O gênio da maçã

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Às vezes ler a biografia de Sir Isaac Newton (1642-1727) pode desanimar um pouco. Olho seus teoremas, leis e afins com a mesma expressão de uma girafa olhando um Matisse (posso até ter um aspecto minimamente respeitável e inteligente mas vamos combinar que não estou entendendo nada). Fico lá vendo o quanto o cara revolucionou a ciência e o mundo e eu aqui vendo foto de gatinhos no Facebook. Ainda bem que a coleção Mortos de Fama é bem-humorada.

Meu filho adora essa coleção e tem vários títulos. São todos bons, mas hoje quero falar do Newton. O título é Isaac Newton e sua maçã e as ilustrações do Philip Reeve são responsáveis pela leitura fácil até mesmo de conceitos matemáticos que, para mim, beiram o incompreensível. Por outro lado, sou de humanas e não sei nem somar. Talvez sejam óbvios para alguém um pouco mais inteligente.

Então. Newton nasceu prematuro. O médico disse que não tinha esperança que ele vivesse e que não sobreviveria um dia sequer. Talvez só para prová-lo errado, viveu mais de 80 anos.

Foi o último de sua classe e tornou-se um cientista respeitado ainda em vida e presidente da The President, Council, and Fellows of the Royal Society of London for Improving Natural Knowledge (mais conhecida apenas como Royal Society), uma importante instituição da ciência até hoje.

Gosto de gente teimosa. Empatia e identificação, dirão as más línguas. Não ligo.

O capítulo Aristóteles e alguns outros caras traz um panorama de quem são os gigantes nos ombros de quem Newton ficou de pé. Em ordem: Aristarco, Copérnico, Johannes Kepler e Tycho Brahe, Galileu, Descartes. Parece-me importantíssima a noção de que precisamos estudar o que veio antes. Volta e meia vejo um adolescente perguntando qual a utilidade de estudar algo ocorrido séculos antes. Eis o porquê.

O livro brinca com a velocidade de Newton em desenvolver suas teorias e o coloca como se estivesse em uma corrida. Na verdade dá um certo cansaço só de olhar:

  • Teorema do binômio – fevereiro de 1665
  • Tangentes – maio de 1665
  • Gravidade – setembro de 1665
  • Cálculo diferencial – novembro de 1665
  • Cores – janeiro de 1666
  • Cálculo integral – maio de 1666

Ou seja, ele desenvolveu tudo isso em pouco mais de um ano. E isso, só lembrando enquanto acontecia a peste bubônica, também conhecida como A Grande Peste de 1665.

Em 1666, Newton completou 24 anos. Vinte e quatro. Vou deixar esta informação aqui um pouco até você se acostumar com ela.

O autor explica o necessário para entendermos estes conceitos, incluindo as leis de Kepler. E quando digo “para entendermos”, estou me incluindo. Eu, uma anta matemática colossal. Se eu consegui extrair algum sentido daquilo, qualquer um consegue.

Gosto do humor na ciência. Ao explicar a aceleração constante de Galileu, o autor arredonda o valor de g: “(Para dizer a verdade, simplifiquei um pouco a coisa. Não são 10 m por segundo: o número exato é 9,80665, mas não vou chatear ninguém com esse tipo de detalhe num livro tão agradável como este.)” Ele tem razão. Livro muito agradável.

Em seguida, cores. O método utilizado por Newton para decompôr a luz branca é muito similar ao princípio da fotografia. Nisso o livro não fala, mas é um paralelo que merece ser feito. Newton utilizou um prisma e uma fresta na cortina. Daí para a câmera escura é um pulo.

Lentes, aliás, era um assunto de que Newton também entendia. Ele construiu um telescópio (melhor do que os que existiam na época, ele não inventou o telescópio) e fez tudo sozinho, incluindo polir lentes, fez as ferramentas, etc. Tenho cá pra mim que ele só não inventou a fotografia por falta de interesse.

No capítulo O livrão da ciência, que trata do Philosophiae naturalis principia mathematica (1686), o autor nos conta algo que conhecemos bem: “O primeiro problema é que publicar livros custa um dinheirão, e é sempre uma incógnita se um livro vai dar retorno ou não. (…) Deve-se lembrar que, quando saíram, os Principia também não venderam muito, mas acabaram virando leitura obrigatória no mundo todo.” Ou seja, meus amigos, há esperança. É bom lembrar que foi nele que Newton publicou as suas leis do movimento, as famosas “leis de Newton”.

  • Primeira Lei de Newton: Todas as coisas permanecem em repouso ou se movem em linha reta na mesma velocidade, a não ser que uma força aja sobre elas.
  • Segunda Lei de Newton: A mudança de movimento depende da intensidade da força.
  • Terceira Lei de Newton: A toda ação corresponde uma reação igual e oposta.

O cara tinha, então, minha idade hoje, 44 anos. E tinha escrito leis da física. Leis. Da física. Vou ali chorar um pouco e já volto.

Nem tudo são flores, é claro. No final da vida, Newton escreveu dois livros estranhos, publicados postumamente. Cronologia corrigida dos reinos antigos e Observações sobre as profecias de Daniel e o Apocalipse de são João. Neste último, ele afirma que o mundo acaba em 2132. É importante a gente lembrar a época, permeada por religião e pelo desconhecido, em que Newton viveu. Ele foi, sem dúvida alguma, um grande luz da ciência, mas ainda assim faleceu em 1727, quando teorias de fim de mundo ainda eram populares.

A coleção Mortos de fama tem vários outros títulos. Os meus favoritos, além do Newton, são Al Capone e sua gangue, Cleópatra e sua víbora e William Shakespeare e seus atos dramáticos. Os livros são no formato pocket book, em preto e branco. Fico aqui torcendo por uma edição luxo desses títulos, no estilo do 20.000 léguas submarinas: a mais fantástica de todas as aventuras no fundo do mar, da mesma editora.

Gosto de biografias bem-humoradas. É importante para a formação de todos nós a noção de que mesmo “os grandes” tropeçaram na vida. Tiveram dificuldades, inimigos e recusas. Esta fantasia contemporânea de que a felicidade plena sem aborrecimentos é possível parece-me, no mínimo, perigosa.

 


 

Trecho (p. 81):

Alice deixou cair um de seus frutos do alto de seus galhos. Ela sabia que a força natural o levaria para baixo, na direção do chão, e que ele ganharia velocidade com uma aceleração constante, mas será que a sua mensagem seria entendida?

E então a maçã caiu.

 

O autor:

Kjartan Poskitt é autor infanto-juvenil e apresentador de TV. Escreveu vários livros para jovens leitores sobre áreas próximas à matemática e às ciências de uma forma geral. Gosta também de escrever sobre truques de mágica. É mais conhecido pela série paradidática Saber Horrível (Murderous Maths), que recebeu uma recomendação na revista Scientific American em 2011. É também o autor da série Agatha Parrot, que fala do cotidiano escolar com humor (britânico).

Diz o site da Companhia das Letras: Nasceu em Yorkshire, Inglaterra, cidade onde vive até hoje, com a mulher e os quatro filhos. Formado em engenharia, começou a escrever, aos dezoito anos, peças de teatro e letras de música. Hoje é autor de diversos livros de divulgação científica para jovens, traduzidos em mais de vinte línguas, e apresenta programas de ciência e matemática na TV inglesa.

 

 

Título: Isaac Newton e sua maçã

Título original: Isaac Newton and his apple

Autor: Kjartan Poskitt

Ilustrador: Philip Reeve

 

foto do jornalpublicado em

O gênio da maçã. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil. vol. 15, n. 184, p. 41. Curitiba: Editora Letras & Livros. Mensal. AGO 2015.