Final feliz possível

03/02/2015 —

Em 4 contos, e. e. cummings se afasta de qualquer indício de tom condescendente com o leitor

Felizmente o 4 contos: E. E. Cummings não cai naquele saco de textos de autores consagrados que acham que, apenas por este motivo, sabem escrever para crianças. Talvez um fator determinante seja que cummings escreveu este livro para a filha e para o neto, portanto com um envolvimento emocional, com uma “verdade”, e não para cumprir uma necessidade/oportunidade mercadológica. Eu tinha lido no original, uns bons anos atrás e já gostava do texto. Quando meu editor o colocou na pauta, fiquei ansiosa para conhecer a tradução. Claudio Marcondes fez um trabalho primoroso, desses raros que fazem com que a tradução seja tão boa ou melhor que o original. As ilustrações do Guazzelli também somam e a decisão pelo ton sur ton foi acertadíssima e imprime a leveza necessária para não competir com o texto e nem ficar aquém dele.

No posfácio, George James Firmage nos conta que a mãe de Nancy, filha de cummings, ocultou dela que ele era seu pai. Nancy soube apenas em 1948, com então 28 anos de idade, enquanto ele pintava seu retrato e lhe contou. Após uma análise da cronologia e da biografia de ambos, Firmage concluiu que os 3 primeiros contos foram escritos para a filha e que O elefante e a borboleta, para o neto. Tenho cá meus problemas com pais que se afastam de filhos, ou que se permitem afastar. Então, não vou dourar esses 28 anos. Não acho que isso faça dos contos melhores ou piores do que são. Não acho que isso faça do cummings mais ou menos humano do que foi.

É inegável, entretanto, a qualidade literária de seu trabalho. Não falo do conjunto de sua obra, analiso o título pelo título. Falo apenas deste livro, que seria o suficiente, caso eu nunca tivesse ouvido falar em e. e. cummings, para gostar dele.

Adoro o (ab)uso das funções rítmicas, coisas de quem já era poeta. Exemplos:

Então o homenzinho muito mas muito muito muito muito muito muito velho abriu um sorriso e, encarando o elfo, perguntou: “Por quê?”.” (O velho que só perguntava “por quê?”, p. 13)

Aí o elefante e a borboleta foram descendo pelas curvas do caminho.” (O elefante e a borboleta, p. 21).

Em alguns momentos, ele é mais explícito, como na construção em versos, com direito a uma aliteração cá e lá, como em A menininha chamada eu.

Ainda por cima, e. e. cummings faz isso sem aquele tom condescendente imbecilizante que tanto odeio. O conto A casa que comeu torta de mosquito termina lindamente, com “e viveram juntos tão felizes quanto é possível ser feliz“.

Não vou dar aqui uma de Adorno (escrever poesia depois de Auschwitz é uma barbárie) mas parece-me impossível a manutenção da fórmula do final feliz em pleno 2015. Sim, eu sei que estes textos não foram escritos agora, mas eles são importantes agora. Vivemos uma falência mundial de modelos e a literatura, especialmente a infantil, precisa acompanhar esta mudança de paradigmas. O final feliz tem, em si, uma ideologia (um sistema de ideias) e que traça um único objetivo possível. Se formos analisar com calma, é uma mensagem bastante TFP (“Tradição, Família e Propriedade”, termo usado aqui em um sentido assumidamente pejorativo). Para a criança ser aceita na sociedade, precisa cumprir os pré-requisitos do que supõe-se ser um final feliz. Muitos problemas aí. Para começar, o conceito de final é estranho. Um conto de fadas que termina com um casamento reforça a noção de que o casamento é o final de algo. Some a isto o fato da protagonista ser mulher, o final vitorioso – do casamento, só para ficar no mesmo exemplo – é a derrota de seu contraponto dramático na narrativa, o homem. São camadas e mais camadas de reforços ideológicos a serviço do capitalismo, onde o bom mesmo é ter posses, ser rico, casar e ter filhos, consumir. Ok, talvez um pouco adorniana.

Saindo um pouco da narrativa e ficando apenas no ritmo, cabe aqui a lembrança de Apollinaire, Baudelaire, Whitman, Rilke Verlaine, Maiakovski e Mallarmé, colegas de cummings na adoção da narrativa intertextual, d’après Saussure. Forçando um pouco a barra, mas não muito, estes poetas escreveram em uma estrutra bem próxima ao hipertexto, que usamos hoje na internet. Então, todo esse blablablá teórico é bem mais próximo do que você imagina.

Há, então, em cummings, pelo menos para mim, uma beleza estética. Este é um título que merece estar na biblioteca dos seus pequenos. Ou na sua, se você compartilhar a minha paixão por livros infantis.

Fico aqui, então, comemorando (fugindo d)o carnaval, sem vergonha de ser feliz, o quanto é possível ser feliz.

 

 

O AUTOR

E.E. Cummings

Edward Estlin Cummings (1894-1962), mais conhecido como e. e. cummings (em caixa baixa), foi um poeta, escritor, dramaturgo e pintor norte-americano. Estes contos são seus únicos trabalhos infantis, escritos originalmente para a filha e para o neto.

 

TRECHO

4 contos: E. E. Cummings

Assim, em seguida, o passarinho voltou a sair e capturou um monte de mosquitos, tantos que dava muito bem para fazer uma torta, e os levou para a casa, e a casa os cozinhou com bastante açúcar e os usou como recheio da torta. Com isso, o passarinho e a casa comeram cada um três grandes pedaços da deliciosa torta de mosquito (e é preciso dizer que depois eles se sentiram muito satisfeitos).

E não só isso – eles nunca mais foram incomodados por estranhos, e viveram juntos tão felizes quanto é possível ser feliz. (A casa que comeu torta de mosquito, p. 30)

 

Final feliz possível. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil. vol. 15, n. 178, p. 48. Curitiba: Editora Letras & Livros. Mensal. FEV 2015.

Caricatura para esquecer

03/01/2015 —

Apesar do cunho moralista e religioso, narrativa juvenil de Daniella Bauer não convence

A sinopse no site da Biruta diz: “Através dos olhos de uma menina, o leitor acompanha a trajetória de sua família que, em meio à Revolução Russa de 1917, viu-se obrigada a deixar para trás tudo o que conhecia e a empreender uma audaciosa e perigosa fuga rumo a um destino totalmente desconhecido. Com novas vidas e identidades, vê-se despertada pelas inúmeras perguntas que permanecem sem resposta. Mas, essa é a chave da morada. Não ter as respostas lhe permite seguir em frente e abrir todas as portas”. Entretanto, Morada das lembranças traz uma narrativa moralista e religiosa do que seria um sofrimento enorme, mas que não convence. Há uma total ruptura entre questionamentos infantis e a linguagem utilizada. Fica claro desde o início que o livro é proposto como um relato de uma senhora de idade que, ao lembrar de seu passado difícil, o narra na voz da menina. Esta diferença de idade entre a voz narradora e o que se lê de fato é justificada, então, por esta visita a um outro tempo. Justifica, não a torna boa.

Há um discurso de alma, de sofrimento por obrigação, de penar, que faz com que o livro caia em uma caricatura da mulher judia. Como toda caricatura, imagino ter um fundo de verdade qualquer, mas ainda assim é uma caricatura, que, por natureza, explora traços marcantes mas não necessariamente relevantes. Explora os mesmos preconceitos que diz combater. O livro é tão caricato e falha tanto em criar um vínculo afetivo com o leitor, que a decisão da editora em resolver o design só no projeto gráfico foi acertadíssima. Qualquer ilustração ali reforçaria ainda mais este problema, pois iria engolir o texto. O projeto gráfico, aliás, é ótimo e dá conta inclusive de um movimento necessário que falta à narrativa.

A história tinha tudo para ser incrível. Uma menina foge da Rússia, junto com sua mãe e um irmão bebê, após o assassinato do pai, durante a Revolução de 1917. Primeiro chegam à Polônia e, de lá, para o Rio de Janeiro. Só os contrastes dos lugares já seriam suficientes, mas não são explorados. A questão da língua é mencionada en passant mas o quanto a narradora vai bem na escola é reforçado várias vezes. Ou seja, a narradora, ela, sofrida, injustiçada, explorada, ainda assim não tem problemas na escola, tão fantástica, ela. As outras mulheres nas mesmas condições se prostituem, ela não. As outras mulheres polacas corrompem o seu corpo e perdem o direito de serem enterradas em cemitérios judeus, ela não.

O livro ganhou um prêmio importantíssimo, o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional 2014 na categoria Literatura juvenil, ou seja, livros para jovens leitores a partir de 14 anos. Fico me perguntando se eu, que tenho parte de família judia fugida da guerra, que escutei histórias parecidas — inclusive no teor de rancor —, não consegui criar nenhum vínculo afetivo com nenhuma das personagens, que adolescente de 14 anos o fará. Ao contrário do último livro de Marina Colasanti, o valor de Morada das lembranças é atribuído pelo prêmio, não pela qualidade literária.

Morada das lembranças esbarra perigosamente em uma autoajuda, em um tom de meritocracia, como quem diz que se a senhora-menina conseguiu manter-se “digna” e vencer, casar, criar filhos, estudar, trabalhar etc., mesmo com todas estas dificuldades, qualquer mulher consegue. Além do fato de que a perfeição não cria empatia com ninguém, acho especialmente perigoso quando este tipo de discurso está em um livro juvenil.

O livro todo é permeado por comentários fatalistas, religiosos, moralistas. Exemplos: A vida é o que tem de ser, difícil é acreditar nisso (p. 58). Esses anos sem fé foram os anos mais difíceis de minha vida (p. 158). Ser homem é completamente diferente de ser mulher. Sei que essa é uma questão óbvia, mas, de tão óbvia, inexplicável (p. 175).

Parece haver um esforço da autora em aplicar seus conhecimentos psicológicos na narrativa, sob a forma de demonstração da fantasia infantil da independência. O problema é que isso funciona no consultório, não aqui. O delírio infantil é mantido na voz de uma senhora: “Resolvi que, daquele dia em diante, não levaria mais meus problemas a nenhum adulto, eu os resolveria sozinha, à minha maneira (p. 69)”. Crianças precisam disso para se tornarem independentes, se tornarem adultos saudáveis. A maioria dos adultos que acreditam que foram, de fato, plenamente independentes quando crianças, é, no mínimo, delirante. Guerra ou não guerra. Este é um dos problemas de se colocar a narrativa na voz de uma senhora quando a história pertence a uma menina.

Não sei se a origem de Morada das lembranças é essa, mas consigo imaginar uma senhora, talvez a avó da autora, contando essas histórias. Consigo até me identificar com a necessidade de colocá-las no papel, que não se percam. Estas histórias são importantes. Não devem ser esquecidas. Este esforço precisa ser feito. Há, entretanto, um hiato entre a emoção de quem as recebe, de quem as escuta da boca de entes queridos, e a possibilidade de torná-las interessantes como literatura.

Tive uma professora na Belas Artes que me dizia que o fruidor não sabe e nem deve saber se a obra foi ou não difícil de fazer, que seu percurso não importa. Ele deve se emocionar com o que tem à frente. A obra pronta, finalizada, é toda a informação que o fruidor tem. O mesmo vale para a literatura. Só podemos analisar um livro pelo livro, pela literatura, pela emoção que nos causa. Morada das lembranças não emociona.

 

Trecho:

Há um pouco de morrer em cada perda. Cada morte leva consigo um pequeno pedaço nosso e assim seguimos, às vezes esburacados, às vezes mais fortes. Será que, após cada morte, nasce algo que preencha momentaneamente nossos corações? Que anjos me habitam, que demônios me atormentam? Travei essas guerras silenciosas e invisíveis ao longo de toda a minha vida.

 

Publicado no Jornal Rascunho, janeiro de 2015.

O voo da liberdade

04/12/2014 —

Ganhador do Jabuti, “Breve história de um pequeno amor” valoriza o leitor de primeiras viagens

Esta foi uma crítica muito difícil de escrever. Não tenho com este livro o distanciamento emocional que os jornalistas velha-guarda me ensinaram necessário. Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna enriqueceram o meu caminho ao cruzá-lo à época da revista Next Brasil, que eu produzi e editei por um curto período, ao lado de pessoas que me são caras. Como se não bastasse, Breve história de um pequeno amor conta o resgate de um filhote de pombo. O resgate animal é um hábito familiar tão próximo que não sei mais distinguir se meu ou de outrem. O de passarinhos, especificamente, é uma aventura recorrente que acabou por se transformar em livro, A pontinha menorzinha do enfeitinho do fim do cabo de uma colherzinha de café, de Elvira Vigna, que tem em comum comigo bem mais que o sobrenome. E, como se tudo isso não fosse o suficiente, Rebeca Luciani fez escolhas que eu também faria como ilustradora.

Colasanti narra a história na primeira pessoa. O texto corre tratando o leitor com respeito. Tenho especial afeto por livros infantojuvenis que não desmerecem o leitor, que não o tratam como inapto ou incapaz. Breve história de um pequeno amor é desses. Ao não menosprezá-lo, o livro cumpre a sua função na formação do jovem leitor.

Outro ponto forte de Breve história… é a narradora. Colasanti se coloca como é, uma mulher adulta, casada, que tem um escritório com infiltração. E que falha, que é humana. A vida como ela é. A passagem da narradora com ciúmes da companheira do pombo Tom é hilária. “Tentei ser justa, mas qualquer um podia ver que aquela não era namorada digna do meu Tom (…)” Há, também, algo de muito afetivo em um casal que tenta ensinar um pombo – ou um leitor – a voar.

A história é escrita e assumida como real, pouco importa se o é de fato ou se o é na íntegra. Quando o autor não escreve intencionalmente colocando em seu texto aquilo que alguém assume como sendo o que o leitor deseja/precisa, o livro se liberta das amarras comerciais (necessariamente falsas, já que partem do pressuposto absurdo de que é possível saber o que e como o outro quer o que for) e passa, então, a ser verdadeiro. Este verdadeiro pode ser – e normalmente é – ficcional ou ficcionalizado. Então, o “verdadeiro” no texto não é o biográfico ou o factual, mas sim a sua oposição ao comercial. Colasanti e Luciani fazem opções não comerciais.

Veja bem, não estou dizendo que o resultado final não possa ou não deva ser comercializado. Pelo contrário. Estou dizendo que, ao não criar com este objetivo, o produto final (sim, é um produto) é real o suficiente para ser próximo do leitor/consumidor e, portanto, comercializável. A proximidade com o leitor não se dá jamais ao tratá-lo como idiota e nem ao forçar uma similaridade.

A decisão de Colasanti em narrar a história como uma mulher de meia idade, casada, que tem um escritório com infiltração, etc. é acertada justamente porque diz ao jovem leitor que ele está sendo tratado como um igual mesmo não o sendo. Há o diálogo. O que permanece, no final das contas, é o respeito da não-condescendência.

A decisão de Luciani em mostrar detalhes, em pontuar partes, também é feliz. Não compete com o texto e, ao mesmo tempo, dá espaço ao leitor. Ela coloca na ilustração apenas aquilo que é essencial, aquilo que não é possível ficar de fora. Se está ali apenas o que é essencial, está ali o que é sincero e, portanto, verdadeiro.

Então, considerando a maturidade do trabalho de ambas, conseguimos entender como Breve história de um pequeno amor ganhou o Jabuti de Livro do ano de ficção. Não que eu ache que o Jabuti atribua valor a uma obra que ela já não tenha. Não acho, não. Nem o simpático quelônio, nem qualquer outro. O valor da obra é medido no leitor. E esta merece leitura.

 

Publicado no Jornal Rascunho, dezembro de 2014.

Doce ilusão

04/11/2014 —

Tentei com afinco não falar bem de um prêmio Nobel de Literatura. Não por moda ou hype, mas porque me pareceu uma obviedade, uma unanimidade burra. Fiz um esforço no melhor estilo espírito-de-porco para colocar um probleminha aqui ou ali. Falhei miseravelmente em minha rabugice. O livro é ótimo.

Patrick Modiano, o escritor nobelíssimo, é francês, mas lendo Filomena Firmeza eu nem precisava te contar isso. O livro tem aquele clima parisiense que mesmo quem nunca esteve por lá conhece. As ilustrações do Jean-Jacques Sempé ajudam, já que o traço dele é quase que automaticamente associado à França. Modiano é filho de um comerciante judeu e uma atriz de Flandres. Há um paralelo fácil aqui com o livro, já que o pai de Filomena é comerciante e a mãe, bailarina. As histórias, biográfica e literária, se passam durante a Segunda Guerra. As comparações simplistas acabam aqui.

Em termos de delicadeza frente ao bruto, Filomena Firmeza lembra um pouco o filme brasileiro O ano em que meus pais saíram de férias, de 2006. Há uma apropriação da visão infantil — nem sempre naïf — de dores cotidianas e de horrores históricos. Filomena deixa de falar dos horrores da guerra, O ano em que…, dos horrores da ditadura. Este “deixar de falar”, como todos nós sabemos, muitas vezes expressa mais do que a verborragia. Expressa um risco, o de contar uma história por seus limites, sem impor um fato, sem obviedades. E, ao optar por este caminho aberto (e portanto íntimo), ao mesmo tempo que o autor corre um grande risco, a literatura se renova.

Filomena Firmeza é um livro de sutilezas. A história é narrada por uma personagem já adulta que, ao ver a filha no balé, lembra de sua infância. São três gerações de bailarinas. A mãe da narradora, a narradora e a filha. A guerra é mencionada apenas en passant na página 19: “Uma tarde de verão, pouco antes da guerra, quando papai era jovem, (…)” e não aparece diretamente na história. São indicações muito tênues, como o sumiço da Odile, amiga do balé; a súbita troca de nacionalidade e sotaque inventado da senhora Dismailova, professora; ou o registro no cartório onde adotam o sobrenome Firmeza. Além, claro, da mudança da família (primeiro a mãe, depois o pai e a filha) para os Estados Unidos.

No começo, eu invejava minhas colegas que não usavam óculos. Para elas, tudo era simples. Mas, depois de refletir, concluí que tinha uma vantagem: viver em dois mundos diferentes, se usasse ou não os óculos. E o mundo da dança não era a vida real, mas um mundo onde se saltava e onde se faziam entrechats em vez de simplesmente andar. Sim, um mundo de sonho, como aquele desfocado e delicado que eu via sem meus óculos.” (p. 39)

A figura paterna é adocicada e vista através dos olhos gentis da filha-narradora, mas o que eu mais gosto é o brinde: “A nós dois, senhora Vida”. Parece-me inteligente. É ao que podemos brindar, afinal de contas.

Para dançar, a narradora precisava tirar os óculos. Há toda uma brincadeira dela com o pai sobre o ver o mundo em foco ou não. Tirar e colocar os óculos como uma decisão sobre a absorção e relação com o mundo. Quem, como eu, depende dos óculos para não morrer atropelado cada vez que sai à rua, sabe muito bem que sem óculos ficamos também surdos. O não escutar sem óculos de Filomena, entretanto, é opcional, intencional e premeditado: “Mas eu tinha tirado os óculos e não o escutava mais”.

Não há característica mágica alguma. Não há sequer um acaso. Filomena e seu pai sabem o que estão fazendo, com consciência de suas escolhas. Inclusive a escolha de não absorver o mundo. Fica, então, a ideia muito clara de opção. É uma opção perceber as asperezas. É possível brincar em situações complicadas. Há uma predileção pela afabilidade mas há também um filtro, uma curadoria da realidade. E eu acho que isso é um conceito importante para qualquer um, não apenas para crianças. Podemos escolher. E a escolha nos apodera e nos fortalece. Filomena Firmeza é um livro delicado sobre pessoas fortes.

A nós duas, senhora Vida.

Publicado no Jornal Rascunho, novembro de 2014.

 

O charme do ladrão

03/10/2014 —

O clássico “Robin Hood”, de Alexandre Dumas, combina diversos elementos numa forma estrutural poética

O charme do ladrão

Desde o manuscrito infantil Robin Hood and the monk de 1450, atualmente na Universidade de Cambridge, Robin Hood teve várias formas. Merece menção a primeira impressão de A gest of Robyn Hode (c. 1475) e Robin Hood and Little John, do século 18. Nosso arqueiro contou com versões, adendos, músicas e filmes. Talvez as mais conhecidas sejam as de Anthony Munday (1601), Howard Pyle (1883), Frank Sidgwick (1903), Neil Philip (2000) e esta, de Alexandre Dumas, publicada postumamente, em 1872-73, em dois volumes (Le prince des voleurs e Robin Hood le proscrit).

A história, ambientada na Inglaterra de Ricardo Coração de Leão (1157-1199), todo mundo conhece. O fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres. Floresta, arco e flecha, aquela coisa toda. Não há necessidade de repassar isso aqui de novo.

Esta versão é comentada e confesso aqui, só entre nós dois, que gostaria que fosse mais. As notas fazem uma grande diferença na leitura, especialmente para puristas como eu. Destaco, por gosto e boniteza, a nota de número 33: 

Ligeiro anacronismo na narrativa, já que as ordens mendicantes só surgiram no século seguinte, com são Domingos (1170-1221) e são Francisco de Assis (1181-1226). As ordens mendicantes se diferenciavam de outras ordens monacais pela não exigência da clausura em monastérios. Sua principal característica reside no fato de a sobrevivência física dos frades depender de esmolas e doações das pessoas, o que os levava a uma vida de errância, dedicada à pregação e à evangelização.

Percebe-se também o zelo do tradutor em manter o clima e o linguajar do original.

Um farfalhar mais demorado da folhagem e estalidos rápidos em moitas ali por perto perturbaram o devaneio do jovem arqueiro, que ergueu a cabeça e viu um gamo assustado atravessar a mata, passando pela clareira e logo desaparecendo nas profundezas da floresta.

Jorge Bastos é dos meus. A beleza está nos detalhes.

Interessa-me particularmente a estrutura de Robin Hood. A história era originalmente contada em baladas (algo mais ou menos como um poema narrativo). Para a felicidade dos linguistas e entusiastas, as versões romanceadas seguem as características das baladas à risca. Ao contrário de outros poemas narrativos, como um poema épico, por exemplo, a balada tende a focar em um evento dramático por vez, frequentemente com uma moral, assim como as fábulas. O narrador normalmente é na terceira pessoa e oculto. Os acontecimentos no decorrer da história são lentos, de forma que o herói possa aparecer em toda sua glória. De certa maneira e com alguma licença poética, é uma estrutura bastante similar à dos quadrinhos e, por sua vez, à dos roteiros blockbusters de cinema. Não por acaso, Robin Hood teve tantas versões para o cinema.

As versões medievais, musicais, também seguiam a balada. Tanto a estrutura do poema quanto a da canção é a clássica ABAB. Isso é o que chamamos, na literatura (poesia), de forma fixa. Outro exemplo é o soneto, muito utilizado em música também. Essa codificação ABAB diz respeito à rima, por estrofe. São quatro estrofes por verso, o primeiro rima com o terceiro e o segundo com o quarto. Naturalmente, os romances não seguem a métrica fixa, mas ainda assim podemos perceber em Robin Hood a mesma estrutura poética sendo repetida, em termos de tensão da narrativa, na alternância entre os momentos de dificuldade (A) e os de heroísmo (B). Como por exemplo, o abandono inicial (A), Robin salva a bela Marian (B), cobrança de impostos (A), grupo de rebeldes (B), e assim sucessivamente. A história termina bem, ou seja, termina em B.

Gênero
Não é tarefa fácil categorizar Robin Hood em um gênero literário. Não é bem um romance histórico, mas é. Tem todos os elementos necessários: recria a sociedade da época, incluindo aspectos jurídicos, linguísticos, culturais, econômicos e políticos. Por outro lado, nosso arqueiro talvez não passe de um mito, mesmo com vários historiadores se esforçando bastante para provar sua existência. Em 1852, Joseph Hunter, encontrou um certo Robert Hood, que trabalhava para Eduardo II. E, como existem, de fato, muitos registros policiais de um criminoso da época chamado “Hood, R.”, Hunter acreditou ter encontrado a verdadeira identidade do nosso arqueiro. Mais recentemente, Tony Molyneux-Smith publicou em 1998 o livro Robin Hood and the Lords of Wellow, em que afirma que Robin Hood é pseudônimo do lorde Sir Robert Foliot. Jorge Bastos ainda cita outras ocorrências na apresentação desta edição. Ou seja, não sabemos ao certo. Não que isso importe, a história é maravilhosa de toda forma.

Alexandre Dumas
Existem dois Alexandres Dumas. O pai e o filho. Falamos aqui do pai. O filho, também escritor, é o autor de A dama das Camélias. Isso costuma causar certa confusão. O pai é o autor de Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo, etc. A biografia de Dumas, por si só seria suficiente para alguns tomos de romance e aventura. Alexandre Dumas era filho do primeiro general mulato do exército napoleônico e de uma escrava liberta. Era, portanto, negro/mulato em uma época — início do século 19 — em que isso era um problema ainda maior do que é hoje. Sofreu muito com racismo mas, no entanto, só falou brevemente da questão racial em Georges, romance publicado em 1843. Suas peças e livros eram populares e seriam suficientes para mantê-lo financeiramente, não fosse ele um perdulário ensandecido. Além de ter vivido endividado até a alma, mantinha casos extraconjugais com voracidade. De um desses, inclusive, nasceu o autor de A dama das Camélias. Era uma época movimentada. No prefácio desta edição, Jorge Bastos nos conta que

Casado com Ida Ferrier, numa noite fria ele preferiu ir trabalhar no quarto do casal, onde a lareira estava acesa. Ida aparentemente dormia e ele escreveu por um bom tempo, até ouvir um espirro, vindo de dentro do armário — onde descobriu o escritor e amigo Roger de Beauvoir. Viu o pobre homem se resfriando e aconselhou que se pusesse junto ao fogo. Depois, indicando a cama, onde a esposa continuava a fingir que dormia, propôs: “Façamos como os romanos antigos e reconciliemo-nos em praça pública”.

Teve também uma filha, Alexandrine, com Marie de Fernand, tradutora e autora que assinava sob o pseudônimo de Victor Perceval. Acredita-se que ela colaborou de forma bastante significativa em Robin Hood e em Os três mosqueteiros. Era uma boa parceria, já que Dumas também emprestava seu nome como coautor para garantir a publicação das obras “carreira solo” de Perceval.

O século 19 foi movimentadíssimo. Falando só dos assuntos que mais me interessam, é a época de Almeida Garrett, Charles Dickens, Degas, Delacroix, Dostoievski, Flaubert, Goethe, Goya, José de Alencar, Machado de Assis, Manet, Mark Twain, Melville, Monet, Oscar Wilde, Renoir, Tchekhov, Tolstói, Toulouse-Lautrec e Victor Hugo (amigo de Dumas, aliás). Não vale escrever para a redação reclamando que deixei seu autor/artista favorito fora da lista, viu? A lista é grande e meu espaço acabou.

 

Publicado no Jornal Rascunho, outubro de 2014.

Infância amoral

02/08/2014 —

Oskar Luts (1887-1953) foi farmacêutico e um consagrado escritor estoniano. Primavera é o primeiro e mais famoso título do autor e foi publicado em 1912, enquanto a Estônia ainda estava sob domínio soviético. Por este motivo, o romance infanto-juvenil traz diversas referências ao idioma russo e ao alfabeto cirílico como partes do currículo obrigatório escolar. A independência da Estônia do Império Russo aconteceu pouco depois, com a Revolução de 1917.

Primavera trata da rotina de um grupo de crianças que atendem a uma pequena escola dirigida por um sacristão e um único professor, como era típico em cidades pequenas em qualquer lugar. Há uma similaridade com todos os livros do gênero “aventuras saudosistas de infância” (que eu acabei de cunhar), incluindo os de Mark Twain, Jorge Amado, etc.  Apesar de os meninos de Primavera ocasionalmente dormirem na escola e não em um trapiche e de tampouco serem assaltantes ou ladrões, a forma natural de descrever atrocidades infantis e o comportamento de grupo encontram ecos em Jorge Amado. Penso mais especificamente em Capitães de Areia, é claro, mas infelizmente faltam à Estônia o savoir faire e o charme da Bahia. Falta também a Luts a destreza de Amado.

Por outro lado, pensando em Mark Twain, existem duas personagens centrais em Primavera que tem entre si uma tensão muito similar à de Huckleberry Finn e Tom Sawyer. Um esperto, malandro, mentiroso e desordeiro, o Toots, e um outro, “bom menino”, o Arno. O rio Mississippi não fica na Estônia, mas ainda assim, há a presença constante de um grande lago próximo e do ambiente rural. Curiosamente, há também um cemitério e caminhos a serem percorridos a pé por crianças desacompanhadas. No cemitério não acontece nenhum crime, mas é também uma cena de quebra de inocência, em que o Arno entende que sua amada talvez não seja mais sua. Lible não é negro nem escravo, mas representa, assim como Jim, a figura do adulto contraventor de bom coração e de uma classe social mais baixa. Há também uma história significativa de uma balsa, que não é utilizada pelos protagonistas e acaba por tornar-se uma fonte de tensão e um dos pontos de discórdia entre as personagens. Toots também busca um tesouro, não em uma caverna, mas escondido nas ruínas edificadas de sua escola. Até mesmo as personagens femininas são secundárias ou estão no papel materno (mãe, avó, tanto faz). Assim como Becky Thatcher, Teele é considerada por todos como esperta, inteligente e com opiniões próprias. Em Primavera, ao contrário de em Huckleberry Finn ou Tom Sawyer, a menina passa a maior parte do livro como pretendente, não como vetor causador de ação. Teele é a menina que espera. Ela personifica a ideia masculina da mulher ideal, que vem de família rica, ajuda em casa, estuda e aguarda passivamente o pretendente. Reproduz, portanto, a ideia do universo masculino infantil como sendo o único de real interesse, onde as coisas acontecem de fato, onde há aventura. Um machismo e um androcentrismo perfeitamente compreensíveis na Estônia de 1912 ou nos Estados Unidos de 1876, nem tanto no Brasil de 2014.

As aventuras de Tom Sawyer foi publicado em 1876; As aventuras de Huckleberry Finn em 1884; Primavera, em 1912. Em uma época bem anterior à internet e que portanto as informações levavam consideravelmente mais tempo para rodar o planeta, parece-me pouco provável que trate-se de uma questão de inspiração ou muito menos de plágio, mas as coincidências são gritantes. Acredito, entretanto, ser um desses casos de época, em que há um certo inconsciente coletivo, um conteúdo recorrente e comum a várias culturas.

As histórias se desenvolvem com contextos tão distantes de nós que causam incômodo. Brigas violentíssimas tratadas como simples questões infantis, crianças bebendo vodka e usando arma de fogo, ou tiradas da escola para cuidar do gado, além de um menino – o Arno, um dos principais – que não sabe o que é metal.

- O que significa isso: de metal?

- Ah, de metal? Que idiota, você não sabe mesmo o que significa de metal? (…)

- Metal… é uma madeira preta. Uma madeira que não se consegue cortar com uma faca.

(p. 31)

Há, naturalmente, um interesse quase sociológico nesta que foi a realidade de cidades pequenas da Europa Setentrional no início do século passado. Apesar de ser um título interessante para aqueles que queiram se aprofundar na cultura estoniana, parece-me difícil que um jovem leitor hoje consiga se relacionar com alguma das personagens ou com a maioria dos dramas narrados.

Não tenho como saber se os termos extemporâneos sapecas, traquinas etc são ou não um deslize da tradução. Meu estoniano anda enferrujado. De toda forma, o uso da palavra berro para revólver ou mesmo a presença de um gramofone, além do clima geral do livro, me fazem apostar na inocência do tradutor.

Algumas referências, como a do instrumento kannel, podem suscitar um google, o que não é ruim, longe disso. Procurar por estonian kannel no youtube, por exemplo, pode trazer resultados divertidos.

As ilustrações de Sandra Jávera são deliciosas e emprestam ao livro um pouco de leveza. No miolo, ela usa aguadas e traço em preto e branco em excelentes escolhas temáticas. As imagens tem um óbvio cuidado em não contribuir com a violência que, às vezes, encontramos no texto mas, ao mesmo tempo, dialogam com ele, em um bem-vindo equilíbrio.

O melhor de Primavera é a sua não-conclusão e falta absoluta de moralismo. Não há um final feliz açucarado ou a conclusão dos dramas vividos no decorrer de suas 423 páginas. É apenas um recorte de uma realidade. Não há uma moral da história. E isso é ótimo. Infelizmente, entretanto, Primavera é tão atual quanto um livro estoniano de 1912.

 

Publicado no Jornal Rascunho, agosto de 2014.

Exorcismos, amores e uma dose de blues

27/07/2014 —

 

Duas das ilustrações feitas para o novo livro de Eric NovelloExorcismos, amores e uma dose de blues, que será lançado pela Gutenberg agora em agosto, na próxima Bienal.

Você pode acompanhar as últimas novidades sobre o lançamento do livro no twitter do autor.

Recomendo também os outros títulos dele (mesmo não tendo sido ilustrados por mim, mimimi).

NOVELLO, Eric. Exorcismos, amores e uma dose de blues. São Paulo: Gutenberg, 2014.        NOVELLO, Eric. Exorcismos, amores e uma dose de blues. São Paulo: Gutenberg, 2014.

E, de brinde, uma que foi feita para este livro mas que acabou ficando de fora.

trem - originalmente para NOVELLO, Eric. Exorcismos, amores e uma dose de blues. São Paulo: Gutenberg, 2014.

 

Em tempo: a capa do livro não é minha, só as ilustrações do miolo.

 

Diário do Comércio 30 de abril de 2014

30/04/2014 —

Hoje, tanto na versão online quanto na página 11 da versão impressa, saiu uma elegante matéria no Diário do Comércio (SP) sobre a exposição dos Ex Libris, que acontece no Centro Universitário Belas Artes São Paulo.

Um afago poético no coração de bibliófilos

Matéria no Diário do Comércio, de 30 de abril de 2014.

Menciona também a instituição, o Centro Gestor de Informação e a Biblioteca de Obras Raras Paulo Antonio Gomes Cardim, pela qual sou responsável. A curadoria da exposição é minha.

Maior que a morte

01/04/2014 —

Falar de Harvey: como me tornei invisível como um livro sensível ou poético é diminuí-lo. Assim como toda grande obra, transcende classificações, categorizações e, principalmente, adjetivos. O premiado livro de Hervé Bouchard, lindamente ilustrado por Janice Nadeau, trata da morte da figura paterna. Mas isso é uma informação que o Google resolve.

O autor nos leva a uma associação de sensações transponível para qualquer momento importante de nossas vidas.

Eu sinto calor e tenho a impressão de que as mangas de meu casaco de couro se esticam. Mas a primeira primavera é também a estação das corridas nas sarjetas. E é também a estação em que Cantin e eu perdemos papai Bouillon. E é a época em que eu fiquei invisível. É muita coisa para contar.

O menino brinca com palitos. O seu palito tem um pontinho. Este pontinho faz com que ele seja Scott Carey. A simbologia de Scott Carey, o herói do filme O incrível homem que encolheu (The incredible shrinking man, 1957), é também um prenúncio do que sentimos frente a uma perda tão significativa quanto esta. Nos diminuímos, nos encolhemos.

Harvey e seu irmão Cantin perdem o pai. O que Harvey deseja, entretanto, é que, mesmo morto, o pai o veja. Há mais neste ver. Existimos quando somos percebidos. O fenômeno — da fenomenologia, a existência — só pode se transformar em conhecimento através da linguagem. Ou seja, é necessário significar (transformar em signo) algo para que este algo passe a existir para nós. Veja bem: não é passar a existir, é passar a existir para nós. E é isso que Harvey deseja, ele quer certificar-se de que existe para o pai morto. Ele precisa ser visto.

O pai morto não o vê. E então Harvey torna-se invisível. Ele depende deste olhar — o olhar do Outro — para formar juízo sobre si próprio. Quando não encontra este olhar, percebe-se invisível.

Hervé Bouchard (1963) é canadense de Québec. Mais especificamente, de Arvida, uma vila industrial onde corridas de palitos na sarjeta são perfeitamente possíveis. Ele é também professor de literatura. Bouchard tem clara influência da fase mais minimalista de Samuel Beckett (1906-1989). Outros livros anteriores seus, como o seu décimo romance Parents et amis sont invités à y assister, também receberam prêmios e honrarias, mas foi com Harvey que seu nome atravessou mais fronteiras. Não sabemos o quanto há de biográfico em seus livros e, sinceramente, não importa. A tomada de consciência de que trata Harvey nos diz respeito diretamente. Nos tornamos invisíveis em muitos momentos. Uma injustiça trabalhista, uma separação conjugal, a perda de perspectiva, toda vez que nos calamos. Calar-se é se colocar na invisibilidade, é aniquilar o que há de essencial. A impossibilidade de acessar o Outro — som ou imagem, tanto faz — é a perda mais profunda porque não há como revertê-la.

E temos ainda as ilustrações de Janice Nadeau. Nadeau não é redundante. As imagens, como devem ser mas raramente são, oferecem uma leitura a mais. Nos dão uma emoção complementar e nem um pouco óbvia deste tornar-se invisível.

Segundo Victor Chklóvski, o objetivo da imagem não é tornar mais próxima de nossa compreensão a significação que ela traz, mas criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento.

Chklóvski referia-se à fotografia, mas o raciocínio pode ser ampliado. O livro ilustrado tem como maior desafio colocar-se como um apoio à literatura sem nem brigar com ela e nem repeti-la. E isso não é um desafio pequeno. Nadeau, com sua narrativa quase cinematográfica, dá aquela cutucada na ferida aberta por Bouchard.

A perda de que Harvey fala é muito maior do que a morte. Falar dele como um livro sensível ou poético é diminuí-lo.

 

Publicado no Jornal Rascunho de abril de 2014

carolina.vigna.com.br

07/12/2013 —

Pois é.

Volto a usar meu nome de solteira.

Carolina Vigna.

Tenho por aí espalhado quase 15 anos de livros, publicações, ilustrações, artigos etc, com o meu nome de casada, Vigna-Marú. Vou demorar décadas para conseguir alterar o nome em todos os perfis das redes sociais, aplicativos, etc, mas vou fazendo, de grão em grão. O email também mudou, anota aí: carolina@vigna.com.br

Como sempre, eu limpo o portfolio, apagando coisas que não me interessam mais ou que eu acho que já deram o que tinham que dar. Obviamente, isso é muito subjetivo e às vezes eu erro. Quando percebo, coloco de volta.

Não consigo mais manter um blog como fazia antigamente. Não vou nem tentar. Tenho feito muita, muita coisa e simplesmente não dá tempo.

Eu precisei refazer o site todo. Ainda não coloquei o clipping. Os artigos da Wide ainda estão pela metade. Os do Carreira Solo eu ainda nem comecei.

Deixo vocês com Chuck Berry. Porque… Porque c’est la vie.