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As categorias são autoexplicativas, mas…

  • Aguarrás = artigos publicados no Aguarrás link externo;
  • Wide = artigos publicados na Revista Wide link externo (que antes se chamava Webdesign);
  • Carreira Solo = Artigos publicados no Carreira Solo link externo, podcasts do Fala Freela!, do Sala 101 ou qualquer conteúdo relacionado a esse portal;
  • Rascunho = artigos publicados no Jornal Rascunho link externo;
  • Outros = artigos publicados em congressos, seminários ou outros periódicos.
TitleCategoriesDate
Videogames: o vazio como narrativa do terrorOutros2016/11/14
As garras do macho e da fêmeaRascunho2016/07/12
Nós, os pequenosRascunho2015/12/01
Através de muitos espelhosRascunho2015/10/09
O gênio da maçãRascunho2015/08/25
Shakespeare para todosRascunho2015/06/03
As muitas idades do leitorRascunho2015/04/25
Final feliz possívelRascunho2015/02/03
Caricatura para esquecerRascunho2015/01/03
O voo da liberdadeRascunho2014/12/04
Doce ilusãoRascunho2014/11/04
O charme do ladrãoRascunho2014/10/03
Infância amoralRascunho2014/08/02
Maior que a morteRascunho2014/04/01
Vetores, alemão e um pouco de rumWide2012/01/24
#quebrando #limitesWide2011/12/01
A colheita do cajuWide2011/10/01
Uma época de perguntasWide2011/07/01
Café com sereiasWide2011/03/01
A água turva não mostra os peixesWide2011/01/01
Logomarca existe, passa bem e manda lembrançasWide2010/11/18
Audrey KawasakiWide2010/11/01
PDFs on-lineWide2010/09/25
Pintura digital com artweaverWide2010/09/15
É Primavera!Wide2010/09/01
Scribus: diagramando em software livreWide2010/08/27
A ferramenta não faz o artistaWide2010/07/01
Um rinoceronte com má reputaçãoWide2010/06/01
Toda nudez (digital) será castigadaWide2010/05/01
Mulher de um homem sóAguarrás2010/04/06
O reconhecimento dos símbolosWide2010/04/01
Arlindo Gonçalves e Luciana FátimaAguarrás2010/03/01
Águas de marçoWide2010/03/01
Você também curte o carnavalWide2010/02/01
De Jano aos blogs – a perpetuação da expressão humanaWide2010/01/01
raiva nos raios de solAguarrás2009/12/10
Almoço na relvaAguarrás2009/12/07
Elementos iconográficos em obras de arteWide2009/12/01
Michelangelo Merisi da Caravaggio a partir de A conversão de São PauloAguarrás2009/11/29
Símbolos e signos nas obras de arteWide2009/10/01
Pensando fora da schemataWide2009/08/01
Análise de uma obra de arte: Os esposos ArnolfiniAguarrás2009/07/27
Anima Mundi 2009Aguarrás2009/07/12
Athena ParthenosAguarrás2009/06/04
RascunhosWide2009/06/01
Sp-Arte (fotos)Aguarrás2009/05/15
ParadigmasAguarrás2009/04/01
Indo além do banco de imagensWide2009/03/12
Cássio LázaroAguarrás2008/10/17
Von UhlendorffAguarrás2008/06/27
Fotografias na feiraAguarrás2008/05/01
Brasil SelvagemAguarrás2008/02/14
Havana CaféAguarrás2007/11/27
Captura da Luz 3Aguarrás2007/10/09
Jogos VisuaisAguarrás2007/07/15
Lemos, Lorca e FarkasAguarrás2007/07/01
Recortes de Inquieta RetinaAguarrás2007/06/05
José Eduardo BarrosAguarrás2007/05/12
Frederico Dalton – FotomecanismosAguarrás2007/05/04
Roberto MagalhãesAguarrás2007/04/02
Felix RichterAguarrás2007/02/11
FotoKunstAguarrás2007/01/24
Ronaldo Grossman – Soneto NuloAguarrás2006/11/14
Acessível quem?Aguarrás2006/09/16
Deu Piazzolla na pranchetaAguarrás2006/09/16
Grátis – código aberto, freewareAguarrás2006/09/16
PerceberAguarrás2006/09/15
PapelAguarrás2006/09/15
user centeredAguarrás2006/09/15
Fonte da boaAguarrás2006/09/15
Pretinho básico – quanto você calça?Aguarrás2006/09/15
Cores podem ser confusasAguarrás2006/09/15
Seu designer está te enlouquecendo?Aguarrás2006/09/15
O caso de plágio de Alberto Sughi por Yoshihiko WadaAguarrás2006/07/02
Se o Lautrec pode…Aguarrás2006/05/29
TransparênciasOutros1989/03/12
Como chegamos ao ponto em que nosso coração bate mas estamos mortos?Outros1984/05/01

É Primavera!

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foto da revista capa

Botticelli fez três obras para a Villa Di Castello, dos Medici: Nascimento de Venus (1482), Nascimento da Primavera (1478) e Pallas e o centauro (c. 1482). Os quadros estão hoje na Galleria Uffizi.

BOTTICELLI, Sandro.

BOTTICELLI, Sandro. Nascita di Venere, 1483-1485. Tempera sobre madeira, 278,5 x 172,5 cm. Galleria degli Uffizi.

BOTTICELLI, Sandro.

BOTTICELLI, Sandro. Pallade e il centauro, 1482. Tempera sobre tela, 204 x 147,5 cm. Galleria degli Uffizi.

 

Para comemorar a estação do ano que finalmente chega, escolhi o Nascimento da Primavera para a coluna de setembro.

BOTTICELLI, Sandro.

BOTTICELLI, Sandro. Primavera, 1482. Óleo sobre madeira, 203 x 314 cm. Galleria degli Uffizi.

Em 1492 Lorenzo, o Magnífico, morre. Lorenzo Medici era ousado e o grande patrono das artes. No mesmo ano, é descoberta a América e de repente a Europa deixa de ser o centro do mundo e o mundo, por sua vez, deixa de ser plano. Também no mesmo ano, os franceses invadem a Itália. Simultaneamente surgem os Estados nacionais (até então as cidades eram as nações). Pode até ter acontecido a mais de 500 anos, mas estamos longe de falar de um período pacato e tranqüilo.

Botticelli era apelido. Seu nome era Alessandro Filipepi e, além de ter sido o pintor oficial dos Medici, teve uma formação altamente erudita e filosófica. É considerado o criador da tradição hermética, que Dan Brown e séries de TV como Lost, Arquivo X e Armazém 13 exploram com grande sucesso ainda nos dias de hoje.

Antes de mais nada, muitos confundem o Nascimento de Venus e o Nascimento da Primavera. O de Venus é aquele com a mulher em pé em cima da concha, tenho certeza de que você conhece. O da Primavera é o que tem um monte de gente dançando com um cupido gordinho em cima.

Os personagens de Nascimento da Primavera são, da esquerda para a direita, sem incluir o cupido: Hermes, as 3 Graças (Aglaia, Thalia e Eufrosina), Venus, Primavera, Clori e o Inverno.

Hermes é associado, entre outras coisas, ao bom governo. Muitos autores acreditam que o rosto de Hermes é uma homenagem a Lorenzo, o Magnífico.

A interpretação a seguir é baseada na obra do historiador alemão Aby Warburg.

As plantas são uma alusão ao Jardim das Hespérides, que além de ser o habitat natural das ninfas, também simbolizava a passagem entre o dia e a noite e por este motivo o quadro é pintado com uma luz de lusco-fusco.

Zéfiro (inverno) se apaixona pela ninfa Clori, a persegue e a violenta (ela já está grávida no quadro). Primavera é filha de Zéfiro com Clori. Sim, é Primavera no ventre de Clori e ela já nasce adulta e vestida. Coisas da mitologia grega. Clorofila, por sinal, quer dizer amizade com Clori.

As Graças (Cárites) são as deusas da dança, dos modos e da graça do amor. São as bailarinas do equilíbrio cósmico e presidem todas as festas. A expressão “sem graça” faz referência a elas.

Um fato interessante é que estes quadros não foram pintados para o público genérico. Foram encomendados para a Villa dos Medici. A Villa era um lugar de exercício do ócio, ou seja, um tempo voltado para si mesmo, de auto-conhecimento. Negócio significa a negação do ócio.

Tanto para os gregos quanto para os romanos, ser culto era uma forma de vencer a morte e por isso o entendimento dos ícones, símbolos e alegorias escondidos nas obras era tão importante.

Tudo começa com a concepção da Primavera, a cena com Zéfiro e Clori. A presença das Graças nos diz ser um momento de festa e Hermes dá a notícia: a Primavera chegou! Por isso essas figuras todas estão ali. O quadro explica o quadro. Nós vivemos um tempo em que a mistura do texto com a imagem, ou seja, tanto da imagem ilustrativa quanto do texto explicativo, é um fato comum e ordinário. Esta prática de auxílios para interpretação e mensagem só se tornou comum depois de Gutenberg.

Estas obras permanecem famosas e fazem sucesso até hoje justamente por não depender de anexos para sobreviver. Talvez deveríamos questionar-nos sobre até que ponto não contamos demais com textos e contextos para que as nossas imagens façam sentido. Será que com um pouco mais de esforço não conseguiríamos construir ilustrações (ou layouts, ícones, logotipos, o que for) mais independentes e portanto mais duradouros?

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. É Primavera! Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 set. 2010.

A ferramenta não faz o artista

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foto da revista capa

O uso de recursos ópticos em ilustração e pintura é uma área bastante controversa da história da arte e existem poucos pontos de consenso. Sabemos que grandes artistas como Jan van Eyck (1390-1441), Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) ou Johannes Vermeer (1632-1675) tiveram contato com câmera obscura mas ninguém sabe ao certo o quanto isso influenciou na produção artística dos grandes mestres. Existe uma teoria, intitulada Hockney-Falco thesis, do artista David Hockney e do físico Charles Falco, que atribui um uso extensivo de recursos como espelhos curvos, câmeras lúcida e obscura ao realismo conseguido pelos pintores renascentistas. O livro de Hockney é muito questionado e considerado exagerado, mas o fato é que sabemos que auxílios ópticos foram de fato utilizados por vários dos grandes artistas.

Albrecht Dürer (1471-1528), em seu tratado “De Symmetria Partium in Rectis Formis Humanorum Corporum / Underweysung der Messung”, publicado em 1538, descreve com ricas ilustrações o uso do quadriculado como auxílio para o desenhista. Outra recomendação interessante é o uso de uma moldura com fios formando um quadriculado entre o artista e o modelo, para auxiliar nas proporções do desenho. Este conselho foi adaptado para um vidro quadriculado e seguido por inúmeros artistas. Até hoje, um dos métodos aplicados na aprendizagem do desenho é o do papel quadriculado para a cópia de uma referência. Existem muitas outras indicações de auxílios ópticos para o desenho, todas ricamente ilustradas. Uma destas ilustrações, a gravura Mann beim Zeichnen einer Laute é bastante famosa e acabou se tornando um ícone das experiências ópticas em arte deste período. Neste mesmo livro, Dürer também aborda tipografia (fotografias 139 a 152 no fac-símile do Rare Book Room) e mostra uma impressionante quantidade de estudos de perspectiva e simetria.

DÜRER, Albrecht.

DÜRER, Albrecht. Mann beim Zeichnen einer Laute, 1525. Xilogravura. Metropolitan Museum of Art.

Mais recentemente e, portanto, de forma melhor documentada, sabemos de grandes artistas que usaram outros auxílios gráficos no desenho. Mestres como Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) e o ilustrador Norman Rockwell (1894-1978) usaram fotografia como base de suas imagens, por exemplo.

Uma das minhas grandes campanhas pessoais é fazer o povo entender que a ferramenta não faz o artista. Ilustração vetorial, por exemplo, costuma dar muito mais trabalho do que a tradicional. Faço um sketch de modelo vivo em segundos, mas trabalhar um vetor pode consumir até alguns dias. Os artistas 3D sabem disso bem: usar uma ferramenta que diminui o trabalho repetitivo não significa que o computador faça tudo sozinho. O mesmo acontece com webdesign. Usar um gerenciador de conteúdo não diminui em absolutamente nada o esforço envolvido em se manter um site, por exemplo. Parece simples a todos o entendimento de que quem faz o escritor não é o Word mas no entanto muitos acham que o trabalho do artista é menor ou seu talento deve ser questionado se utiliza algum recurso tecnológico, não importa qual. Já ouvi de clientes atrocidades do gênero de “ah, isso você faz rapidinho, é só botar aí no computador que está pronto”. O isso em questão era um infográfico extremamente complexo mas não importa, poderia ser qualquer coisa que a minha perplexidade teria sido a mesma. Muito irritante esse negócio de uma pessoa ser capaz de entender que não é o martelo que faz o marceneiro mas achar que é o computador que faz o designer ou o ilustrador.

Em animação existe uma técnica chamada rotoscopia, desenvolvida pelos animadores Dave e Max Fleischer, que consiste em desenhar quadro a quadro em cima de uma referência filmada; utilizada, por exemplo, nos desenhos do Superman dos anos 40. Assim como seus primos a óleo ou grafite, essa técnica é bastante criticada por um segmento mais purista dos animadores. Na realidade o debate é o mesmo, já que animação nada mais é do que ilustração seqüencial em movimento. Ou, como disse Norman McLaren (1914-1987), “animação não é a arte de desenhos que se movem mas a arte de movimentos que são desenhados”.

Vermeer usou câmera obscura mas a pintura não se fez sozinha por mágica. Rockwell encenava as suas ilustrações primeiro na fotografia para ter a referência com detalhes depois mas a fotografia não ganhou vida e foi lá desenhar por ele, posso garantir. Disney usou rotoscopia em vários segmentos de “A Branca de Neve” e nem por isso o filme foi fácil ou muito menos simples de fazer.

Em praticamente qualquer grande loja de material de pintura hoje encontra-se para vender projetores, que nada mais são do que versões portáteis, modernas e infinitamente mais práticas das câmeras obscuras de séculos atrás. Basta mencionar a palavra “projetor” para algum artista mais purista para desencadear horas de sermão a respeito. Pessoalmente, eu prefiro o desenho de observação porque ele me dá tempo de raciocinar a imagem, mas não tenho absolutamente nada contra quem gosta de um processo mais rápido. Assim como o artista escolhe a técnica (aquarela, lápis, vetor, etc) a ser usada para cada imagem, o instrumental à sua volta também varia muito de acordo com o caso e um mesmo artista pode usar algum tipo de auxílio óptico para um trabalho e para outro, não.

Então, se alguém diminuir um trabalho seu só porque foi feito usando layers no Photoshop ou um snippet de um código qualquer, faça como eu e responda que se o Vermeer podia, você também pode.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. A ferramenta não faz o artista. Revista Web Design, Rio de Janeiro, p. 66 – 67, 01 jul. 2010

Um rinoceronte com má reputação

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foto da revista capa

Praticamente todos os designers e ilustradores têm acesso a um scanner. Curiosamente são raros aqueles que, ao precisar de uma textura, não a procuram primeiro na internet. Sim, é mais prático, já está na nossa frente, digitalizada e tratada, mas também é a que todos já viram e usaram. Exemplos do uso excessivo de referências e recursos não faltam. Ninguém agüenta mais a marquinha da xícara de café pronta daquele brush do Photoshop que, acredite, você não é o único que tem. Eu sei que pode ser uma surpresa, mas o seu cliente também conhece o (ótimo) WooThemes. E gente, sério, os efeitos neon abstratos encontraram o seu limite de uso, não?

Além do problema óbvio do seu trabalho ficar com cara de qualquer coisa, existe o risco da repetição do erro. A melhor história que conheço disso é a do rinoceronte de Albrecht Dürer (1471-1528). O artista era um polítropo, ou seja, era arquiteto, botânico, gravurista, anatomista, escreveu tratados de pintura, anatomia e perspectiva etc. Era considerado “o Leonardo da Alemanha”. E, no entanto, até hoje renomados historiadores atribuem a ele um erro crasso. Em 1515, Dürer publicou uma xilogravura de um rinoceronte com várias divisões como se fosse uma armadura e chifre único e curto. A ilustração de Dürer foi copiada durante séculos, literalmente. 

DÜRER, Albrecht

DÜRER, Albrecht. The Rhinoceros, 1515. Xilogravura. British Museum, Londres.

Em 1790, mais de 200 anos depois, em Travels to Discover the Source of the Nile, foi publicada uma ilustração, teoricamente feita ao vivo, de um rinoceronte africano. O livro era sobre o Nilo, perceba. O problema é que a espécie africana não tem divisões na pele e tem um longo chifre duplo. Um problema maior ainda é que o autor do livro, James Bruce, cita a gravura de Dürer como sendo errada e ainda diz que é “admiravelmente infiel, em todos os pormenores, e está na origem de todas as formas monstruosas sob as quais o dito animal tem sido pintado desde então…” [GOMBRICH]

A polêmica não termina aí. Um dos meus autores prediletos e, sem dúvida alguma, um dos mais importantes da história da arte, Sir Ernst Gombrich, em seu ótimo livro Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica, afirma que a xilogravura de Dürer, reproduzida durante quase 500 anos, é fruto da imaginação fértil do artista alemão. Sem querer transformar esta coluna em um tratado de zoologia, existem cinco espécies de rinoceronte. Duas destas, a de Java e a indiana, possuem características muito semelhantes às retratadas por Dürer.

Apesar de a primeira gravura, a do Dürer, ser absolutamente plausível, a segunda gravura, mencionada por Sir Gombrich, é uma quimera. Ou seja, une o chifre duplo africano com a pele dividida indiana e muito provavelmente características emprestadas de mais outros tantos animais exóticos. Portanto, a ilustração do livro sobre o Nilo que é “admiravelmente infiel”. Se o livro fosse publicado hoje, a ilustração certamente iria para o Photoshop Disasters. Não por acaso, Sir Gombrich tem o cuidado de garantir ao leitor que apurou que nenhuma espécie conhecida dos zoólogos corresponde à gravura.

Existem, naturalmente, algumas outras atrocidades cometidas à morfologia dos rinocerontes e outros animais, como a ilustração do ornitólogo William Jardine para o The Naturalist’s Library, de 1836, do que seria um rinoceronte africano, com um misterioso chifre duplo em arco. Todas em publicações científicas, o que faz com que estes #FAILs sejam ainda mais graves.

JARDINE, William

JARDINE, William. Rinoceronte, 1836. The Naturalist’s Library, Pachydermes, plate 12.

Reza a lenda que Dürer nunca viu um rinoceronte pessoalmente, mas se pensarmos em termos de história, faz bastante sentido que o artista tenha tido informações a respeito do rinoceronte indiano e não do africano. Portugueses já estavam em Bombaim, em 1509, e, apesar de a África já ser velha conhecida de todos, sem dúvida alguma era a Índia que estava na moda em 1515, data de publicação do rinoceronte de Dürer.

É provável que o artista tenha se baseado em informações relatadas de algum espécime levado a Lisboa, como era costume das expedições da época. Existem, realmente, alguns erros morfológicos na xilogravura de Dürer, mas nada tão imperdoável quanto a fama que carregou durante quase 500 anos. Ou seja, um simpático rinoceronte usado como referência acabou rendendo cinco séculos de polêmica.

Então, quando você precisar de uma textura fácil de encontrar como um pedaço de papel, um grão de café ou uma flor, dê um passeio, cate uma pedrinha, coloque no scanner. O ar puro lhe fará bem. Ou mesmo em casa: conheço um designer que gastou 40 minutos procurando por uma boa imagem em alta resolução de folhinhas até lembrar que tinha scanner e uma samambaia em casa. Deixe a internet para a textura do solo lunar ou pele do dragão de Komodo. E, se precisar que a textura se repita, o link a seguir tem um tutorial (em inglês) de como transformar a sua imagem na famosa seamless texture: How to Create a Seamless Texture in Photoshop.

O ideal é que você crie a sua própria referência (até para que seu trabalho não se transforme em um rinoceronte com má reputação), mas para aqueles dias chuvosos ou para aquele trabalho feito às quatro da manhã, fica aqui a sugestão de procurar em lugares pouco comuns

Precisa de um tecido? Que tal um quadro bizantino ao invés daquela textura que todo mundo já conhece? Existem séculos – literalmente – de arte com texturas para nenhum CGtextures botar defeito. Precisa de um olho? Por que não usar um detalhe de um Caravaggio? Os grandes mestres, de uma forma geral, são fontes quase inesgotáveis deste tipo de material. Além de sair do óbvio, ainda tem a vantagem de estar em domínio público.

 

Um rinoceronte com má reputação. Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 jun. 2010.

Toda nudez (digital) será castigada

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foto da revista capa

A ideia de divindade associada à amamentação vem de longe e está presente em praticamente todas as culturas. Segundo a mitologia grega, a Via Láctea foi formada com um esguicho de leite materno de Juno. Ísis amamentou Hórus, Dewaki a Krishna, Virgem Maria a Jesus.

Essa profusão de leite materno sagrado para todo canto enjoa até o mais beato dos mortais. Alberto Manguel, em seu brilhante Lendo imagens, faz uma citação hilária de João Calvino: “Não há cidade pequena demais, nem convento […] demasiado exíguo que não ponha à mostra um pouco de leite da Virgem […]. A quantidade é tão grande que, se a Virgem Sagrada tivesse sido uma vaca […], haveria de ter passado a vida inteira em árdua labuta para conseguir produzir uma quantidade tão vasta”.

Literalmente durante milênios houve uma divisão bastante clara entre os sexos. O homem pertencia ao mundo público e a mulher ao mundo privado. Ainda temos resquícios disso no idioma: o homem público é político e a mulher pública é prostituta. Sem muita diferença, certamente dirão as línguas mais afiadas, mas ao falar mal dos políticos dão mais um claro exemplo de que a mulher pública não é respeitada. Bem resumiu Rita Lee em Pagu: “Mexo, remexo na inquisição / Só quem já morreu na fogueira / Sabe o que é ser carvão”.

Então, voltando, como a mulher pertencia ao mundo privado era considerado um absurdo representá-la nua. No entanto temos nudez feminina desde que o mundo é mundo. O pulo do gato era que as mulheres representadas nuas não eram reais, eram divindades, figuras mitológicas. Então, uma Vênus nua tudo bem, porque não era uma “mulher de verdade”. Esta mentalidade perdurou durante muito, muito tempo. Mais ou menos da Grécia Antiga até o Impressionismo. Estamos falando de algo na ordem de grandeza de 5 mil anos.

A nudez masculina, entretanto, era considerada normal e homens comuns eram representados nus. Provando que o proibido é sempre mais interessante, infelizmente a nudez masculina não é tão popular quanto a feminina.

A grande virada nesta mentalidade de que a mulher é restrita ao mundo privado tem data e nome conhecidos. Foi em 1863, na França. O grande evento no mundo das artes era o Salon de Paris, que acontecia bienalmente desde 1725. Era muito importante, concorrido e difícil de entrar. Édouard Manet (1832-1883) foi um dos que não conseguiu ser aprovado pelos acadêmicos curadores. Montaram, então, o Salão dos Recusados (Salon des Refusés). Manet expôs o seu recusado Le déjeuner sur l’herbe (1862). Foi um choque. Damas empurravam seus maridos para longe do quadro. Senhoritas enrubesciam à sua frente. O grande alvoroço foi porque Manet pintou uma mulher nua sem uma literatura que a justificasse. Ou seja, a mulher não é uma divindade, não é um ser mitológico. É uma mulher real que, como se não bastasse, ainda olha para o espectador como se estar ali almoçando nua na relva fosse a coisa mais natural do mundo. E, para piorar, os homens estão completamente vestidos. Acho que se Manet tivesse pintado o Papa em uma cena pagã não teria causado tanto furor. Naquele momento rompia-se uma mentalidade de alguns milhares de anos. Não é pouca coisa.

MANET, Édouard

MANET, Édouard. Le déjeuner sur l’herbe, 1863. Óleo sobre tela, 208 x 264.5 cm. Musée d’Orsay, Paris.

Existia ainda um agravante a tudo isso. O repertório das pessoas na época era os grandes mestres. Manet faz uma referência clara – era claríssima na época – ao Julgamento de Paris (1515), de Raphael (1483-1520) e ao Fiesta campestre (1510), de Ticiano (1473/1490-1576). As pessoas que visitavam os salões reconheciam estas referências com a mesma facilidade que você reconhece um endereço de email. Não precisava ser um estudante de artes. Leigos efetivamente sabiam essas coisas. Então, a afronta de Manet era múltipla: uma mulher real nua, em uma composição que remetia aos grandes mestres, sem qualquer tipo de justificativa literária, cercada por homens vestidos em uma ação trivial e cotidiana. Para a mentalidade da época era um grande choque.

Não pense você que esta é uma questão antiga. Em 2008 o Facebook censurou fotos e pinturas de mães amamentando, alegando que eram obscenas e removeu várias fotos de usuários. Teve protesto, é claro. Na época foi criada uma petição online intitulada “Hey Facebook, breastfeeding is not obscene!” que não conseguiu reverter a decisão do site. Esta censura causou bastante surpresa em muitas pessoas porque a mãe que amamenta é, ainda hoje, quase que santificada e não pode, portanto, ser compreendida como erótica ou sexual. Os defensores da censura alegam que a amamentação é um ato íntimo e particular e que pertence, portanto, ao mundo privado. Ou seja, mais de um século se passou desde que Victorine Meurent posou para Manet e ainda temos conflito nesta área.

Sob o risco de parecer um pouco mais xiita do que eu gostaria, afirmo que o conflito vai além. É um conflito de (in)compreensão do feminino. Juliana Cunha, em um dos blogs que eu mais gosto de ler, o Já matei por menos, em seu post Conclusão é para os fracos, pergunta: “Primeiro eu leio que as mulheres são apenas 5% dos presidentes de empresas, depois leio que são maioria entre os ricos. Oi? O que a gente faz? Trafica?”. Aproveito para fazer coro à Juliana e perguntar o que a sua empresa está fazendo para atender ao público feminino. Acredite, site com florszinhas ou tons pastéis não é o que precisamos.

 

Toda nudez (digital) será castigada. Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 maio 2010.

O reconhecimento dos símbolos

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foto da revista capa

Dois dias já haviam passado da Páscoa quando, em um certo 22 de abril, ainda a 24 km da costa, as âncoras de Pedro mergulharam 34 metros mar abaixo, colocando fim a uma viagem chatíssima. Ou seja, não é de hoje que o Brasil começa depois do Carnaval. Os nativos brasileiros subiram a bordo da caravela de Cabral no dia seguinte ao desembarque, em 24 de abril de 1500. Cabral colocou sua melhor roupa e todos os adornos a que um capitão-mor tinha direito e no entanto os índios não conseguiram diferenciá-lo dos demais brancos a bordo, em uma das melhores comprovações que conheço de que a compreensão de um signo é sempre posterior à sua contextualização. Nós sempre reconhecemos um símbolo, nós nunca conhecemos um símbolo.

Quando você vir um homem com uma coroa na cabeça e montado em um elefante é Manoel I, rei de Portugal na época. Muita gente acredita que esta representação é por causa do famoso caminho para a Índia mas na verdade é por ele ter enviado ao Papa Leão X um elefante chamado Hanno de presente. As pessoas na época acharam tão exótico quanto você está achando agora e as charges políticas exploraram bem o estranho presente. Por falar em elefantes e caricaturas, foi o cartunista norte-americano Thomas Nast, muitos anos depois, o responsável pelos burro e elefante que acabaram se tornando símbolos dos partidos Democrata e Republicano norte-americanos, respectivamente. No melhor estilo do capitalismo, o que começou como uma crítica virou marketing.

As naus que aqui chegaram eram o fino da alta tecnologia e, além das velas latinas (triangulares) para momentos de vento contra, tinham também a vela redonda (que era quadrada) para traduzir cada sopro em maior velocidade. Eram tipo um processador multi-core da época. Cada vela ostentava uma enorme Cruz de Malta. Você sabe qual, é aquela com serifas. A que nós vimos chegar em nossas praias já tinha sofrido um redesign, mas era bem parecida com a da Primeira Cruzada em 1096, que por sua vez era idêntica à cruz da Ordem dos Templários. Sim, aqueles do Santo Graal. Sim, do Indiana Jones. Não encontrei bibliografia disso, mas nada me tira da cabeça que as atuais roupas de mergulho com tubarões são inspiradas no uniforme dos cavaleiros templários.

Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama tinham em comum mais do que o idioma. Tinham também o mesmo piloto, Pero Escolar. A indicação de Cabral para a missão é um mistério até hoje. A armada era enorme, composta por 13 naus e 1500 homens, representando quase 3% da população de Lisboa. Seria mais ou menos como se um designer inexperiente assumisse o comando de uma mega-corporação e, por ser inexperiente e não burro, contratasse o Luli Radfahrer para pilotar.

Assim que Colombo botou os pés na América começou na Europa um debate sobre se os nativos teriam ou não alma. Este é, na verdade, um questionamento mais econômico do que filosófico: se tem alma não pode ser escravizado. E escravos eram bons para a economia daqueles tempos.

A comprovação da nossa existência foi para o pensamento vigente da Época dos Descobrimentos o que o catolicismo foi para o Império Romano. Toda a percepção de mundo foi abalada. De repente o mundo deixou de ser plano e a Europa deixou de ser o centro. Dando mais um passo anacrônico, é possível entender Linus Torvalds como um Colombo contemporâneo, alguém que muito mais coloca o pensamento tradicional em cheque do que como alguém que finca bandeira em novos territórios.

Em tempo: Santa Maria, Pinta e Niña eram as embarcações de Colombo, tá gente? Assim como as de Cabral, elas também tinham uma cruz de Malta nas velas. O sotaque muda mas a cruz é a mesma. Colombo viajava sob as ordens dos Reis Católicos de Espanha, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, que usavam como símbolo um conjunto de flechas, conhecido como el yugo y las flechas, muito similar ao feixe de varas do senado do Império Romano. O feixe – fascio, em italiano – acabou sendo usado como símbolo do fascismo (fasciofascismo). E não apenas na Itália de Mussolini. A bandeira do partido de extrema direita espanhol Falange Española de las JONS é até hoje um fascio, por exemplo. Então, preste atenção porque talvez um array de setas não seja um bom ícone para velocidade. De uma forma geral, é sempre bom evitar símbolos religiosos e/ou políticos quando você estiver criando uma identidade visual. A possibilidade de involuntariamente ofender alguém é enorme. Por isso é tão importante ouvir a opinião de quem não sabe no que você está trabalhando. De preferência, inclusive, alguém de outra área profissional completamente diferente da sua.

Em 1500 Leonardo Da Vinci estava no auge da sua carreira. Em 1501 Michelangelo começou a esculpir o David. Entre 1499 e 1502, Rafael pintou Ressurreição de Cristo, que hoje é parte do acervo do MASP. O movimento renascentista ganhou este nome porque era uma tentativa de reviver a glória do Império Romano e considerava tudo que aconteceu entre estes períodos como medíocre (daí o termo Idade Média, inclusive). Então, este negócio de sair conquistando novos territórios não era tão novo assim. Não apenas a estratégia militar geopolítica estava em alta, mas as artes também. Toda a compreensão européia dos acontecimentos estava necessariamente mergulhada nos ideais renascentistas e, portanto, uma importante parte da formação da nossa própria identidade também. Nossa história é contada do ponto de vista de quem aqui chega. Deveríamos ter uma carta, ainda que escrita anacronicamente, do ponto de vista dos nativos: “A feição deles é serem brancos, maneira de amarelados, de rostos magros e narizes finos”. Ia ser divertido, pelo menos.

O Brasil fascina os estrangeiros que aqui chegam desde que, bem, aqui chegam. Existem registros de que 5 portugueses desertaram a armada de Cabral e por aqui ficaram. E olha que isso foi bem antes do ar condicionado, do metrô e da wireless livre na praia.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. O reconhecimento dos símbolos. Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 abr. 2010.

Águas de março

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Todas as crenças, de uma certa maneira, buscaram na água os seus ritos de passagem e momentos de transição. Para alguns, a água é purificadora, para outros é ligada à morte e às vezes a vidas futuras. Da água nascemos, por ela morremos. Alimenta a Terra, mata a sede dos seres vivos, afoga, constrói e destrói e nela navegamos.

De uma forma geral, independente da cultura, a água era considerada a fonte de vida primordial. No século XVIII com o surgimento da ciência experimental, a água passa a ser incolor, insípida e inodora. A água não é mais um elemento, é apenas 3 átomos, H2O. Talvez este distanciamento emocional explique o que leva a humanidade a poluir o elemento que a mantém viva.

A Tailândia homenageia a deusa da água, Phra Mae Khongkha, durante o festival Loy Krathong, que acontece no final da temporada de monções. Milhares de pessoas iluminam os rios e canais com velas, oferecem flores e acendem incensos. É um simbolismo de amor.

Em inúmeras tradições, o peixe, fruto das águas, é um ícone de revelação, sabedoria e santidade. Quando o cristianismo surgiu, o símbolo de Cristo era um peixe. Na tradição cristã a água é um elemento purificante. Até a saliva aparece na Bíblia, curando os olhos de um cego. Curiosamente, o elemento da extrema-unção é o óleo, que não se mistura com a água.

No islamismo, os fiéis só podem fazer as suas cinco orações diárias depois de um ritual de lavagem do corpo com água limpa chamado “wudu” e os mortos recebem três banhos que os prepara para a nova vida espiritual.

A transmutação da água é uma simbologia tão forte que se repete inúmeras vezes. No Egito, Moisés faz um gesto e transforma água em sangue. Foi um choque, consideraram uma violência. Séculos depois, Jesus Cristo transforma água em vinho. E depois, antes de ser crucificado, o vinho se torna sangue sagrado.

É na água que Narciso vê sua imagem refletida. Ou seja, a água pode ser também uma prisão do Ego.

Narciso de Caravaggio

CARAVAGGIO, Michelangelo Merisi da. Narciso, 1594-1596, óleo sobre tela, 110 × 92 cm. Galleria Nazionale d’Arte Antica

No Brasil, Iemanjá é uma divindade muito venerada, até mesmo por pessoas não-praticantes do Candomblé ou Umbanda. Todo reveillon vemos levas de pessoas jogando flores ao mar para Iemanjá, independente de sua religião. Ela é também um símbolo de fecundidade e rege a maternidade. Na África era cultuada pelos egbá, nação Iorubá da região próxima ao rio Yemojá. Em rituais de Umbanda, banhos de cachoeira, rio ou mar lavam desafetos e infortúnios. Para os índios Bororo, da região do Mato Grosso, a água é o mediador entre os irreconciliáveis Céu e Terra. Não podemos pensar em água sem falar da Lavagem do Bonfim, que acontece em Salvador na segunda quinta-feira depois do Dia de Reis, em janeiro. Temos também muitos mitos ligados à água – como o Boto, o Caboclo-d’água, Alamoa, Iara, e Boiúna – que ainda perduram em algumas regiões do país.

Na mitologia grega, o Oceano é tão antigo quanto o mundo e por isso é sempre representado como um velho. Vários ícones repetem este conceito. Os nomes mais comuns da “mitologia aquática” são Netuno, Proteu, Tritão e Tetis. Netuno é geralmente representado nu, com uma longa barba e com um tridente na mão, com o qual ele poderia, a seu bel prazer, provocar terremotos e maremotos. Proteu guardava o rebanho de Netuno, isto é, os peixes. Como pagamento pelo trabalho, Netuno deu-lhe o conhecimento do passado, do presente e do futuro.

A água assume também uma face erótica-mortal com as sereias, que com seu canto atraem os inocentes homens para o fundo das águas.

A cidade asteca de Tenochtitlán (onde hoje é a cidade do México) tinha um sistema complexo e extremamente eficaz de aquedutos. Outra que impressiona é Roma, com suas fontes termais e um sistema hidráulico dos tempos de César que ainda funcionam.

Quando os espanhóis chegaram na América e encontraram os índios, a estranheza foi mútua. Os europeus questionavam se os nativos tinham alma e estes, por sua vez, mergulhavam os espanhóis na água para descobrir do que eram feitos.

Para o taoísmo e para a acupuntura, os meridianos de nosso corpo são como caminhos de água na Terra e dependem de não haver qualquer bloqueio para fluírem. Esse movimento energético (falando de modo simplista) no corpo é conhecido como “chi” e é também usado em artes marciais como o Tai Chi Chuan e o Aikidô.

O mito do dilúvio, que encontramos entre todos os povos, é a água dos céus e da terra que renova a humanidade nem que seja no tapa. É o símbolo do retorno a um passado romântico, o famoso “no meu tempo era melhor”.

A literatura, então, deita e rola com os simbolismos da água. De Lusíadas a Vinte mil léguas submarinas passando por Vidas secas, o elemento água se torna importante inclusive na narração de estórias.

Curiosamente, a iconografia moderna de água não utiliza mitos e sempre reproduz algum tipo de onda ou pingo. Ou seja, o movimento tornou-se mais importante do que o elemento. Esta mudança de entendimento da água faz todo sentido se pensarmos que somos seres pós-industriais e vivemos em uma época de valorização do conhecimento e da informação que são, por natureza, voláteis e móveis.

A internet, por exemplo, é entendida como um meio fluido, líquido. Prova disso é que usamos um navegador e somos internautas (ou, em inglês, surfistas).

Hoje falamos de fluxo de informação, design fluido, acessibilidade (não-bloqueio, chi), e redes sem limites definidos. Vivemos a água em movimento e refletimos esta fluidez em nosso cotidiano. É natural, portanto, que a imagem do mito-ícone, estática e dependente de contexto, assuma uma importância menor. Vivemos um tempo em que o conteúdo, volátil e etéreo, é mais importante do que seu suporte. Vivemos um tempo em que a onda sonora é mais importante do que a matéria (mp3 versus CDs). E por falar em música, como fã incondicional de Tom Jobim, termino fechando o verão.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. Águas de março. Revista Wide online, 01 mar. 2010.