O voo da liberdade

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Ganhador do Jabuti, “Breve história de um pequeno amor” valoriza o leitor de primeiras viagens

Esta foi uma crítica muito difícil de escrever. Não tenho com este livro o distanciamento emocional que os jornalistas velha-guarda me ensinaram necessário. Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna enriqueceram o meu caminho ao cruzá-lo à época da revista Next Brasil, que eu produzi e editei por um curto período, ao lado de pessoas que me são caras. Como se não bastasse, Breve história de um pequeno amor conta o resgate de um filhote de pombo. O resgate animal é um hábito familiar tão próximo que não sei mais distinguir se meu ou de outrem. O de passarinhos, especificamente, é uma aventura recorrente que acabou por se transformar em livro, A pontinha menorzinha do enfeitinho do fim do cabo de uma colherzinha de café, de Elvira Vigna, que tem em comum comigo bem mais que o sobrenome. E, como se tudo isso não fosse o suficiente, Rebeca Luciani fez escolhas que eu também faria como ilustradora.

Colasanti narra a história na primeira pessoa. O texto corre tratando o leitor com respeito. Tenho especial afeto por livros infantojuvenis que não desmerecem o leitor, que não o tratam como inapto ou incapaz. Breve história de um pequeno amor é desses. Ao não menosprezá-lo, o livro cumpre a sua função na formação do jovem leitor.

Outro ponto forte de Breve história… é a narradora. Colasanti se coloca como é, uma mulher adulta, casada, que tem um escritório com infiltração. E que falha, que é humana. A vida como ela é. A passagem da narradora com ciúmes da companheira do pombo Tom é hilária. “Tentei ser justa, mas qualquer um podia ver que aquela não era namorada digna do meu Tom (…)” Há, também, algo de muito afetivo em um casal que tenta ensinar um pombo – ou um leitor – a voar.

A história é escrita e assumida como real, pouco importa se o é de fato ou se o é na íntegra. Quando o autor não escreve intencionalmente colocando em seu texto aquilo que alguém assume como sendo o que o leitor deseja/precisa, o livro se liberta das amarras comerciais (necessariamente falsas, já que partem do pressuposto absurdo de que é possível saber o que e como o outro quer o que for) e passa, então, a ser verdadeiro. Este verdadeiro pode ser – e normalmente é – ficcional ou ficcionalizado. Então, o “verdadeiro” no texto não é o biográfico ou o factual, mas sim a sua oposição ao comercial. Colasanti e Luciani fazem opções não comerciais.

Veja bem, não estou dizendo que o resultado final não possa ou não deva ser comercializado. Pelo contrário. Estou dizendo que, ao não criar com este objetivo, o produto final (sim, é um produto) é real o suficiente para ser próximo do leitor/consumidor e, portanto, comercializável. A proximidade com o leitor não se dá jamais ao tratá-lo como idiota e nem ao forçar uma similaridade.

A decisão de Colasanti em narrar a história como uma mulher de meia idade, casada, que tem um escritório com infiltração, etc. é acertada justamente porque diz ao jovem leitor que ele está sendo tratado como um igual mesmo não o sendo. Há o diálogo. O que permanece, no final das contas, é o respeito da não-condescendência.

A decisão de Luciani em mostrar detalhes, em pontuar partes, também é feliz. Não compete com o texto e, ao mesmo tempo, dá espaço ao leitor. Ela coloca na ilustração apenas aquilo que é essencial, aquilo que não é possível ficar de fora. Se está ali apenas o que é essencial, está ali o que é sincero e, portanto, verdadeiro.

Então, considerando a maturidade do trabalho de ambas, conseguimos entender como Breve história de um pequeno amor ganhou o Jabuti de Livro do ano de ficção. Não que eu ache que o Jabuti atribua valor a uma obra que ela já não tenha. Não acho, não. Nem o simpático quelônio, nem qualquer outro. O valor da obra é medido no leitor. E esta merece leitura.

 

Publicado no Jornal Rascunho, dezembro de 2014.