Digo que minha bateria social está zerada, e a pessoa pergunta se é zerada no sentido de acabada ou de renovada. Ela está certa. Zerada pode ser interpretado das duas formas. Mas o meu choque, senhor. O meu choque. Ah, a língua portuguesa. Como não amar?
Se o meteoro não chegar, em julho, estarei na Argentina e no Uruguai. A viagem é curta, na medida do salário de uma professora. Não ligo. Amo Buenos Aires, qualquer esforço vale a pena. Montevidéu, veremos. Houve um tempo em que eu conversava em espanhol e dançava salsa, milongas e tangos. Já lá se vão, acho, uns bons trinta anos. O amor foi daqueles verdadeiros, que nunca morre. Que nem andar de bicicleta, me dizem. Gosto tanto de Libertango quanto de Piazzolla, Celia Cruz e Rubén Blades. Foram muitas, muitas noites dançantes terminadas junto com o começo do dia dos demais. Muitas noites em que cheguei em casa com J. no horário em que o vizinho saía para trabalhar. Não tenho saudades da pouca grana. Tenho saudades da sensação de liberdade, de independência, da autonomia, da alegria.
Quando muito nova, adolescente, jovem adulta, algo assim, não é muito claro, fiz uma viagem com I. para a Argentina. Minha primeira. I. é anterior a J. Não apenas no alfabeto, mas na minha vida. E em importância, confesso. Paramos em todas as vinícolas no caminho, e considero um milagre muitos dos dias em que amanhecemos nos hotéis escolhidos pelo caminho. Quando I. morreu, abri um vinho argentino. Aos prantos, mas abri. Talvez por isso, ou por causa disso, tanto faz, volto. Voltarei sempre. Manuel Bandeira tem razão. Às vezes, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Ou seja, a única coisa a fazer é existir em espanhol a ritmo de Gardel.
Tango negro, de Juan Carlos Cáceres, começa. Tenho uma imensa dificuldade em entender o que está acontecendo: Tango negro é o toque do meu celular, mas era só a playlist. As pessoas, felizmente, não ligam mais umas para as outras. Obrigada, senhor, pela linguagem escrita e pelas mensagens de whatsapp.
I. morreu por um câncer de pâncreas. Quando entendi que era terminal, voltei andando da minha visita diária ao hospital para casa. No caminho tinha um cinema. Entrei. Comprei ingresso para a primeira sessão a começar. Era o filme de Miami Vice. Como cinéfila, tenho certeza de que é um filme execrável. Naquele momento, foi a medida do que aguentava lidar com. Colin Farrell cumpriu seu papel anestésico e, por isso, lhe sou muito grata. Não me perguntem sobre o filme. Não consegui enxergar nada sem óculos e com os olhos vertendo água.
I. tinha uma cachorra treinadíssima. Ela entendia comandos complexos como “abra a porta da garagem com o controle que está no carro e traga o jornal na volta”. A minha cachorra não sabe fazer xixi no lugar certo. Annie, a cachorra de I., morreu, obviamente, pouco tempo depois dele.
Tango negro.
Meu amor se foi pelo mar, quero crer. Não por uma seringa de quimioterapia. Não por um acidente de carro. Não por uma crise psicótica. Não por violência. Não por solidão. Não por uma estupidez qualquer. Se foi pelo mar, e é essa a história que eu manterei. Ou pelo sertão. Pelo agreste. A cova medida, a terra dividida. O defunto é parco. Sempre é.
I. faria aniversário em um dia em que estarei na Argentina. Estaremos.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Crônica “A única coisa a fazer”, publicada no Rascunho em 11/06/2026.
Ilustração gerada a partir de foto e IA. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/a-unica-coisa-a-fazer/

