De Jano aos blogs – a perpetuação da expressão humana

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Jano é um dos mais antigos deuses do panteão romano. Segundo a mitologia, não era filho de deuses e ganhou sua divindade após um bem-sucedido e longo reinado. É uma divindade exclusivamente romana, não aparece na mitologia grega. É considerado o deus dos portões, passagens, entradas, portas e similares. Normalmente Jano é representado com dois rostos. O que olha para frente é novo e imberbe e o que olha para trás é velho e barbudo. É aquele que percebe todos os ângulos de uma mesma questão, que vê o passado e o futuro simultaneamente. É também quem dá o nome ao mês de janeiro.

Este conceito, de que o passado é tão importante quanto o futuro na compreensão do todo, ficou esquecido durante séculos no Ocidente. Devemos à revolução dos blogs a retomada desta idéia. Passear pelos arquivos de um blog nos dá poderes de oráculo na visão do passado e uma noção mais clara daquele todo específico, ou seja, do “todo” que o blog pretende mostrar.

Jano possui uma chave dupla, é aquele que tem o tempo em suas mãos. A iconografia da chave de Jano é muito similar à das chaves de São Pedro. Quando o Cristianismo surgiu, a maioria das pessoas era analfabeta e a Igreja recorreu a símbolos que já pertenciam ao inconsciente coletivo para conseguir se comunicar. Existem vários exemplos de “cristianização” de elementos iconográficos que já eram utilizados, como por exemplo a luz na cabeça de Apolo (auréola) ou o 3 como número sagrado. O Cristianismo, por sua vez, também empresta seus ícones a outras culturas e outros tempos. Nossa história é orgânica e permeada por diálogos. Não somos frutos apenas de nosso tempo. Somos frutos de todos os tempos.

Acho no mínimo curioso que sejam os blogs os primeiros desta nova Era a falar de monetização. É atribuída também a Jano a invenção do dinheiro-moeda. As moedas romanas mais antigas (c. 225 a.C), inclusive, trazem Jano em uma face. No verso das moedas de prata, cobre e ouro, respectivamente, as moedas mostram: Júpiter em uma quadriga (biga tem dois cavalos, quadriga tem quatro), a proa de um barco e, uma cena de cobrança de tributos devidos a Cesar. Júpiter, só lembrando, é o deus romano do céu, dos trovões e do dia e é, portanto, outro símbolo da passagem de tempo.

Outra coincidência engraçada é o termo navegar/navegador para internet. Teria sido Jano também o inventor do barco, primeiro utilizado em sua travessia da Tessália a Roma. Jano emigrou para a Itália já casado com Carmise (ou Camasena, uma outra grafia possível), com quem teve vários filhos. Seu filho mais famoso foi Tiber, que empresta seu nome ao rio mais importante daquele país, o rio Tibre (em latim Tiberis). Sempre fico na expectativa que surja um navegador chamado Jano com a feature de um histórico mais inteligente do que uma simples lista.

Essa idéia de Jano como aquele que observa os vários ângulos da questão é tão forte que em representações mais recentes, a partir do século II d.C, às vezes é representado com quatro faces e ocasionalmente com uma face feminina e outra masculina.

O reinado de Jano foi uma Idade de Ouro, com prosperidade, abundância de recursos naturais, liberdade e paz absoluta. Existe uma estátua de Jano com Belona que mostra o deus delicadamente impedindo a passagem da moça. Belona é uma deusa da guerra. Jano é pacífico. Ele não é bruto, não derruba a guerreira a golpes de ignorância. Com sutileza, quase com ternura, faz com que ela não siga adiante. Assim foi todo o reinado de Jano: pacífico e gentil. Estamos muito longe desta realidade, infelizmente, mas online nos esforçamos muito para atingir esta utopia. Nos organizamos em comunidades, buscamos informações (o saber é o recurso mais valioso de nosso tempo), tentamos ganhar dinheiro e procuramos conviver de forma pacífica. Queremos todos, anacronicamente, um reinado de Jano.

Jano e Belona

Wien, Schlosspark Schönbrunn, Figuren aus Sterzinger Marmor am Großen Parterre, 1773–1780; Nr. 29: Janus und Bellona. Bildhauer: Wilhelm Beyer (bzw. Werkstatt)

Talvez a grande maioria de nós mantenha vivos os arquivos de seu blog sem refletir que isto pode ser uma expressão do desejo humano de perpetuar-se e de ser compreendido. Não mantemos nossos arquivos, como crêem alguns, (apenas) como prova do tempo de estrada ou para o Sr. Google ter o que buscar. Mantemos nossos arquivos como registros nas paredes das cavernas de que ali estivemos, de que pensamos, criamos, erramos, acertamos, vivemos. A vontade de expressão caminha junto com a vontade de registro desta mesma expressão e são, ambas, fundamentalmente humanas e é este fator, e não a facilidade de publicação, que torna o blog forte e, ao mesmo tempo, incompreensível para as grandes mídias habituadas a atender uma necessidade mercadológica e não uma necessidade atávica de poética pessoal.

A construção de nossa poética pessoal, aliás, é o que nos leva a usar ferramentas como o Twitter, Facebook e afins. A chave aqui é “pessoal” e é este o grande problema com o branding e outros jargões em inglês que o marketing adora inventar, mas isso é conversa para outro artigo.

E eis que então chega janeiro e, com ele, todos aqueles clichês de Ano Novo. Não seriam clichês, entretanto, se não tocassem em emoções próximas a nós. Fica aqui, portanto, o meu voto de que 2010 consigamos refletir sobre o passado e o futuro e que encontremos, de alguma maneira, o Jano em nossas vidas.

VIGNA-MARÚ, Carolina. De Jano aos blogs – a perpetuação da expressão humana. Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 jan. 2010.