O reconhecimento dos símbolos

Padrão

foto da revista capa

Dois dias já haviam passado da Páscoa quando, em um certo 22 de abril, ainda a 24 km da costa, as âncoras de Pedro mergulharam 34 metros mar abaixo, colocando fim a uma viagem chatíssima. Ou seja, não é de hoje que o Brasil começa depois do Carnaval. Os nativos brasileiros subiram a bordo da caravela de Cabral no dia seguinte ao desembarque, em 24 de abril de 1500. Cabral colocou sua melhor roupa e todos os adornos a que um capitão-mor tinha direito e no entanto os índios não conseguiram diferenciá-lo dos demais brancos a bordo, em uma das melhores comprovações que conheço de que a compreensão de um signo é sempre posterior à sua contextualização. Nós sempre reconhecemos um símbolo, nós nunca conhecemos um símbolo.

Quando você vir um homem com uma coroa na cabeça e montado em um elefante é Manoel I, rei de Portugal na época. Muita gente acredita que esta representação é por causa do famoso caminho para a Índia mas na verdade é por ele ter enviado ao Papa Leão X um elefante chamado Hanno de presente. As pessoas na época acharam tão exótico quanto você está achando agora e as charges políticas exploraram bem o estranho presente. Por falar em elefantes e caricaturas, foi o cartunista norte-americano Thomas Nast, muitos anos depois, o responsável pelos burro e elefante que acabaram se tornando símbolos dos partidos Democrata e Republicano norte-americanos, respectivamente. No melhor estilo do capitalismo, o que começou como uma crítica virou marketing.

As naus que aqui chegaram eram o fino da alta tecnologia e, além das velas latinas (triangulares) para momentos de vento contra, tinham também a vela redonda (que era quadrada) para traduzir cada sopro em maior velocidade. Eram tipo um processador multi-core da época. Cada vela ostentava uma enorme Cruz de Malta. Você sabe qual, é aquela com serifas. A que nós vimos chegar em nossas praias já tinha sofrido um redesign, mas era bem parecida com a da Primeira Cruzada em 1096, que por sua vez era idêntica à cruz da Ordem dos Templários. Sim, aqueles do Santo Graal. Sim, do Indiana Jones. Não encontrei bibliografia disso, mas nada me tira da cabeça que as atuais roupas de mergulho com tubarões são inspiradas no uniforme dos cavaleiros templários.

Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama tinham em comum mais do que o idioma. Tinham também o mesmo piloto, Pero Escolar. A indicação de Cabral para a missão é um mistério até hoje. A armada era enorme, composta por 13 naus e 1500 homens, representando quase 3% da população de Lisboa. Seria mais ou menos como se um designer inexperiente assumisse o comando de uma mega-corporação e, por ser inexperiente e não burro, contratasse o Luli Radfahrer para pilotar.

Assim que Colombo botou os pés na América começou na Europa um debate sobre se os nativos teriam ou não alma. Este é, na verdade, um questionamento mais econômico do que filosófico: se tem alma não pode ser escravizado. E escravos eram bons para a economia daqueles tempos.

A comprovação da nossa existência foi para o pensamento vigente da Época dos Descobrimentos o que o catolicismo foi para o Império Romano. Toda a percepção de mundo foi abalada. De repente o mundo deixou de ser plano e a Europa deixou de ser o centro. Dando mais um passo anacrônico, é possível entender Linus Torvalds como um Colombo contemporâneo, alguém que muito mais coloca o pensamento tradicional em cheque do que como alguém que finca bandeira em novos territórios.

Em tempo: Santa Maria, Pinta e Niña eram as embarcações de Colombo, tá gente? Assim como as de Cabral, elas também tinham uma cruz de Malta nas velas. O sotaque muda mas a cruz é a mesma. Colombo viajava sob as ordens dos Reis Católicos de Espanha, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, que usavam como símbolo um conjunto de flechas, conhecido como el yugo y las flechas, muito similar ao feixe de varas do senado do Império Romano. O feixe – fascio, em italiano – acabou sendo usado como símbolo do fascismo (fasciofascismo). E não apenas na Itália de Mussolini. A bandeira do partido de extrema direita espanhol Falange Española de las JONS é até hoje um fascio, por exemplo. Então, preste atenção porque talvez um array de setas não seja um bom ícone para velocidade. De uma forma geral, é sempre bom evitar símbolos religiosos e/ou políticos quando você estiver criando uma identidade visual. A possibilidade de involuntariamente ofender alguém é enorme. Por isso é tão importante ouvir a opinião de quem não sabe no que você está trabalhando. De preferência, inclusive, alguém de outra área profissional completamente diferente da sua.

Em 1500 Leonardo Da Vinci estava no auge da sua carreira. Em 1501 Michelangelo começou a esculpir o David. Entre 1499 e 1502, Rafael pintou Ressurreição de Cristo, que hoje é parte do acervo do MASP. O movimento renascentista ganhou este nome porque era uma tentativa de reviver a glória do Império Romano e considerava tudo que aconteceu entre estes períodos como medíocre (daí o termo Idade Média, inclusive). Então, este negócio de sair conquistando novos territórios não era tão novo assim. Não apenas a estratégia militar geopolítica estava em alta, mas as artes também. Toda a compreensão européia dos acontecimentos estava necessariamente mergulhada nos ideais renascentistas e, portanto, uma importante parte da formação da nossa própria identidade também. Nossa história é contada do ponto de vista de quem aqui chega. Deveríamos ter uma carta, ainda que escrita anacronicamente, do ponto de vista dos nativos: “A feição deles é serem brancos, maneira de amarelados, de rostos magros e narizes finos”. Ia ser divertido, pelo menos.

O Brasil fascina os estrangeiros que aqui chegam desde que, bem, aqui chegam. Existem registros de que 5 portugueses desertaram a armada de Cabral e por aqui ficaram. E olha que isso foi bem antes do ar condicionado, do metrô e da wireless livre na praia.

 

VIGNA-MARÚ, Carolina. O reconhecimento dos símbolos. Revista Web Design, Rio de Janeiro, 01 abr. 2010.