvenil de Daniella Bauer não convence

A sinopse no site da Biruta diz: “Através dos olhos de uma menina, o leitor acompanha a trajetória de sua família que, em meio à Revolução Russa de 1917, viu-se obrigada a deixar para trás tudo o que conhecia e a empreender uma audaciosa e perigosa fuga rumo a um destino totalmente desconhecido. Com novas vidas e identidades, vê-se despertada pelas inúmeras perguntas que permanecem sem resposta. Mas, essa é a chave da morada. Não ter as respostas lhe permite seguir em frente e abrir todas as portas”. Entretanto, Morada das lembranças traz uma narrativa moralista e religiosa do que seria um sofrimento enorme, mas que não convence. Há uma total ruptura entre questionamentos infantis e a linguagem utilizada. Fica claro desde o início que o livro é proposto como um relato de uma senhora de idade que, ao lembrar de seu passado difícil, o narra na voz da menina. Esta diferença de idade entre a voz narradora e o que se lê de fato é justificada, então, por esta visita a um outro tempo. Justifica, não a torna boa.

Há um discurso de alma, de sofrimento por obrigação, de penar, que faz com que o livro caia em uma caricatura da mulher judia. Como toda caricatura, imagino ter um fundo de verdade qualquer, mas ainda assim é uma caricatura, que, por natureza, explora traços marcantes mas não necessariamente relevantes. Explora os mesmos preconceitos que diz combater. O livro é tão caricato e falha tanto em criar um vínculo afetivo com o leitor, que a decisão da editora em resolver o design só no projeto gráfico foi acertadíssima. Qualquer ilustração ali reforçaria ainda mais este problema, pois iria engolir o texto. O projeto gráfico, aliás, é ótimo e dá conta inclusive de um movimento necessário que falta à narrativa.

A história tinha tudo para ser incrível. Uma menina foge da Rússia, junto com sua mãe e um irmão bebê, após o assassinato do pai, durante a Revolução de 1917. Primeiro chegam à Polônia e, de lá, para o Rio de Janeiro. Só os contrastes dos lugares já seriam suficientes, mas não são explorados. A questão da língua é mencionada en passant mas o quanto a narradora vai bem na escola é reforçado várias vezes. Ou seja, a narradora, ela, sofrida, injustiçada, explorada, ainda assim não tem problemas na escola, tão fantástica, ela. As outras mulheres nas mesmas condições se prostituem, ela não. As outras mulheres polacas corrompem o seu corpo e perdem o direito de serem enterradas em cemitérios judeus, ela não.

O livro ganhou um prêmio importantíssimo, o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional 2014 na categoria Literatura juvenil, ou seja, livros para jovens leitores a partir de 14 anos. Fico me perguntando se eu, que tenho parte de família judia fugida da guerra, que escutei histórias parecidas — inclusive no teor de rancor —, não consegui criar nenhum vínculo afetivo com nenhuma das personagens, que adolescente de 14 anos o fará. Ao contrário do último livro de Marina Colasanti, o valor de Morada das lembranças é atribuído pelo prêmio, não pela qualidade literária.

Morada das lembranças esbarra perigosamente em uma autoajuda, em um tom de meritocracia, como quem diz que se a senhora-menina conseguiu manter-se “digna” e vencer, casar, criar filhos, estudar, trabalhar etc., mesmo com todas estas dificuldades, qualquer mulher consegue. Além do fato de que a perfeição não cria empatia com ninguém, acho especialmente perigoso quando este tipo de discurso está em um livro juvenil.

O livro todo é permeado por comentários fatalistas, religiosos, moralistas. Exemplos: A vida é o que tem de ser, difícil é acreditar nisso (p. 58). Esses anos sem fé foram os anos mais difíceis de minha vida (p. 158). Ser homem é completamente diferente de ser mulher. Sei que essa é uma questão óbvia, mas, de tão óbvia, inexplicável (p. 175).

Parece haver um esforço da autora em aplicar seus conhecimentos psicológicos na narrativa, sob a forma de demonstração da fantasia infantil da independência. O problema é que isso funciona no consultório, não aqui. O delírio infantil é mantido na voz de uma senhora: “Resolvi que, daquele dia em diante, não levaria mais meus problemas a nenhum adulto, eu os resolveria sozinha, à minha maneira (p. 69)”. Crianças precisam disso para se tornarem independentes, se tornarem adultos saudáveis. A maioria dos adultos que acreditam que foram, de fato, plenamente independentes quando crianças, é, no mínimo, delirante. Guerra ou não guerra. Este é um dos problemas de se colocar a narrativa na voz de uma senhora quando a história pertence a uma menina.

Não sei se a origem de Morada das lembranças é essa, mas consigo imaginar uma senhora, talvez a avó da autora, contando essas histórias. Consigo até me identificar com a necessidade de colocá-las no papel, que não se percam. Estas histórias são importantes. Não devem ser esquecidas. Este esforço precisa ser feito. Há, entretanto, um hiato entre a emoção de quem as recebe, de quem as escuta da boca de entes queridos, e a possibilidade de torná-las interessantes como literatura.

Tive uma professora na Belas Artes que me dizia que o fruidor não sabe e nem deve saber se a obra foi ou não difícil de fazer, que seu percurso não importa. Ele deve se emocionar com o que tem à frente. A obra pronta, finalizada, é toda a informação que o fruidor tem. O mesmo vale para a literatura. Só podemos analisar um livro pelo livro, pela literatura, pela emoção que nos causa. Morada das lembranças não emociona.

 

Trecho:

Há um pouco de morrer em cada perda. Cada morte leva consigo um pequeno pedaço nosso e assim seguimos, às vezes esburacados, às vezes mais fortes. Será que, após cada morte, nasce algo que preencha momentaneamente nossos corações? Que anjos me habitam, que demônios me atormentam? Travei essas guerras silenciosas e invisíveis ao longo de toda a minha vida.

 

Publicado no Jornal Rascunho, janeiro de 2015.