O charme do ladrão

03/10/2014 —

O clássico “Robin Hood”, de Alexandre Dumas, combina diversos elementos numa forma estrutural poética

O charme do ladrão

Desde o manuscrito infantil Robin Hood and the monk de 1450, atualmente na Universidade de Cambridge, Robin Hood teve várias formas. Merece menção a primeira impressão de A gest of Robyn Hode (c. 1475) e Robin Hood and Little John, do século 18. Nosso arqueiro contou com versões, adendos, músicas e filmes. Talvez as mais conhecidas sejam as de Anthony Munday (1601), Howard Pyle (1883), Frank Sidgwick (1903), Neil Philip (2000) e esta, de Alexandre Dumas, publicada postumamente, em 1872-73, em dois volumes (Le prince des voleurs e Robin Hood le proscrit).

A história, ambientada na Inglaterra de Ricardo Coração de Leão (1157-1199), todo mundo conhece. O fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres. Floresta, arco e flecha, aquela coisa toda. Não há necessidade de repassar isso aqui de novo.

Esta versão é comentada e confesso aqui, só entre nós dois, que gostaria que fosse mais. As notas fazem uma grande diferença na leitura, especialmente para puristas como eu. Destaco, por gosto e boniteza, a nota de número 33: 

Ligeiro anacronismo na narrativa, já que as ordens mendicantes só surgiram no século seguinte, com são Domingos (1170-1221) e são Francisco de Assis (1181-1226). As ordens mendicantes se diferenciavam de outras ordens monacais pela não exigência da clausura em monastérios. Sua principal característica reside no fato de a sobrevivência física dos frades depender de esmolas e doações das pessoas, o que os levava a uma vida de errância, dedicada à pregação e à evangelização.

Percebe-se também o zelo do tradutor em manter o clima e o linguajar do original.

Um farfalhar mais demorado da folhagem e estalidos rápidos em moitas ali por perto perturbaram o devaneio do jovem arqueiro, que ergueu a cabeça e viu um gamo assustado atravessar a mata, passando pela clareira e logo desaparecendo nas profundezas da floresta.

Jorge Bastos é dos meus. A beleza está nos detalhes.

Interessa-me particularmente a estrutura de Robin Hood. A história era originalmente contada em baladas (algo mais ou menos como um poema narrativo). Para a felicidade dos linguistas e entusiastas, as versões romanceadas seguem as características das baladas à risca. Ao contrário de outros poemas narrativos, como um poema épico, por exemplo, a balada tende a focar em um evento dramático por vez, frequentemente com uma moral, assim como as fábulas. O narrador normalmente é na terceira pessoa e oculto. Os acontecimentos no decorrer da história são lentos, de forma que o herói possa aparecer em toda sua glória. De certa maneira e com alguma licença poética, é uma estrutura bastante similar à dos quadrinhos e, por sua vez, à dos roteiros blockbusters de cinema. Não por acaso, Robin Hood teve tantas versões para o cinema.

As versões medievais, musicais, também seguiam a balada. Tanto a estrutura do poema quanto a da canção é a clássica ABAB. Isso é o que chamamos, na literatura (poesia), de forma fixa. Outro exemplo é o soneto, muito utilizado em música também. Essa codificação ABAB diz respeito à rima, por estrofe. São quatro estrofes por verso, o primeiro rima com o terceiro e o segundo com o quarto. Naturalmente, os romances não seguem a métrica fixa, mas ainda assim podemos perceber em Robin Hood a mesma estrutura poética sendo repetida, em termos de tensão da narrativa, na alternância entre os momentos de dificuldade (A) e os de heroísmo (B). Como por exemplo, o abandono inicial (A), Robin salva a bela Marian (B), cobrança de impostos (A), grupo de rebeldes (B), e assim sucessivamente. A história termina bem, ou seja, termina em B.

Gênero
Não é tarefa fácil categorizar Robin Hood em um gênero literário. Não é bem um romance histórico, mas é. Tem todos os elementos necessários: recria a sociedade da época, incluindo aspectos jurídicos, linguísticos, culturais, econômicos e políticos. Por outro lado, nosso arqueiro talvez não passe de um mito, mesmo com vários historiadores se esforçando bastante para provar sua existência. Em 1852, Joseph Hunter, encontrou um certo Robert Hood, que trabalhava para Eduardo II. E, como existem, de fato, muitos registros policiais de um criminoso da época chamado “Hood, R.”, Hunter acreditou ter encontrado a verdadeira identidade do nosso arqueiro. Mais recentemente, Tony Molyneux-Smith publicou em 1998 o livro Robin Hood and the Lords of Wellow, em que afirma que Robin Hood é pseudônimo do lorde Sir Robert Foliot. Jorge Bastos ainda cita outras ocorrências na apresentação desta edição. Ou seja, não sabemos ao certo. Não que isso importe, a história é maravilhosa de toda forma.

Alexandre Dumas
Existem dois Alexandres Dumas. O pai e o filho. Falamos aqui do pai. O filho, também escritor, é o autor de A dama das Camélias. Isso costuma causar certa confusão. O pai é o autor de Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo, etc. A biografia de Dumas, por si só seria suficiente para alguns tomos de romance e aventura. Alexandre Dumas era filho do primeiro general mulato do exército napoleônico e de uma escrava liberta. Era, portanto, negro/mulato em uma época — início do século 19 — em que isso era um problema ainda maior do que é hoje. Sofreu muito com racismo mas, no entanto, só falou brevemente da questão racial em Georges, romance publicado em 1843. Suas peças e livros eram populares e seriam suficientes para mantê-lo financeiramente, não fosse ele um perdulário ensandecido. Além de ter vivido endividado até a alma, mantinha casos extraconjugais com voracidade. De um desses, inclusive, nasceu o autor de A dama das Camélias. Era uma época movimentada. No prefácio desta edição, Jorge Bastos nos conta que

Casado com Ida Ferrier, numa noite fria ele preferiu ir trabalhar no quarto do casal, onde a lareira estava acesa. Ida aparentemente dormia e ele escreveu por um bom tempo, até ouvir um espirro, vindo de dentro do armário — onde descobriu o escritor e amigo Roger de Beauvoir. Viu o pobre homem se resfriando e aconselhou que se pusesse junto ao fogo. Depois, indicando a cama, onde a esposa continuava a fingir que dormia, propôs: “Façamos como os romanos antigos e reconciliemo-nos em praça pública”.

Teve também uma filha, Alexandrine, com Marie de Fernand, tradutora e autora que assinava sob o pseudônimo de Victor Perceval. Acredita-se que ela colaborou de forma bastante significativa em Robin Hood e em Os três mosqueteiros. Era uma boa parceria, já que Dumas também emprestava seu nome como coautor para garantir a publicação das obras “carreira solo” de Perceval.

O século 19 foi movimentadíssimo. Falando só dos assuntos que mais me interessam, é a época de Almeida Garrett, Charles Dickens, Degas, Delacroix, Dostoievski, Flaubert, Goethe, Goya, José de Alencar, Machado de Assis, Manet, Mark Twain, Melville, Monet, Oscar Wilde, Renoir, Tchekhov, Tolstói, Toulouse-Lautrec e Victor Hugo (amigo de Dumas, aliás). Não vale escrever para a redação reclamando que deixei seu autor/artista favorito fora da lista, viu? A lista é grande e meu espaço acabou.

 

Publicado no Jornal Rascunho, outubro de 2014.

Infância amoral

02/08/2014 —

Oskar Luts (1887-1953) foi farmacêutico e um consagrado escritor estoniano. Primavera é o primeiro e mais famoso título do autor e foi publicado em 1912, enquanto a Estônia ainda estava sob domínio soviético. Por este motivo, o romance infanto-juvenil traz diversas referências ao idioma russo e ao alfabeto cirílico como partes do currículo obrigatório escolar. A independência da Estônia do Império Russo aconteceu pouco depois, com a Revolução de 1917.

Primavera trata da rotina de um grupo de crianças que atendem a uma pequena escola dirigida por um sacristão e um único professor, como era típico em cidades pequenas em qualquer lugar. Há uma similaridade com todos os livros do gênero “aventuras saudosistas de infância” (que eu acabei de cunhar), incluindo os de Mark Twain, Jorge Amado, etc.  Apesar de os meninos de Primavera ocasionalmente dormirem na escola e não em um trapiche e de tampouco serem assaltantes ou ladrões, a forma natural de descrever atrocidades infantis e o comportamento de grupo encontram ecos em Jorge Amado. Penso mais especificamente em Capitães de Areia, é claro, mas infelizmente faltam à Estônia o savoir faire e o charme da Bahia. Falta também a Luts a destreza de Amado.

Por outro lado, pensando em Mark Twain, existem duas personagens centrais em Primavera que tem entre si uma tensão muito similar à de Huckleberry Finn e Tom Sawyer. Um esperto, malandro, mentiroso e desordeiro, o Toots, e um outro, “bom menino”, o Arno. O rio Mississippi não fica na Estônia, mas ainda assim, há a presença constante de um grande lago próximo e do ambiente rural. Curiosamente, há também um cemitério e caminhos a serem percorridos a pé por crianças desacompanhadas. No cemitério não acontece nenhum crime, mas é também uma cena de quebra de inocência, em que o Arno entende que sua amada talvez não seja mais sua. Lible não é negro nem escravo, mas representa, assim como Jim, a figura do adulto contraventor de bom coração e de uma classe social mais baixa. Há também uma história significativa de uma balsa, que não é utilizada pelos protagonistas e acaba por tornar-se uma fonte de tensão e um dos pontos de discórdia entre as personagens. Toots também busca um tesouro, não em uma caverna, mas escondido nas ruínas edificadas de sua escola. Até mesmo as personagens femininas são secundárias ou estão no papel materno (mãe, avó, tanto faz). Assim como Becky Thatcher, Teele é considerada por todos como esperta, inteligente e com opiniões próprias. Em Primavera, ao contrário de em Huckleberry Finn ou Tom Sawyer, a menina passa a maior parte do livro como pretendente, não como vetor causador de ação. Teele é a menina que espera. Ela personifica a ideia masculina da mulher ideal, que vem de família rica, ajuda em casa, estuda e aguarda passivamente o pretendente. Reproduz, portanto, a ideia do universo masculino infantil como sendo o único de real interesse, onde as coisas acontecem de fato, onde há aventura. Um machismo e um androcentrismo perfeitamente compreensíveis na Estônia de 1912 ou nos Estados Unidos de 1876, nem tanto no Brasil de 2014.

As aventuras de Tom Sawyer foi publicado em 1876; As aventuras de Huckleberry Finn em 1884; Primavera, em 1912. Em uma época bem anterior à internet e que portanto as informações levavam consideravelmente mais tempo para rodar o planeta, parece-me pouco provável que trate-se de uma questão de inspiração ou muito menos de plágio, mas as coincidências são gritantes. Acredito, entretanto, ser um desses casos de época, em que há um certo inconsciente coletivo, um conteúdo recorrente e comum a várias culturas.

As histórias se desenvolvem com contextos tão distantes de nós que causam incômodo. Brigas violentíssimas tratadas como simples questões infantis, crianças bebendo vodka e usando arma de fogo, ou tiradas da escola para cuidar do gado, além de um menino – o Arno, um dos principais – que não sabe o que é metal.

- O que significa isso: de metal?

- Ah, de metal? Que idiota, você não sabe mesmo o que significa de metal? (…)

- Metal… é uma madeira preta. Uma madeira que não se consegue cortar com uma faca.

(p. 31)

Há, naturalmente, um interesse quase sociológico nesta que foi a realidade de cidades pequenas da Europa Setentrional no início do século passado. Apesar de ser um título interessante para aqueles que queiram se aprofundar na cultura estoniana, parece-me difícil que um jovem leitor hoje consiga se relacionar com alguma das personagens ou com a maioria dos dramas narrados.

Não tenho como saber se os termos extemporâneos sapecas, traquinas etc são ou não um deslize da tradução. Meu estoniano anda enferrujado. De toda forma, o uso da palavra berro para revólver ou mesmo a presença de um gramofone, além do clima geral do livro, me fazem apostar na inocência do tradutor.

Algumas referências, como a do instrumento kannel, podem suscitar um google, o que não é ruim, longe disso. Procurar por estonian kannel no youtube, por exemplo, pode trazer resultados divertidos.

As ilustrações de Sandra Jávera são deliciosas e emprestam ao livro um pouco de leveza. No miolo, ela usa aguadas e traço em preto e branco em excelentes escolhas temáticas. As imagens tem um óbvio cuidado em não contribuir com a violência que, às vezes, encontramos no texto mas, ao mesmo tempo, dialogam com ele, em um bem-vindo equilíbrio.

O melhor de Primavera é a sua não-conclusão e falta absoluta de moralismo. Não há um final feliz açucarado ou a conclusão dos dramas vividos no decorrer de suas 423 páginas. É apenas um recorte de uma realidade. Não há uma moral da história. E isso é ótimo. Infelizmente, entretanto, Primavera é tão atual quanto um livro estoniano de 1912.

 

Publicado no Jornal Rascunho, agosto de 2014.

Exorcismos, amores e uma dose de blues

27/07/2014 —

 

Duas das ilustrações feitas para o novo livro de Eric NovelloExorcismos, amores e uma dose de blues, que será lançado pela Gutenberg agora em agosto, na próxima Bienal.

Você pode acompanhar as últimas novidades sobre o lançamento do livro no twitter do autor.

Recomendo também os outros títulos dele (mesmo não tendo sido ilustrados por mim, mimimi).

NOVELLO, Eric. Exorcismos, amores e uma dose de blues. São Paulo: Gutenberg, 2014.        NOVELLO, Eric. Exorcismos, amores e uma dose de blues. São Paulo: Gutenberg, 2014.

E, de brinde, uma que foi feita para este livro mas que acabou ficando de fora.

trem - originalmente para NOVELLO, Eric. Exorcismos, amores e uma dose de blues. São Paulo: Gutenberg, 2014.

 

Em tempo: a capa do livro não é minha, só as ilustrações do miolo.

 

Diário do Comércio 30 de abril de 2014

30/04/2014 —

Hoje, tanto na versão online quanto na página 11 da versão impressa, saiu uma elegante matéria no Diário do Comércio (SP) sobre a exposição dos Ex Libris, que acontece no Centro Universitário Belas Artes São Paulo.

Um afago poético no coração de bibliófilos

Matéria no Diário do Comércio, de 30 de abril de 2014.

Menciona também a instituição, o Centro Gestor de Informação e a Biblioteca de Obras Raras Paulo Antonio Gomes Cardim, pela qual sou responsável. A curadoria da exposição é minha.

Maior que a morte

01/04/2014 —

Falar de Harvey: como me tornei invisível como um livro sensível ou poético é diminuí-lo. Assim como toda grande obra, transcende classificações, categorizações e, principalmente, adjetivos. O premiado livro de Hervé Bouchard, lindamente ilustrado por Janice Nadeau, trata da morte da figura paterna. Mas isso é uma informação que o Google resolve.

O autor nos leva a uma associação de sensações transponível para qualquer momento importante de nossas vidas.

Eu sinto calor e tenho a impressão de que as mangas de meu casaco de couro se esticam. Mas a primeira primavera é também a estação das corridas nas sarjetas. E é também a estação em que Cantin e eu perdemos papai Bouillon. E é a época em que eu fiquei invisível. É muita coisa para contar.

O menino brinca com palitos. O seu palito tem um pontinho. Este pontinho faz com que ele seja Scott Carey. A simbologia de Scott Carey, o herói do filme O incrível homem que encolheu (The incredible shrinking man, 1957), é também um prenúncio do que sentimos frente a uma perda tão significativa quanto esta. Nos diminuímos, nos encolhemos.

Harvey e seu irmão Cantin perdem o pai. O que Harvey deseja, entretanto, é que, mesmo morto, o pai o veja. Há mais neste ver. Existimos quando somos percebidos. O fenômeno — da fenomenologia, a existência — só pode se transformar em conhecimento através da linguagem. Ou seja, é necessário significar (transformar em signo) algo para que este algo passe a existir para nós. Veja bem: não é passar a existir, é passar a existir para nós. E é isso que Harvey deseja, ele quer certificar-se de que existe para o pai morto. Ele precisa ser visto.

O pai morto não o vê. E então Harvey torna-se invisível. Ele depende deste olhar — o olhar do Outro — para formar juízo sobre si próprio. Quando não encontra este olhar, percebe-se invisível.

Hervé Bouchard (1963) é canadense de Québec. Mais especificamente, de Arvida, uma vila industrial onde corridas de palitos na sarjeta são perfeitamente possíveis. Ele é também professor de literatura. Bouchard tem clara influência da fase mais minimalista de Samuel Beckett (1906-1989). Outros livros anteriores seus, como o seu décimo romance Parents et amis sont invités à y assister, também receberam prêmios e honrarias, mas foi com Harvey que seu nome atravessou mais fronteiras. Não sabemos o quanto há de biográfico em seus livros e, sinceramente, não importa. A tomada de consciência de que trata Harvey nos diz respeito diretamente. Nos tornamos invisíveis em muitos momentos. Uma injustiça trabalhista, uma separação conjugal, a perda de perspectiva, toda vez que nos calamos. Calar-se é se colocar na invisibilidade, é aniquilar o que há de essencial. A impossibilidade de acessar o Outro — som ou imagem, tanto faz — é a perda mais profunda porque não há como revertê-la.

E temos ainda as ilustrações de Janice Nadeau. Nadeau não é redundante. As imagens, como devem ser mas raramente são, oferecem uma leitura a mais. Nos dão uma emoção complementar e nem um pouco óbvia deste tornar-se invisível.

Segundo Victor Chklóvski, o objetivo da imagem não é tornar mais próxima de nossa compreensão a significação que ela traz, mas criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento.

Chklóvski referia-se à fotografia, mas o raciocínio pode ser ampliado. O livro ilustrado tem como maior desafio colocar-se como um apoio à literatura sem nem brigar com ela e nem repeti-la. E isso não é um desafio pequeno. Nadeau, com sua narrativa quase cinematográfica, dá aquela cutucada na ferida aberta por Bouchard.

A perda de que Harvey fala é muito maior do que a morte. Falar dele como um livro sensível ou poético é diminuí-lo.

 

Publicado no Jornal Rascunho de abril de 2014

carolina.vigna.com.br

07/12/2013 —

Pois é.

Volto a usar meu nome de solteira.

Carolina Vigna.

Tenho por aí espalhado quase 15 anos de livros, publicações, ilustrações, artigos etc, com o meu nome de casada, Vigna-Marú. Vou demorar décadas para conseguir alterar o nome em todos os perfis das redes sociais, aplicativos, etc, mas vou fazendo, de grão em grão. O email também mudou, anota aí: carolina@vigna.com.br

Como sempre, eu limpo o portfolio, apagando coisas que não me interessam mais ou que eu acho que já deram o que tinham que dar. Obviamente, isso é muito subjetivo e às vezes eu erro. Quando percebo, coloco de volta.

Não consigo mais manter um blog como fazia antigamente. Não vou nem tentar. Tenho feito muita, muita coisa e simplesmente não dá tempo.

Eu precisei refazer o site todo. Ainda não coloquei o clipping. Os artigos da Wide ainda estão pela metade. Os do Carreira Solo eu ainda nem comecei.

Deixo vocês com Chuck Berry. Porque… Porque c’est la vie.

Vetores, alemão e um pouco de rum

24/01/2012 —

Conheço uma senhora alemã que, assim como tantas outras, veio para cá fugindo dos horrores da guerra. As histórias são sempre de terror, recheadas de traumas terríveis, suicídios e, crueldades variadas. Esta senhora, entretanto, sorri. Não se preocupe, caro leitor, esta coluna não será, jamais, uma versão escrita das liçõeszinhas de vida que infelizmente inundam (flood é inundação) o Twitter e o Facebook.

O que mais me impressiona nesta senhora em específico nem é tanto o sorriso largo depois de tanta história difícil. É o seu conhecimento de tecnologia depois de tanta vida sem computador. Deve ter seus 75, 80 anos e dá dicas sobre redes sociais, e-books, celulares. Outro dia estávamos ela e eu esperando uma aula começar e eu não achava uma rede aberta nem com reza forte. Percebendo minha frustração, ela gentilmente pegou das minhas mãos meu Eee-PC e com uma assustadora facilidade se conectou. “Impressionante como pessoas acham que ein-zwei-drei… que 123456 é uma boa senha”, me disse ao devolvê-lo.

Sempre que a encontro penso em como a ideia de que produtos e serviços online devem ser voltados exclusivamente ao público mais jovem ou [insira aqui qualquer “verdade” do meio publicitário] é, no mínimo, ultrapassada.

Vivemos uma época de muitas transformações. Publicações em papel desde Gutenberg se metamorfoseiam em pixels. Redes sociais, não agências de notícias. Youtube, não horário nobre na TV. Não preciso ensinar a missa ao vigário, não continuarei a lista, você a conhece. Pergunto, entretanto, se nós, que estamos “morando” nesta nuvem, temos real consciência de como somos importantes. Tenho certeza de que os filhos da Clara Clarinha vão se gabar na escola de como seu avô, o über CrisDias, ajudou a construir o que seus amiguinhos estarão usando. Até mesmo uma forma única de ilustração nós criamos, algo tão transformador quanto a invenção da tinta a óleo. Lembrando que a ilustração vetorial é, por natureza, mais leve (em termos de Kbytes) do que os bitmaps, fica a dica de que será do ilustrador vetorial o mercado dos e-books, que eu nem preciso falar que vai explodir, né?

Sei que me repito, mas não é a ferramenta que faz o artista. Você pode usar Illustrator, Inkscape, OpenOffice.org Draw, Xara Xtreme, Aviary Online Vector Editor, CorelDraw, DrawPlus, KOffice Artwork… Sim, eu fiz uma salada proposital com programas comerciais, opensource, windows, linux, etc. Google it. Voltando, se você está querendo morder um pedaço do bolo de e-book com suas ilustrações vetoriais, precisa pensar em flexibilidade (nem todos os leitores são iguais), muitas camadas que possibilitem pequenas animações interativas, visibilidade e legibilidade tanto em cores como PB.

É bom ter também uma noção de como os e-books são feitos, para poder atender melhor seu futuro cliente. Considerando como um programa decente de formatação para e-books aquele que consegue exportar vários formatos (e não apenas pdf), temos as versões mais novas do conhecidíssimo InDesign e o igualmente ótimo Calibre que, além de tudo, é opensource. Encontrei também os programas gratuitos eCub e Jutoh, ambos de um mesmo desenvolvedor, Julian Smart, mas ainda não os testei. Como a nossa vida não é simples, claro, a Amazon tem o seu app próprio, o KDP (Kindle Direct Publishing). Quem desenvolve para trezentos navegadores diferentes já deve estar até acostumado. O Gizmodo publicou um bom post a respeito dos formatos de ebook (em inglês) e no eBook Architects, você encontra bons exemplos de diagramação.

Lembre que o Kindle agora suporta Html 5 e portanto aquela conversa de convergência, de soma de conhecimentos, não é para boi dormir. Tudo aquilo que estamos cansados de falar (e ouvir) sobre acessibilidade vale aqui também: o tamanho da letra precisa permitir mudança para se adaptar ao usuário-leitor; o seu índice precisa fazer algum sentido; o conjunto precisa ser leve; mantenha coerência na informação: links com uma mesma indicação em toda a publicação, títulos com a mesma formatação, etc.

Claro que e-books também usam imagens raster mas por conta da leveza, flexibilidade e possibilidade de animação, aposto como o vetor vai rapidamente se tornar o queridinho dos editores.

A minha amiga alemã, apesar de não ser nenhuma n00b, não está nem aí para tudo isso. Tira seu Kindle da bolsa como se tivesse feito isso a vida inteira e, orgulhosa, me mostra o livro do filho. “Dessas coisas só não uso o gravador de DVD que meu filho me deu”, diz. “Não gosto das Fernsehen, não gosto”. Sorrio de volta, cúmplice por também não gostar de televisão e por achar muito divertido essa Torre de Babel em que o mundo se transformou.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. Vetores, alemão e um pouco de rum. Revista Wide, Rio de Janeiro, 01 fev. 2012.

#quebrando #limites

01/12/2011 —

Desde que conheci o trabalho de Augusto Sampaio tenho vontade de escrever a respeito, mas como ele foi meu professor na Belas Artes e sei o quanto o meio acadêmico pode ser paranóico, achei melhor esperar não ser mais sua aluna para lhe dedicar uma coluna.

A obra de Sampaio poderia facilmente ser organizada em três hashtags se o seu meio fosse o digital. A primeira, como não poderia deixar de ser, é o questionamento, o pensar. A segunda é talvez a mais óbvia delas: a obra em si, ou seja, a sua produção artística, as gravuras. A terceira é o compartilhamento. Vou da terceira para a primeira.

3. Sampaio é professor com p maiúsculo e isso já deveria ser suficiente para terminar o artigo, mas insisto. Ele é artista-educador de uma das iniciativas mais legais da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a oficina de desenho e gravura da Ação Educativa Extramuros, do PISC (Programa de Inclusão Sociocultural), que leva moradores de rua para dentro de um espaço tido como erudito e os instrumenta a ampliar seus repertórios.

2. As xilogravuras de Sampaio – ou, pelo menos, as que conheci – não são figurativas e trazem uma repetição proposital que se traduz em ritmo. Ele as instala em espaços urbanos, especialmente em muros, paredes, fachadas. Ou seja, ele as instala em limites. E, com a composição (cor, textura, ritmo, forma, etc), chama a atenção para este limite e nos leva a perceber uma linha separadora que muitas vezes simplesmente não nos importa mais. A gravura aponta esse limite, esse contorno e, ao apontá-lo, se apropria dele e o destrói. Uma vez que o limite nos “pertence”, deixa de ser um limite.

1. Que limites nos contém? Muros não definem um ambiente. Uma escola ou qualquer outro centro de convivência é uma experiência que vai muito além de seus muros. Conheço pessoas que definem suas casas como “onde meu computador está”. E aí vem o cloud computing e nem isso existe mais. Cadê o muro? Existe algo que separe o morador de rua do curador do Museu além deste limite absolutamente arbitrário? Na verdade não faço ideia se o questionamento de Sampaio é este mas é nisto que penso quando vejo o seu trabalho. É, portanto, o meu-dele questionamento. Outro muro que cai. Derrubar muros é sua-nossa especialidade. Ele compartilha o tempo todo. Por este motivo, inclusive, o escolhi para esta coluna. O que é a internet senão a quebra de fronteiras, de limites? Fazemos algo online que não seja, justamente, questionar e romper com estas arbitrariedades? Digo, além de ver vídeos de gatos, é claro.

Agora conto que Sampaio é arquiteto pós-graduado em Multimeios: cinema, vídeo e fotografia. Não que isso faça qualquer diferença. O melhor consultor em presença online que conheço, o Roney Belhassof, já foi piloto de navio. Meu irmão, tradutor, é formado em Economia. Aprendo filosofia com um historiador. Gosto de pessoas complexas, heterogêneas e com histórias complicadas. E nós, nesse backstage da internet, o que nos enriquece? Nem só de Php e Java vive o programador. Uma das minhas maiores queixas das atuais formações acadêmicas é a falta destas referências “externas”. O designer que decide estudar algo completamente fora da sua área (capoeira, finlandês, culinária, tanto faz) será necessariamente um designer melhor. Obviamente isso vale para todos, mas é na Wide onde escrevo.

Voltando ao Sampaio. Tenho a sensação de que sua meta é quebrar limites. Nas artes visuais, isso se traduz em um novo olhar, em ampliar o repertório visual e na experimentação. Não acho, entretanto, que se limite a isso. A arte visual é apenas a sua ferramenta para estimular a humanidade a refletir, a crescer. Somos capazes de evoluir apenas quando nos abrimos para esta possibilidade. Ou seja, quando estamos dispostos a sair da zona de conforto, quando estamos disponíveis para experimentar o mundo sem muros.

Vejo nele uma coerência que me inveja. Ou me falta o amadurecimento para ter esta coerência no meu trabalho ou me falta o distanciamento para percebê-la. Dúvidas, entretanto, tenho aos montes.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. #quebrando #limites. Revista Wide, Rio de Janeiro, p. 42, 01 dez. 2011.

A colheita do caju

01/10/2011 —

A arte e a tecnologia são muito mais ligadas do que pensa a maioria das pessoas. Observamos a influência de uma sobre a outra desde os tempos das cavernas. No Paleolítico pintamos com tinturas naturais, musgo, barro e o que mais estivesse ao alcance. Quando conseguimos lascar pedra logo começamos a esculpir. Um pouco mais tarde, a indústria teve a iluminação de criar tinta em tubos, dando mobilidade ao pintor, que começou a pintar fora de seu ateliê. A fotografia e a indústria gráfica também influenciaram de maneira muito significativa o nosso pensar e a nossa arte. Chegamos à era da informática, e com ela a ilustração 3D, vetorial, digital, pixel art e tudo mais que seremos ainda capazes de inventar. E que bom que seremos capazes de inventar. A imaginação é mais importante que o conhecimento, já dizia Einstein. Precisamos imaginar um futuro melhor para podermos inventá-lo.

Estes saltos evolutivos, que não são nem saltos e nem evolutivos, acontecem sempre movidos ou pelo desejo ou pela necessidade humana. E o desejo e a necessidade não andam separados. Nós hoje precisamos de celulares, i-coisas e toda uma quantidade de traquitanas móveis conectadas. Primeiro o desejo ou a necessidade? A vida mudou, as sociedades mudaram, a economia evoluiu, o profissional criativo não trabalha mais batendo cartão no escritório. Naturalmente, a mobilidade – e portanto o celular e demais gadgets – tornaram-se uma necessidade. Por outro lado, é o desejo de liberdade que nos move. É impossível dissociar um do outro. Assim “evoluímos”. Coloco entre aspas porque não existe aqui uma noção de valor, ou seja, não somos melhores nem piores que nossos antepassados ou que nossos sucessores. Somos diferentes. E isso é muito.

A arte é uma criação nossa e é necessariamente um reflexo de nós mesmos. O estudo da arte, conseqüentemente, é um estudo comportamental da nossa espécie.

Tudo muda, mesmo que você não note. Quer dizer, tudo menos o reinado felino no mundo nerd, é claro. Mudar é necessário, desejado e, humano.

Até mesmo o entendimento que temos de conceitos tão básicos como infância muda com o tempo. Quando a expectativa de vida era de 30 anos, 12 anos era considerado adulto. Mesmo mais tarde, com a vida já maior, ou éramos crianças ou éramos adultos. A adolescência só foi inventada a pouco mais de 100 anos, entre o final do século XIX e o início do XX.

Construímos sociedades mas felizmente não somos formigas que passam milhões de anos fazendo a mesma coisa. Assim como o Raul, eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

A Wide completa com esta edição o seu primeiro ano de vida e surgiu de uma mudança, de uma mutação que uniu as antigas Webdesign e TI Digital.

Os 365,2425 dias do calendário Gregoriano sempre me pareceram uma medida bastante estranha da passagem do tempo. A medida dos índios tupi-guarani fazia muito mais sentido. Eles contavam os anos pela época da colheita de caju, que – sem estufas e outras tecnologias agrícolas – acontece entre agosto de outubro. Então, fica aqui os meus parabéns à Wide e o voto de que muitas colheitas ainda venham!

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. A colheita do caju. Revista Wide, Rio de Janeiro, p. 42, 01 out. 2011.

Uma época de perguntas

01/07/2011 —

O fato é que nada é nunca claro em nosso estado de espírito, e nossa pintura sofre desta falta de certeza. Às vezes eu acho que o significado do meu trabalho está exclusivamente ligado à produção de uma pintura; às suas contínuas referências e modificações; a pequenas descobertas, como balsas em que um náufrago se agarra, e que depois afundam nas profundezas, levando com elas linhas, cores e pseudo-significados.” – Alberto Sughi

Em um ato de coragem escolhi falar sobre Alberto Sughi na coluna desta edição que, junto com Egon Schiele e Lucien Freud, é um dos meus artistas prediletos. Digo coragem porque é muito difícil analisar alguém por quem somos apaixonados, mas eu vou tentar. Antes de começar, entretanto, preciso dizer que o filho dele, Mario, é também um grande artista e ilustrador. Desta vez vou só falar do pai.

Os italianos consideram Sughi “il maestro della realtà” mas o realismo em Sughi é filosófico. Sua obra é pictórica e realista, sem dúvida, mas não é este seu maior realismo. O mestre da realidade é um título mais do que merecido pela ausência de hipocrisia. La classe dirigente (1965) é tão satírico sobre o governo e o poder vigente quanto Goya foi em seu tempo, enquanto Notturno no.2 (1998), por exemplo, é um retrato da vida noturna urbana quase carinhoso de tão próximo emocionalmente. Seus quadros de cidade e clubes noturnos, aliás, são os meus favoritos. É quase possível respirar a fumaça e ouvir a música.

O equilíbrio entre drama e leveza é uma das marcas características de Sughi. Outra é a mescla entre o desenho e a pintura, algo que muitíssimo me agrada. Em um vídeo, ele aparece colocando carvão sobre tinta a óleo. É de uma liberdade total, de alguém aberto ao diálogo entre a obra e o artista. O diálogo entre a obra e o fruidor é velho conhecido de qualquer um que já tenha posto os pés em um museu ou galeria, mas nem sempre o artista assume – ou mesmo admite – que sua criação responda. O questionamento estético da representação não se coloca como o saber técnico-artesão e nem como o de uma intangível identidade filosófica ou cultural. Seu questionamento acontece através da história contada. Ele é livre e sabe disso, faz uso desta liberdade. Nada mais contemporâneo.

A contemporaneidade é sempre muito difícil de definir porque não temos ainda o filtro do tempo e o afastamento emocional necessários para análise, mas posso afirmar com certa segurança de que o nosso tempo é marcado por diálogos, contradições, quebras de fronteiras e o questionamento de regras e paradigmas. Por vivermos em uma época de perguntas (e não de respostas), é natural que o desenho e o rascunho, antes entendidos como intermediários descartáveis, ganhem reconhecimento e valor. Existem até mesmo aqueles – como eu – que preferem ver o sketchbook do artista do que a obra pronta. Se pensarmos na trajetória da idéia artística e, considerando que ainda não conseguimos entrar dentro da mente do artista, o mais próximo do pensamento original é o rascunho, não a obra finalizada. O inacabado e o incorreto traduzem nossos desejos desde o ato falho de Freud (o Sigmund, não o Lucien). A verdade não está lá fora, a verdade está no erro.

Alberto Sughi, em outro trecho do mesmo post com que abri esta coluna, diz: “A pintura terminada, em exposição, emoldurada e fotografada, é apenas um ato convencional. É uma norma antiga da profissão do pintor mas é incapaz de nos representar completamente. Em outras palavras, no final, a história de nossos fracassos na tela seriam guias melhores para entender a mente do pintor do que a soma dos métodos, concessões, experiência ou outros truques que usamos para levar uma pintura à fruição. E talvez não seja nem mesmo assim!

Fico me perguntando se o real não está, justamente, nesta veia aberta que admite diálogo, que passa carvão em cima de tinta a óleo e que vê na soma dos erros a essência do artista. As redes sociais nada mais são do que uma soma de nossos erros e uma veia aberta ao diálogo. Nosso conceito de real só mudou tanto quanto com a internet quando descobrimos que o mundo não era plano e que o Sol não girava em torno de nós. E tem gente que ainda insiste em chamar esta experiência de “virtual”!

Obs: os trechos citados são traduções livres.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. Uma época. Revista Web Design, Rio de Janeiro, p. 42 – 42, 01 jul. 2011.