Pretinho básico – quanto você calça?

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Preto calçado é certamente um dos grandes mistérios do designês. Calçar o preto é, em uma explicação bem simplista, adicionar a ele um pouco de azul (ciano). Normalmente o que causa maior estranheza não é do que se trata e sim o motivo disso. Vamos lá.

O processo gráfico joga tinta sobre papel por separação. Ou seja, joga as 4 cores básicas de impressão, uma em cada “rolinho” de tinta. São elas: ciano, magenta, amarelo e preto.

As cores absolutas – preto e branco – são difíceis de conseguir justamente porque precisam ser absolutas. Considerando o branco como papel, temos um maior problema mesmo é no preto. Se muda um tiquinho de nada o preto passa a um cinza-escuro ou falhado, especialmente em áreas extensas, o tal do “chapado”. É, eu sei que os nomes são hilários, é cor chapada, preto calçado… Tem cor vazada, sangrada e puxada também, explico em outra ocasião.

A essa altura você deve estar olhando para coisas pretas impressas à sua volta e achando que eu sou louca, que aquilo ali é preto. Experimenta pegar várias coisas pretas e colocar uma em cima da outra. Liga uma luz em cima. Comece a reparar que os pretos são diferentes. Nosso olho nos engana, especialmente com letras e outras coisas impressas que não tenham informação (área de tinta) suficiente para o olho humano perceber que aquele preto ali está muito do mais ou menos.

Esse negócio de calçar o preto, entregar vazado, com sangria, puxar a cor na máquina, invasão de uma cor sobre outra, enfim, todo esse negócio de produção gráfica é meio obscuro mesmo. Não é de propósito, acredite. Por isso, se o seu trabalho for importante, contrate um produtor gráfico para acompanhar tudo, não mande simplesmente para gráfica. O processo gráfico é caríssimo e a gráfica sempre vai querer baixar o custo e aumentar o lucro, lembre-se disso. O produtor gráfico entra quase que como um tradutor, que leva a sua informação e a sua necessidade a um outro mundo. O produtor precisa falar bem os dois idiomas, o do cliente e o da gráfica. A maioria dos produtores gráficos fazem questão de fazer a pré-impressão, o preparo do que é enviado à gráfica, justamente por conta de todos os problemas que existem no processo. É praticamente impossível garantir a qualidade de algo que outra pessoa fez.

Lembrando que o processo todo é industrial, a solução dos problemas precisa ser também voltada para linha de produção. Não dá para a gente ir lá, ítem a ítem e “repintar” onde o preto ficou falhadinho, por exemplo. Isso precisa ser feito na origem, ou seja, no arquivo que mandamos para impressão.

O arquivo em um dado momento do processo é “separado”. Ou seja, é gerada uma imagem de cada cor, que por sua vez vai ser impressa em uma chapa, para ser colocada na máquina. Funciona mais ou menos como um carimbo para cada cor. Fiz uma ilustração de como isso se parece usando uma foto da minha gata Milonga. É só para efeitos ilustrativos mesmo, na chapa é diferente, ok?

Então, vamos calçar esse preto? O “calçar” é no sentido de sapato mesmo, de colocar algo embaixo, como um suporte. Antigamente se repetia o preto. Fazendo então ciano, magenta, amarelo, preto e preto. E aí resolvia a questão da cor absoluta mas em compensação borrava tudo. Era preto demais. Esse duplo preto é mais ou menos o que faz o “overprint” que alguns softwares gráficos fazem. Mas, peraí, se o problema era só dar um suporte ao preto, realmente precisa ser preto sobre preto? Ahá! Não! Não, precisa. Pode ser qualquer cor em tese. É só mesmo para dar um “apoio” ao preto, para quando a tinta preta entrar ela não ser completamente absorvida pelo papel e falhar.

Tradicionalmente usamos o ciano para calçar o preto. Uns 30 ou 40% de ciano no preto resulta em um preto lindo, com reflexos acetinados. Para um tom mais quente podemos usar o magenta. Podemos usar uma combinação de cores mas fica o aviso que só o amarelo fica uma porcaria esverdeada.

Eu sei que tudo pode parecer exagero de uma designer obsessiva com detalhes mas eu juro para vocês que isso é importante. O pré-print, ou seja, a preparação do material enviado à gráfica é tão importante quanto o processo de impressão propriamente dito.

De nada adianta esse cuidado todo se na hora de escolher a gráfica você escolhe exclusivamente pelo preço. Novamente aí entra o produtor gráfico. Normalmente o produtor sugere algumas gráficas para o seu trabalho. Você não precisa pagar fortunas para rodar em uma gráfica top de linha se o seu trabalho é só texto, por exemplo. Nem tente, por outro lado, rodar um book fotográfico na gráfica que fez o seu talão de notas fiscais. O produtor gráfico sugere a gráfica de acordo com as suas necessidades de prazo, qualidade e preço e o que é verdade para um trabalho não é necessariamente para outro. Agora, mesmo contratando um profissional, mantenha-se informado, você só tem a lucrar com conhecimento.