Crônica "Nada que me envergonhe", publicada no Rascunho em 25/06/2026.
Ilustração: Bruno Schier. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/nada-que-me-envergonhe/ Crônica "Nada que me envergonhe", publicada no Rascunho em 25/06/2026.
Ilustração: Bruno Schier. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/nada-que-me-envergonhe/

Semana passada, em uma mesma madrugada — uma horrível terça-feira fria e chuvosa —, morreram Raimundo Carrero e a mãe de uma de minhas melhores amigas. São duas perdas que sinto, na carne, de pessoas que não conheci pessoalmente. Conheço as consequências de suas existências no mundo, entretanto. As histórias. A literatura. A amiga.

Quando minha mãe morreu, também sobraram a literatura e a gente. A gente lá, sozinhos em um mundo que era dela e que estou, até agora e sem sucesso, tentando transformar em meu. Uma porção importante desse esforço é a docência, que é só minha. Ela não foi professora.

Quem é da vida acadêmica sabe o esforço que é manter o Lattes atualizado e organizar os comprovantes de tudo. Ter alguma, mínima que seja, organização da nossa produção às vezes parece/é uma tarefa inglória. Desde a primeira vez em que fui obrigada a fazer isso, de tempos em tempos, atualizo o Lattes, o meu site e um documento mais legível, no formato de memorial. Pelo menos, consigo localizar as informações de que preciso.

Monto, então, o famigerado curriculum vitae et studiorum e me assusto com a quantidade de coisa diferente que já fiz na vida, mesmo excluindo aquilo que não cabe em um documento como esse. Não escrevi sobre as vezes em que colocava meu filho recém-nascido para tomar 15 minutos do sol da manhã. Não inseri na lista de eventos o dia em que dei mamadeira para um filhote órfão de cachorro. Ou o meu primeiro banho de cachoeira. Ou, ainda, quando fiz cafuné numa jaguatirica. Também não entrou aquele piquenique muito louco da adolescência. Ou a cerveja gelada que tomei em Porto Alegre, vendo o pôr do sol no Guaíba. Nem a viagem com I. para o Sul. Tampouco couberam os trilhos cobertos de grama da antiga estação de trem de Barra do Piraí. Ou seja, tudo aquilo que importa ficou de fora.

Tenho fama de ser a louca da organização. Sim, é verdade, mas o motivo não é nobre como os que me atribuem. É só que eu gosto muito, mas muito mesmo, de procrastinar. E só dá para fazer isso se a cabeça não estiver preocupada com os afazeres da vida. Eu corro feito uma doida para deixar tudo pronto antes do prazo porque quero, na verdade, não fazer nada.

Então, quem me vê correndo acha que eu só trabalho.

Quem me vê olhando para o nada acha que eu não faço nada da vida.

Em 2014, eu estava fazendo pós-graduação, licenciatura e mestrado ao mesmo tempo. Cuidando de casa e criando filho sozinha. E fazendo freelas de madrugada. Não sei como eu sobrevivi. Nessa época, uma pessoa que morava com os pais, não pagava aluguel e não tinha filhos me disse que não era todo mundo que tinha “a vida fácil e tranquila” que eu tinha. O choque foi tanto que hoje, doze anos depois, isso ainda me surpreende.

Recentemente, uma amiga preocupada me disse que queria muito que eu fizesse outras coisas além de trabalhar.

Tenho pensado muito nessas imagens conflitantes que as pessoas têm de mim. Lembrei de um meme que é mais ou menos assim: algumas pessoas dirão que eu sou terrível, outras dirão que eu sou um anjo; acredite em ambas.

A primeira ilustração que eu fiz para o Raimundo Carrero, aqui no Rascunho, foi em setembro de 2016. Eu já ilustrava desde 2009 para o Rascunho. Foram, portanto, sete anos depois.

Certamente motivada pela distância da aposentadoria, pelo maledetto Lattes e pelo falecimento do Carrero, repenso a minha trajetória.

Não que tenha orgulho de tudo, mas, pelo menos, nada que me envergonhe.

A mim, parece suficiente.

 

Crônica “Nada que me envergonhe”, publicada no Rascunho em 25/06/2026.
Ilustração: Bruno Schier. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/nada-que-me-envergonhe/