Crônica "Babilônicos" publicada no Rascunho em 16/03/2023. https://rascunho.com.br/liberado/babilonicos/

Eu sei, eu sei. Vou parecer mais rabugenta do que de fato sou, mas não dou a mínima pro Oscar. Nem é por conta do ah-mas-o-mercado-blablablá, não. É preguiça mesmo. Dos indicados, só vi quatro. Os Banshees de Inisherin, Avatar 2, Babilônia e o grande vencedor, Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo.

Banshees tem um problema de tradução no título. Filmaço, maravilhoso, vejam, mas deveria ser As banshees, nunca Os banshees. Googla aí o que é banshee que você vai entender.

Avatar 2 é um dos três piores filmes que eu já assisti em toda minha vida. E gente, a minha crítica não é alta, não. Eu vi — e gostei de — Baywatch. Não dá pra descer muito mais que isso, não.

E o Everything… eu achei bacana, um roteiro bom, mas não achei isso tudo, não.

Babylon é disparado um dos melhores filmes que assisti na vida. Acho o diretor Damien Chazelle uma das vozes vivas mais interessantes da sétima arte. Ele também dirigiu o maravilhoso Whiplash. O filme tem tantas camadas de significação, interpretação e fruição que deixa a gente até meio tonto. O filme é também — mas não apenas — uma grande metalinguagem e um gigante glossário de referências sobre o fazer cinema. E aí, essa perfeição não é nem indicado como melhor filme e, pior, não leva nenhuma estatueta para casa.

Então, o Oscar não faz o menor sentido pra mim.

E isso dificulta muito a minha vida social porque grande parte da minha bolha é cinéfila, do tipo que faz maratona para assistir todos os indicados ao Oscar antes da cerimônia de premiação para poder se juntar com semelhantes e debater sobre os filmes.

Naturalmente, as minhas falhas sociais são muito maiores que essa. Tampouco acompanho futebol, televisão, novela, esportes, música sertaneja, celebridades, fofocas, a família real inglesa ou o que a Anitta está fazendo no final de semana. Nunca sei quem é a celebridade de quem todos estão falando à minha volta.

Amigo, eu esqueço nome de parente, não vou guardar o nome do ator bonitinho da vez.

Vivemos em um mundo heterogêneo e interessante. Uma verdadeira babilônia de assuntos. Eu me perco.

É difícil e engraçado ao mesmo tempo. É engraçado porque as pessoas próximas param as frases no meio para me explicar quem são pessoas que deveriam ser óbvias. Henry Cavill, por exemplo. Primeiro me disseram que é o ator do Superman, mas eu não vi, não gosto do personagem. The Tudors, idem. Finalmente alguém fala do The witcher que não só eu vi como adorei. Depois alguém mencionou Enola Holmes e eu tive dificuldade em perceber que é o mesmo ator, o que fala bem dele.

E foi nesse momento, com dia e hora conhecidos, que eu descobri que meu filho, a pessoa mais importante da minha vida, esconde de mim temporadas inteiras que ele julga de qualidade inferior. Eu só vi a primeira do The witcher e estava convencida de que não tinham feito a segunda ainda.

Daqui a pouco vocês vão me dizer que True detective, American gods, House of cards, Penny dreadful e The good place tiveram mais que uma temporada.

Não, pera.

A gente cria com todo carinho e dá nisso.

Meu próprio filho, gente.

Crônica publicada no Rascunho em 16/03/2023