Crônica "Por um mundo mais odara", publicada no Rascunho em 02/07/2026.
Ilustração: Kleverson Mariano. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/por-um-mundo-mais-odara/ Crônica "Por um mundo mais odara", publicada no Rascunho em 02/07/2026.
Ilustração: Kleverson Mariano. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/por-um-mundo-mais-odara/

Alguns posicionamentos políticos são associados a determinadas profissões. Pelo menos, em um certo imaginário que acredito ser coletivo. Não há qualquer obrigação de um taxista paulistano ser de direita, mas a maioria é, por exemplo. A maior parte dos artistas que conheço é de esquerda. E por aí vai.

Eis que, essa semana, conheci um vendedor e, mais grave, fabricante de incenso bolsonarista. Incenso, minha gente, a coisa mais odara do mundo. A gente chega perto da barraquinha e já toca Caetano Veloso na cabeça da gente. Como pode?

É inconsistente. A conta não fecha. É como um atleta que se alimenta mal. Ou um médico que fuma, essas coisas.

Continuo andando.

Pra ficar tudo joia rara, qualquer coisa que se sonhara, canto e danço que dara.

Ainda um pouco perplexa com o sujeito do incenso chamando os manifestantes da rua de comunistas, petralhas e vagabundos, olho para o aglomerado e tento entender do que se trata. Pela música e pelas bandeiras, entendo que é algo sobre Cuba. Bom, pelo menos a parte “comunistas” estava certa.

A música da passeata é boa e se sobrepõe a Caetano.

De Alto Cedro voy para Marcané, llego a Cueto, voy para Mayarí.

Já dancei muito essa música, madrugadas cariocas adentro. Voltava a pé para casa, descalça, sapatos na mão, o sol começando a mostrar sua cara, babás de branco chegando aos prédios, alguns homens de terno entrando em seus carros, comerciantes levantando suas grades.

Eu já gostava de incensos nessa época. Não sou uma pessoa mística, escolho apenas pelo cheiro. Não dou a mínima se é para atrair dinheiro, espantar mosquito ou trazer, em sete dias, o amor perdido. Se o cheiro é bom, levo.

Cheguei a experimentar velas aromáticas, mas li no jornal o caso de uma mulher que morreu queimada — sei lá onde — porque dormiu com uma vela acesa, tudo pegou fogo, já era. A paranoia que se instalou em mim foi maior do que o benefício e joguei as que tinha no lixo.

Lembro que o incenso tradicional indiano, o Panchagavya, é feito com esterco de vaca e começo a rir sozinha. Não foi o que eu comprei, mas pouco importa. A piada está pronta.

Entro no prédio. No hall, tem um segurança. Um armário quatro portas uniformizado. Grudada no seu colete à prova de balas, uma fitinha colorida LGBTQueiramais. Há salvação, parece.

 

Crônica “Por um mundo mais odara”, publicada no Rascunho em 02/07/2026.
Ilustração: Kleverson Mariano. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/por-um-mundo-mais-odara/