Infância amoral

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Oskar Luts (1887-1953) foi farmacêutico e um consagrado escritor estoniano. Primavera é o primeiro e mais famoso título do autor e foi publicado em 1912, enquanto a Estônia ainda estava sob domínio soviético. Por este motivo, o romance infanto-juvenil traz diversas referências ao idioma russo e ao alfabeto cirílico como partes do currículo obrigatório escolar. A independência da Estônia do Império Russo aconteceu pouco depois, com a Revolução de 1917.

Primavera trata da rotina de um grupo de crianças que atendem a uma pequena escola dirigida por um sacristão e um único professor, como era típico em cidades pequenas em qualquer lugar. Há uma similaridade com todos os livros do gênero “aventuras saudosistas de infância” (que eu acabei de cunhar), incluindo os de Mark Twain, Jorge Amado, etc.  Apesar de os meninos de Primavera ocasionalmente dormirem na escola e não em um trapiche e de tampouco serem assaltantes ou ladrões, a forma natural de descrever atrocidades infantis e o comportamento de grupo encontram ecos em Jorge Amado. Penso mais especificamente em Capitães de Areia, é claro, mas infelizmente faltam à Estônia o savoir faire e o charme da Bahia. Falta também a Luts a destreza de Amado.

Por outro lado, pensando em Mark Twain, existem duas personagens centrais em Primavera que tem entre si uma tensão muito similar à de Huckleberry Finn e Tom Sawyer. Um esperto, malandro, mentiroso e desordeiro, o Toots, e um outro, “bom menino”, o Arno. O rio Mississippi não fica na Estônia, mas ainda assim, há a presença constante de um grande lago próximo e do ambiente rural. Curiosamente, há também um cemitério e caminhos a serem percorridos a pé por crianças desacompanhadas. No cemitério não acontece nenhum crime, mas é também uma cena de quebra de inocência, em que o Arno entende que sua amada talvez não seja mais sua. Lible não é negro nem escravo, mas representa, assim como Jim, a figura do adulto contraventor de bom coração e de uma classe social mais baixa. Há também uma história significativa de uma balsa, que não é utilizada pelos protagonistas e acaba por tornar-se uma fonte de tensão e um dos pontos de discórdia entre as personagens. Toots também busca um tesouro, não em uma caverna, mas escondido nas ruínas edificadas de sua escola. Até mesmo as personagens femininas são secundárias ou estão no papel materno (mãe, avó, tanto faz). Assim como Becky Thatcher, Teele é considerada por todos como esperta, inteligente e com opiniões próprias. Em Primavera, ao contrário de em Huckleberry Finn ou Tom Sawyer, a menina passa a maior parte do livro como pretendente, não como vetor causador de ação. Teele é a menina que espera. Ela personifica a ideia masculina da mulher ideal, que vem de família rica, ajuda em casa, estuda e aguarda passivamente o pretendente. Reproduz, portanto, a ideia do universo masculino infantil como sendo o único de real interesse, onde as coisas acontecem de fato, onde há aventura. Um machismo e um androcentrismo perfeitamente compreensíveis na Estônia de 1912 ou nos Estados Unidos de 1876, nem tanto no Brasil de 2014.

As aventuras de Tom Sawyer foi publicado em 1876; As aventuras de Huckleberry Finn em 1884; Primavera, em 1912. Em uma época bem anterior à internet e que portanto as informações levavam consideravelmente mais tempo para rodar o planeta, parece-me pouco provável que trate-se de uma questão de inspiração ou muito menos de plágio, mas as coincidências são gritantes. Acredito, entretanto, ser um desses casos de época, em que há um certo inconsciente coletivo, um conteúdo recorrente e comum a várias culturas.

As histórias se desenvolvem com contextos tão distantes de nós que causam incômodo. Brigas violentíssimas tratadas como simples questões infantis, crianças bebendo vodka e usando arma de fogo, ou tiradas da escola para cuidar do gado, além de um menino – o Arno, um dos principais – que não sabe o que é metal.

– O que significa isso: de metal?

– Ah, de metal? Que idiota, você não sabe mesmo o que significa de metal? (…)

– Metal… é uma madeira preta. Uma madeira que não se consegue cortar com uma faca.

(p. 31)

Há, naturalmente, um interesse quase sociológico nesta que foi a realidade de cidades pequenas da Europa Setentrional no início do século passado. Apesar de ser um título interessante para aqueles que queiram se aprofundar na cultura estoniana, parece-me difícil que um jovem leitor hoje consiga se relacionar com alguma das personagens ou com a maioria dos dramas narrados.

Não tenho como saber se os termos extemporâneos sapecas, traquinas etc são ou não um deslize da tradução. Meu estoniano anda enferrujado. De toda forma, o uso da palavra berro para revólver ou mesmo a presença de um gramofone, além do clima geral do livro, me fazem apostar na inocência do tradutor.

Algumas referências, como a do instrumento kannel, podem suscitar um google, o que não é ruim, longe disso. Procurar por estonian kannel no youtube, por exemplo, pode trazer resultados divertidos.

As ilustrações de Sandra Jávera são deliciosas e emprestam ao livro um pouco de leveza. No miolo, ela usa aguadas e traço em preto e branco em excelentes escolhas temáticas. As imagens tem um óbvio cuidado em não contribuir com a violência que, às vezes, encontramos no texto mas, ao mesmo tempo, dialogam com ele, em um bem-vindo equilíbrio.

O melhor de Primavera é a sua não-conclusão e falta absoluta de moralismo. Não há um final feliz açucarado ou a conclusão dos dramas vividos no decorrer de suas 423 páginas. É apenas um recorte de uma realidade. Não há uma moral da história. E isso é ótimo. Infelizmente, entretanto, Primavera é tão atual quanto um livro estoniano de 1912.

 

 

Publicado no Jornal Rascunho, agosto de 2014.