Nós, os pequenos

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O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, é uma contundente crítica à guerra, aos governos, à vaidade, à ganância

 

ilustração de "Nós, os pequenos", de Carolina Vigna     ilustração de "Nós, os pequenos", de Carolina Vigna   ilustração de "Nós, os pequenos", de Carolina Vigna

A leitura que todo mundo faz (nem por isso menos verdadeira) de O pequeno príncipe é a da busca do principezinho em entender e, de certo modo, combater a mesquinharia humana, simbolizada pelos habitantes únicos de planetas minúsculos que os aprisionam. São justamente os personagens não-humanos que têm algo a dizer. Ou seja, é uma crítica à nossa própria pequenez. Pequenos somos nós, não o principezinho.

As interpretações sobre como a seriedade e maturidade das “pessoas grandes” são fruto do enrijecimento e do processo de embrutecimento da criança também já foram pensadas, escritas e divulgadas ad nauseam.

Dito isso, não acho que o leitor do Rascunho “precise” de mais uma análise das metáforas e ensinamentos de vida contidos no Pequeno príncipe. Não que eu saiba o que outra pessoa precisa ou deixa de precisar, mas vou arriscar, neste artigo, a sair bastante da nossa zona de conforto habitual e propor outra possibilidade de leitura crítica deste clássico best-seller.

Uma das formas mais simples de demonstrar visualmente o conceito de relatividade cultural para uma criança é desenhar um quadrado. Você pergunta o que é aquilo. Ela te responde “um quadrado”. Você então desenha um quadrado bem menor do lado. Pergunta de novo sobre o primeiro. Ela te responde “um quadrado grande”. Subitamente, a mesma forma, sem qualquer alteração, passou a ser grande. Com príncipes acontece a mesma coisa. Pelo menos com príncipes literários.

Se há um Pequeno príncipe, podemos assumir que talvez exista um grande Príncipe. O pequeno, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), e o grande, de Nicolau Maquiavel (1469-1527).

Primeiro é importante entendermos a partir de onde e quando estes príncipes falam.

Saint-Exupéry escreveu o Pequeno príncipe durante a Segunda Guerra, com uma França ocupada pelos nazistas. Saint-Exupéry era piloto e conde (filho do conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe). Um nobre, portanto. O piloto que dialoga com o seu pequeno príncipe é obviamente autobiográfico. O narrador recebe conselhos do príncipe.

Maquiavel escreveu o Príncipe em 1513, depois de ser preso sob a acusação de conspiração em 1512, quando os Médicis voltaram ao poder em Florença (a Itália ainda não era unificada na época). Seu príncipe foi escrito na tentativa de obter favores dos Médicis, da nobreza, a quem Maquiavel servia. O narrador dá conselhos ao príncipe.

Apesar dos mais de 400 anos que os separam, estes autores são muito próximos. Ambos se dedicaram a escritos sobre guerras e estratégias militares, ambos com profunda influência religiosa de seus tempos e ambos gostam de se expressar por arquétipos e metáforas. Além disso, os dois príncipes foram escritos durante exílios políticos.

Maquiavel relata, em capítulos, os diferentes principados e suas características (e consequências). Saint-Exupéry relata, em planetas, os diferentes reinados e suas características (e consequências).

O Pequeno príncipe segue a estrutura padrão dos contos de fada. Primeiro apresenta o personagem. Em seguida, há um acontecimento mítico ou mágico qualquer. Depois a apresentação do problema. Chegando, então, na peregrinação que, certamente, conduzirá a uma solução. Aplicando a fórmula: sua infância e o episódio do desenho do elefante dentro da jiboia; a aparição (mágica) do principezinho no meio do deserto; o problema dos baobás; a narração da viagem pelos planetas; o conserto do avião e suicídio do menino.

O episódio do elefante dentro da jiboia todo mundo conhece. O narrador teria feito, em sua infância, um desenho de um elefante sendo digerido por uma jiboia mas, como estava dentro da jiboia, os adultos só viam um chapéu.

Logo na primeira aparição do principezinho no meio do Saara, ele já começa pedindo que o narrador lhe desenhe um carneiro. A história se repete como um espelho: o menino só fica satisfeito quando o carneiro está dentro de uma caixa, quando está “invisível”.

O Pequeno príncipe arranca as ervas más, os baobás, assim que as identifica, quando pequenas. Diz ainda que ter o hábito de arrancar os baobás trata-se de uma questão de disciplina. Essa ideia de arrancar o mal pela raiz não é nova. E é para comer os baobás ainda pequenos que o principezinho precisava de um carneiro. Um carneiro, percebam. Um animal que representa Cristo. Ou seja, o salvador do planeta dele. Saint-Exupéry, assim como Maquiavel, usa arquétipos católicos. Há também um paralelo entre a cobra (símbolo do mal no catolicismo) que cobre o elefante, impedindo a visão, e a caixa que cobre o carneiro. Tanto a cobra quanto a caixa obrigam o espectador a acreditar que o elefante/carneiro/Cristo está lá, mesmo sem ver. “O essencial é invisível para os olhos”, etc.

O Pequeno príncipe diz, ainda, que se coloca ao alcance dos adultos que não veem os elefantes falando de golfe, política ou gravatas. Ele, condescendente, altera o seu discurso para os não-iluminados, para aqueles que não enxergam o elefante/carneiro/Cristo. Tanto Saint-Exupéry quanto Maquiavel têm discursos profundamente religiosos.

Algo familiar
Ainda que Nathan Tarcov, em Machiavelli’s critique of religion, nos lembre que Maquiavel aconselha o Príncipe a atuar contra a religião quando necessário, o mesmo autor, em Belief and opinion in Machiavelli’s Prince, aponta a enorme lista de qualidades religiosas que Maquiavel afirma necessárias. José Aparecido de Oliveira, no artigo Virtú e Fortuna, nos lembra que Maquiavel utiliza o conceito de Fortuna como uma concepção mítico-filosófico-religiosa. O capítulo 11, por exemplo, afirma literalmente que somente os principados eclesiásticos são seguros e felizes. O capítulo 22, Dos ministros dos príncipes, inteiro dedica-se à escolha do que hoje chamaríamos de equipe técnica do governo. Um pouco depois, no capítulo 26, completa “um príncipe deve gastar pouco para não ser obrigado a roubar seus súditos”. Esta história também não é nova. Está na Bíblia: Roboão, filho de Salomão, ao escutar seus amigos e ir contra o conselho dos idosos, decide aumentar os impostos para manter os luxos do governo e acaba por dividir o império do pai. Está parecendo familiar?

Vamos aos habitantes dos planetas de Saint-Exupéry. São eles: o rei solitário; o vaidoso; o bêbado; o homem de negócios; o acendedor de lampiões; o geógrafo. E, por último, o planeta Terra. Por favor, percebam o fato de que nenhum destes habitantes, exceto a frágil rosa, aquela que deve ser protegida, é mulher. A flor é a única personagem feminina no livro e é vulnerável. Não há a menor possibilidade de uma construção feminina. Talvez seja um bom momento de lembrar que tanto raposa quanto cobra em francês são palavras masculinas (le renard e le serpent). A personagem da raposa sábia é, na verdade, masculina.

Voltando. O rei solitário. Saint-Exupéry fala do isolamento do poder. Especialmente no contexto da Segunda Guerra, a realidade dos governantes era muito distante da realidade dos combatentes, dentre os quais o autor-piloto estava. O primeiro planeta é uma crítica contundente não apenas à hierarquia militar mas também ao governo francês. Sempre bom ressaltar que Saint-Exupéry escreveu o Pequeno príncipe do exílio, nos Estados Unidos. Maquiavel trata deste assunto no Príncipe inteiro, de forma recorrente. Praticamente todos os conselhos dele aos Médicis são no sentido de não perderem ou se desconectarem de seus súditos.

O planeta do vaidoso tem uma crítica bastante óbvia, tanto da vaidade em si quanto a de colocar o vaidoso como um palhaço, um brinquedo. Há, entretanto, uma segunda leitura possível, a da solidão do líder. De que adianta ser admirado se não há mais ninguém? Maquiavel aborda diversas vezes o tema sobre o que um príncipe deve fazer para ser admirado, para ser estimado. Trata-se, em ambos os casos, de uma construção de uma narrativa em torno de si e esta narrativa, como bem aponta Saint-Exupéry, depende do outro e é construída em sua relação com o outro. Giselle Falbo, em Considerações sobre o mal-estar na civilização, explica: “O eu não está na origem, ele é resultado de um processo de construção que se opera na relação com o outro — o próximo”. Se não há o outro, a identidade — e, portanto, a sua relação hierárquica com seu mundo — não existe. Saint-Exupéry trata deste assunto exaustivamente.

O bêbado é um arquétipo forte. Salomão orientou o rei Lemuel a deixar o povo bêbado para que se esquecesse de sua pobreza. A bebida entra aqui como manipulação das massas e instrumento de opressão e, ainda por cima, por recomendação bíblica. O bêbado de Saint-Exupéry também bebe para esquecer. É quase uma metalinguagem alcoólatra, ele bebe para esquecer da bebedeira. É um bêbado triste, melancólico (em oposição a um festivo, carnavalesco). Maquiavel orienta seu príncipe a, “nas épocas convenientes do ano, distrair o povo com festas e espetáculos” (cap. 21). Pão e circo. E vinho. Uma receita que não falha desde que o mundo descobriu a fermentação. Farei um brinde a isso.

O homem de negócios a princípio pode parecer uma crítica aos tempos modernos, mas é importante lembrar que o que ele conta são estrelas. Há certo romantismo. Há também certa amargura em relação à burocracia, pela qual o Estado francês é famoso desde sempre. O Pequeno príncipe ainda conclui neste diálogo que é útil para seus vulcões e sua flor que ele as possua, ao contrário do homem de negócios e suas estrelas. Percebam que o questionamento (sobre a utilidade) não está na ação (contar estrelas) mas sim em sua posse. O discurso, portanto, é o de se justificar e o de impor uma escala de valores em que um pode (é útil) e outro não pode (é inútil) possuir algo ou alguém. Essa filosofia de vida, de que a devoção de uma vida a um país ou a qualquer outro ideal utilitário redime, acompanha toda a obra de Saint-Exupéry. Além do viés mercantilista (e maquiavélico) — o da utilidade nas relações —, há ainda a questão de se possuir a personagem feminina, a flor. Considerando que a flor tem voz e é uma personagem ativa, capaz de dar e receber afeto e, portanto, bem mais que uma planta (algo passível de posse), o nosso amado e idolatrado principezinho é misógino, sinto muito.

Esta relação com a flor, aliás, é muito mal resolvida:

— Teu planeta é belo, disse a serpente. Que vens fazer aqui?
— Tive dificuldades com uma flor, disse o príncipe.
— Ah! exclamou a serpente.
E se calaram.

Conceito de beleza
Chegamos, então, ao acendedor de lampiões, que trabalha incessantemente, acendendo e apagando o lampião. Aqui, Saint-Exupéry volta ao conceito de beleza como sinônimo de utilidade: “É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita”. O principezinho diz que o acendedor de lampiões “é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio”. Paradoxalmente, seu planeta é pequeno demais para dois. Freud explica.

O geógrafo rapidamente se distingue do explorador. Saint-Exupéry é o explorador. Maquiavel é aquele que escreve livros. Estou convencida de que Saint-Exupéry, estudioso de estratégias de guerra como era, piloto e militar, leu Maquiavel. E mais do que isso, de que há no Pequeno príncipe certo “troco”, uma pequena vingança (o que me faz gostar muito de Saint-Exupéry). Maquiavel era conhecido por sua antipatia à França. Saint-Exupéry muda o foco e o narrador de lugar, quase como um espelho a Maquiavel. Existem similaridades, é claro, mas existem principalmente diálogos.

Chegamos, então, ao nosso planeta. “A Terra não é um planeta qualquer! Contam-se lá cento e onze reis (não esquecendo, é claro, os reis negros), sete mil geógrafos, […].”Aqui, preciso defender Saint-Exupéry. “Reis negros” não é um indício de racismo per se, mas sim como eram chamados os reis guerreiros (não-burocratas, diferentes dos europeus), na verdade pouco importando a cor de sua pele. Não que isso o absolva de etnocentrismo, mas são questões diferentes. Um etnocentrismo imperialista, aliás, que seria natural de supor como o padrão para um piloto francês da Aéropostale.

Felizmente, na Terra há raposas. A maioria das citações que você vê por aí no Facebook coladas sobre imagens lindas e inspiradoras é de falas da raposa, como as famosas “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”.

Há um aspecto um tanto rousseauniano no principezinho, o de supor uma inocência possível na infância, uma pureza que na verdade não existe. O bom selvagem neste caso é um bom extraterrestre infante, mas vale. O raciocínio é o mesmo. Diz Saint-Exupéry que apenas as crianças falam a língua das verdades. Ou seja, são elas que atribuem os significados verdadeiros aos signos verbais. Essa ideia de que existe uma verdade é, no mínimo, questionável. E é também religiosa.

Ao final, o principezinho toma uma decisão drástica, o suicídio. Como estamos falando de um texto muito embasado em religião, o suicídio é descrito como uma volta sem corpo/matéria ao planeta de origem, como uma libertação da alma que carrega consigo o (desenho do) carneiro/Cristo. Aqui, novamente, o símbolo — o desenho — ganha uma importância hierárquica e assume para si a noção religiosa de símbolo, mítico, o símbolo agente, que possui poderes. Neste caso, que ganha vida, sai da caixa e come baobás, mas pouco importa qual o poder. O fato é que é um símbolo dotado de poder. O suicídio pode ser entendido também como um sacrifício extremo (religioso, novamente). Seria a forma de o principezinho voltar ao seu planeta e salvar o seu povo (a flor).

Existe uma interpretação possível, que eu não vi em lugar nenhum mas parece-me plausível, que é a de que o principezinho seria o lado infantil do narrador, os dois seriam uma só pessoa. O episódio do acidente no Saara foi muito marcante na vida do Saint-Exupéry e talvez, só assim, talvez, tenha representado para ele a morte de sua “criança interior” e, por este motivo, o menino comete o suicídio.

Em Terra dos homens, quando Saint-Exupéry acha que vai morrer no deserto, antes de ser resgatado pelo beduíno, ele se remete à infância e se descreve como um menino:

Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da frescura de seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado.

É este o menino que morre no Saara, é Saint-Exupéry. Sobrevive o aviador, profissão, que pertence ao universo do adulto. Morre o nobre, o título herdado quando menino (Saint-Exupéry era conde).

Levi-Strauss diz que a cultura surge no momento em que se cria a primeira regra, o primeiro tabu e/ou o primeiro mito, que hierarquiza e organiza a vida coletiva. Esta regra é, necessariamente, uma criação do grupo onde está inserida e, portanto, existe apenas na relação dos indivíduos deste mesmo grupo. Precisamos entender, então, que o grupo de onde partem tanto Saint-Exupéry quanto Maquiavel é eurocêntrico, católico, militar e ligado à nobreza. Há, portanto, uma exportação destes valores dominantes. Exportação e exploração de valores. Abre-se a Fundação Antoine de Saint-Exupéry. Cria-se um parque de diversões temático. Aviadores franceses refazem o percurso de Saint-Exupéry. São feitos filmes, animações, games e remakes. A sociedade do espetáculo é incansável. E o capitalismo, implacável.

Tudo bem, seguiremos lutando. O importante é invisível para o capital.

P.S.: Faço aqui um especial agradecimento ao amigo Cristiano Ferreira, que não me deixou falar (muita) besteira nos trechos sobre religião.

 

O autor

Antoine de Saint-Exupéry

Ou Antoine Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe, ou Conde de Saint-Exupéry (1900-1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês. Além do Pequeno príncipe (1943), escreveu muitos artigos sobre guerras. O acidente aéreo no Saara e o resgate por um beduíno e seu camelo foi descrito em Terre des hommes (Terra dos Homens, 1939), que recebeu o Grand Prix du roman de l’Académie française e o prêmio máximo da American Booksellers Association. Assim como no Pequeno príncipe, ele é o piloto-herói-narrador de seus quatro romances Courrier sud (Correio do Sul, 1929); Vol de nuit (Voo noturno, 1931); Pilote de guerre (Piloto de guerra, 1942). Escreveu também os livros L’Aviateur (O aviador, 1926); Lettre à un otage (Carta a um refém, 1943/1944); Citadelle (Cidadela, publicação póstuma, 1948).

Existe um aspecto biográfico fundamental para ler a obra de Saint-Exupéry: o fato de ele ser piloto e de entender o avião como algo que lhe oferecia um ponto de vista diferente do mundo. Seus colegas pilotos o chamavam de Saint-Ex. A Aéropostale, onde Saint-Ex trabalhava, exigia de todos os seus pilotos que, antes de embarcar em missões solo, fossem treinados como mecânicos. Segundo Kathryn Crim, em On Antoine de Saint-Exupéry, o livro Terre des hommes foi escrito como uma “autobiografia espiritual”. Crim narra também o episódio em que Jean Renoir escreveu para Saint-Exupéry, a respeito deste livro, dizendo “não sei se é bom ou ruim, mas tenho certeza de que é honesto” (tradução livre).

Tem uma coisa, confesso, que gosto acima de tudo em Saint-Exupéry: o fato de que ele se recusou a aprender inglês quando estava exilado nos Estados Unidos (época, aliás, em que escreveu Opequeno príncipe). Isso é tão, mas tão francês que dá até para sentir o cheiro do camembert daqui.

 

trecho

As geografias, disse o geógrafo, são os livros de mais valor. Nunca ficam fora de moda. É muito raro que um monte troque de lugar. É muito raro um oceano esvaziar-se.

Nós escrevemos coisas eternas.

fotos do jornal fotos do jornal

VIGNA, Carolina. Nós, os pequenos. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil. vol. 15, n. 187, pp. 30-32. Curitiba: Editora Letras & Livros. Mensal. NOV 2015.

 

Mulher de um homem só

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Nunca é muito simples falar na voz de alguém do sexo oposto. Sem entrar em sexismos idiotas, o fato é que temos diferenças. Alex Castro, em Mulher de um homem só, consegue que a voz feminina, que narra a estória, tenha credibilidade. A voz é tão real que respinga até mesmo nos xingamentos que normalmente usamos.

A imagem de esposa ideal de 1956 que tentei passar pro Murilo elas captaram muito bem: até hoje me chamam de amélia, aquelas vacas.

E este é o principal problema do livro. A credibilidade é tanta que vira a moeda e se torna padrão. Ela se divorcia quando é esperado que o faça, fica zangada quando assim deveria, aceita ajuda quando lhe é cômodo. A narradora do livro é padrão, é o que esperamos. A personagem age exatamente dentro do esperado em cada situação e, com isso, torna-se uma espectadora de sua própria vida. Tenho convicção de que esta era a intenção do autor, mas sem personagens coadjuvantes de igual peso ou uma estória impactante, a voz narrativa assume um papel importante demais para ser apenas o reflexo de um (interessantíssimo) exercício literário. O domínio do autor na condução da estória, entretanto, é digno de nota. Esta marca de interrupção, por exemplo, é deliciosa:

– Acho que todo mundo já tev

– A resposta é sim, não é? Sim?

É um grande mérito quando o autor não permite que o texto o domine.

Mulher de um homem só é cuidadoso na escolha de palavras e exatamente por este motivo incomoda quando – em raros momentos – encontramos justificativas. Entendo que muitas vezes precisamos deixar às claras a não-linearidade da narrativa, mas a pausa dentro do texto enxuto e medido do restante do livro causa grande estranheza. Como, por exemplo, a introdução à prolepse que aparece logo no início do livro:

Vou ter que dar uns pulos no tempo. Estava tudo indo tão bonitinho que fico até chateada de embaralhar as histórias. Comecei do começo lá comecinho mesmo e estava planejando continuar reto até o fim, em ordem cronológica e tudo. Mas aí, e se ceder às minhas vontades? Se pular até o Glicério, vou ter que pular pra trás depois. E sei como é, me conheço, gosto de  dançar: se começo a saracotear, não paro mais. Deixa pra lá: vou, volto, não me importo. Pra que a pressa? A história não vai a lugar nenhum.

Esta explicação, no entanto, não se concretiza. A narradora não volta a “saracotear” a estória. Ficamos à espera de uma não-linearidade que não se realiza. Daí o estranhamento. Não chega a comprometer a leitura, mas poderia receber o mesmo tipo de cuidado que o restante do livro recebe.

Muitíssimo agrada o respeito à inteligência do leitor. Só sabemos que o médico é endocrinologista por conta desta passagem:

Adorava ir visitá-lo no consultório. (…) Era aquela sala de espera enorme, cheia de mulheres gordas, mulheres gordas por todo lado, e eu lá, magérrima na comparação.

Não há, de fato, nenhuma necessidade em citar nominalmente a especialidade do médico. Outro exemplo é a informação de que a narradora divorciou-se. O livro é contado no passado, mas o destino do marido poderia ser outro, como a morte ou a reconciliação. Sabemos que houve um divórcio apenas pelo fato de existir uma segunda esposa.

(…) amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro.

Mulher de um homem só é recheado deste tipo de jogo literário. Esse jogo entre o dito, o explicitado e o entendido é rico, é a grande força do livro e o que me faz aguardar ansiosamente o próximo livro do autor.

Arlindo Gonçalves e Luciana Fátima

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Recebi para análise três livros de Arlindo Gonçalves, Desonrados e outros contos, Desacelerada mecânica cotidiana e o Carinhas(os) Urbanas(os). Este último, escrito e fotografado a quatro mãos com Luciana Fátima. Preciso confessar que tinha firme intenção de escrever três resenhas separadas, uma para cada livro. Depois de ler os livros, percebo que esta tarefa tornou-se impossível para mim.

Os contos, assim como as fotos, possuem uma estrutura narrativa interessantíssima, de reflexo. Um conto é complementar e reflexo do outro, todos os personagens se entrelaçam, todas as estórias se tocam e todos os livros tocam profundamente o leitor.

São muitos níveis diferentes de espelhamento. Começa, claro, com o Eu da estória sendo contada. Não existe um narrador, existem muitos e nenhum ao mesmo tempo. O narrador é o personagem, o autor e o leitor simultaneamente. Depois, as estórias em si, incluindo seus cenários e personagens, que parecem ser a prova viva de que a teoria das cordas é muito mais palpável do que supõe a Física. O autor brinca com os muitos níveis da cidade de São Paulo, cenário escolhido para os livros. Poderia ser qualquer centro urbano e continuaria funcionando igual. São realidades absolutamente distantes, paralelas, tangentes e próximas ao mesmo tempo. Sim, eu sei que isso não faz qualquer sentido. Leia os livros, fará. O ponto de vista do observador destes muitos mundos é também parte dele e, ao mudar o Eu narrativo, o autor insere o leitor em uma observação ativa, como parte integrante deste cenário multidimensional. E, o último e mais importante espelhamento, é a humanização destes diferentes mundos. Não há qualquer julgamento de valor, não existe uma única moral adotada. Para cada ponto de vista, ou seja, para cada Eu narrador, o autor adota a escala de valores daquele personagem e com isso tece um conjunto – que ultrapassa os limites físicos de um único livro – cromático heterogêneo, rico e por isso mesmo interessantíssimo.

E tem as fotos. As fotos repetem o mesmo diálogo. São rostos olhando para você e você para os rostos. Há uma generosidade de olhar e de se permitir ser olhado que é incomum, tanto para fotógrafos quanto para escritores. As duas profissões, por natureza, são voyeurs, gostam de observar mas preferem manter-se fora do olhar do outro. Estes autores abraçam e acolhem o olhar que volta.

É necessário um olhar maduro para perceber o Outro e enxergá-lo como similar e humano. Não existem grandes diferenças entre você, um marciano, uma prostituta portadora de HIV, um comerciante ou um autor de livros. Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves não apenas sabem disso como aceitam o espelho. E isso é mais do que generoso, é lindo.

A grande dificuldade na fotografia não é técnica, é de discurso. É claro que existem questões de controle da luz, profundidade de campo, etc. O discurso é mais importante. De nada adianta você ter um microfone se não tem nada a dizer. Luciana Fátima tem muito a dizer. E fala junto com outro brilhante orador, Arlindo Gonçalves.

“Há poesia em fachadas de prédios históricos. Ornatos, capitéis, pedestais, cornijas, molduras, abóbadas, cúpulas, motivos vegetais, rostos de pessoas ou de criaturas – ora doces, ora sisudas.

(…) Para quem observa as construções mais detalhadamente, não passa despercebido um certo sentimento carinhoso que partia do responsável pelo projeto para com a cidade. Mesmo as feições mais rabugentas tinham por objetivo afugentar os seres indesejáveis.

Estão lá, resistindo ao descaso, ao vandalismo; verdadeiras gentilezas urbanas que os mestres das fachadas nos legaram.”

Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves, vocês estão errados. A delicadeza, a generosidade, a poesia e a beleza pertencem a vocês.

 

 

Carinha(os) Urbanas(os) – Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte

Desonrados e outros contos – Arlindo Gonçalves – Editora Marco Zero

Desacelerada mecânica cotidiana – Arlindo Gonçalves  – Editora Horizonte

raiva nos raios de sol

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O grotesco sempre esteve presente na nossa história. Não faltam exemplos no teatro grego, por exemplo, mas o termo só surgiu no século XVI, quando as escavações na Itália descobriram pinturas ornamentais, esculturas e mais um monte de coisas interessantes. Grotesco vem do italiano grottesco, de grotta (gruta). Ainda demorou um tempo para que o grotesco se tornasse um “gênero”. Foi no Romantismo, com Victor Hugo.

“No pensamento dos Modernos, o grotesco tem um papel imenso. Aí está por toda a parte; de um lado cria o disforme e o horrível; do outro, o cômico e o bufo. Põe em redor da religião mil superstições originais, ao redor da poesia, mil imaginações pitorescas.” (1)

Daí para Baudelaire e Augusto dos Anjos é um pulo.

O grotesco tem como objetivo a crítica social através do riso. Existe humor na monstruosidade.

Os monstros de antigamente eram travestidos em abominações circenses e seres imaginários. Esta máscara caiu faz tempo e os monstros de hoje somos nós.

Fernando Mantelli, em raiva nos raios de sol, da Não Editora, traduz esta noção do eu-monstro, do eu-grotesco contemporâneo e atualíssimo como ninguém. Mantelli aponta, através de seus personagens, o mal-estar que sentimos de nós mesmos e, de uma maneira caricata e com humor, coloca o leitor como aquilo que nossa geração de fato se tornou: testemunhas silenciosas e portanto omissas.

No que eu acredito ser a sua leitura de Erlkönig, Filme de amor, Mantelli usa e abusa das frases curtas e da pontuação como reflexo de uma linguagem oral. A contemporaneidade e o ritmo ágil são os principais traços do autor. É um contador de estórias antes de ser escritor ou qualquer outra coisa.

Não consigo me relacionar com este livro com nojo ou repulsa. Nós somos assim. Nós somos estes monstros, a humanidade é grotesca. O livro, para mim, é caricato e otimista. É quase que uma busca do autor – e, se tudo correr bem, do leitor – em compreender como somos capazes de trair, matar, mentir.

O último conto, O pino do verão, por exemplo, fecha o livro de uma maneira quase poética e nos faz acreditar que, apesar de tudo, somos capazes de afeto e que talvez, só talvez, seja esse afeto e essa capacidade de nos reconhecer no espelho – e não um polegar opositor – que separe o joio do trigo.


Raiva nos raios de sol
Fernando Mantelli
Páginas: 96
ISBN: 9788561249076



1. HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime. 2ª. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.

Paradigmas

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A ficção científica normalmente não me atrai muito. Existe um problema intrínseco, para mim, que é a da suspensão da realidade na escrita pretensamente calcada em parâmetros científicos. Este é um problema que nasceu com a FC (como carinhosamente é chamada a ficção científica). Existem raríssimos autores que conseguem o fazer acreditar dentro deste contexto, de um irreal científico.

Eric Novello é um desses raros e preciosos autores.

Eric é um dos autores do livro Paradigmas 1, lançado recentemente pela Tarja Editorial.

Por motivos óbvios, comecei o livro pelo conto dele.

Fogo de Artifício na verdade não é FC, é fantasia urbana, e isso por si só talvez já explique eu ter gostado. O conto se baseia no universo ficcional de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, ou seja, espere encontrar um gato sorridente e um chapeleiro maluco mas não leia para seus filhos. É um conto adulto. Adulto como em assassinatos brutais e sexo selvagem. Adorei.

“Eu havia pedido o encontro. Perdido o controle. As mortes precisavam parar. As mortes, só por elas eu transpirava prazer.”

Pelos mesmos motivos, gostei de Um Forte Desejo, de M. D. Amado, um tipo de “fantasia pulp erótica”, se é que existe esta classificação.

Gostei também de Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes, que, assim como Eric, se baseia em um universo ficcional pré-existente, o da mitologia grega.

Não li os outros contos ainda, mas tenho certeza de que a editoria do organizador/autor Richard Diegues fará justiça aos bons autores que assinam o livro.