Crônica "Nheque de portera", publicada no Rascunho em 09/07/2026.
Ilustração: Kleverson Mariano. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/nheque-de-portera/ Crônica "Nheque de portera", publicada no Rascunho em 09/07/2026.
Ilustração: Kleverson Mariano. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/nheque-de-portera/

Semana que vem completo dezenove anos de São Paulo, mas ainda me surpreendo com o 9 de Julho. Sim, estou falando sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, uma revolta armada para derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas. Os nativos se orgulham bastante do levante armado e têm até avenida nomeada com a data. A revolta, que não foi lá tão bem-sucedida assim, se alastrou para alguns outros lugares, mas me parece que são os paulistas que lembram dela com maior carinho, já que é o único Estado da federação em que é feriado. Não estou reclamando, veja: feriados são sempre bem-vindos.

Foram, grosso modo, trinta e seis anos de Rio de Janeiro. Então, chega 23 de abril e meu corpo acha que é feriado. Minto, dizendo que sou devota de São Jorge. Não funciona. Sou obrigada a levantar e ir trabalhar.

Tenho uma teoria: calendário, assim como idioma materno, fica com você não importa o que aconteça na sua vida. O calendário em que você foi criado estará sempre lá. É uma teoria engraçada, considerando que eu sou péssima com datas e esqueço todas. Todas, exceto feriados. Feriados, eu lembro. Lembramos tudo aquilo que nos beneficia.

Apesar de acontecer a cada quatro anos, outra coisa que sempre me pega de surpresa é a Copa do Mundo. Não acompanho futebol, não entendo de futebol, não gosto de futebol. Acho futebol tão excitante quanto fila na Caixa Econômica Federal. E tudo bem, sabe? Ninguém é obrigado a gostar de nada, não.

Quando me torram muito a paciência sobre qual é o meu time, respondo que é o XV de Piracicaba. Acho o hino deles hilário, mas isso já me causou problemas. Recentemente, dei essa resposta e o rosto do cidadão se iluminou. Alegríssimo, começou a me contar que o avô dele foi um dos fundadores do time, que ele acompanha desde criança, que isso, que aquilo, que o jogador tal, tal coisa. E eu lá, com aquela cara de erro do Windows.

Eu gosto mesmo é de assistir aos campeonatos de CS nas lives do Gaulês e aos torneios mundiais de three-cushion billiards. Sem falar que é impossível não amar uma torcida autointitulada “dez.organizada”. Vai pra cima deles, Furia! O CS eu sei que tem muitos fãs, mas suspeito que, no three-cushion, sejamos só eu e a família dos jogadores a assistir.

Se minha vida for simétrica, aos 72 anos eu me mudo de novo. De repente, daqui a dezessete anos consigo me aposentar, quem sabe? Esperança é a última que morre. Para onde eu iria é a grande questão. Acho que iria em direção ao calor. Salvador, talvez. No mínimo uma praiazinha. Já não gosto do inverno paulistano, imaginem o gaúcho ou o catarinense. Por outro lado, se eu for em direção aos afetos, o caminho certamente será ao sul. Nesse caso, as opções são maiores: Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Buenos Aires. Quem sabe?

Julgando a partir dos lugares que eu conheço atualmente, não tenho vontade de morar fora do Brasil novamente. Gosto daqui. Gosto das pessoas, da comida, da música, da natureza, das cidades. Gosto de quase tudo. Claro, pode acontecer de chegar a um país novo e me apaixonar, mas aí é outro caso. Semana que vem conhecerei Montevidéu. Se eu não voltar, vocês já sabem: encontrei o tom certo de nheque de portera por lá e fiquei.

 

Crônica “Nheque de portera”, publicada no Rascunho em 09/07/2026.
Ilustração: Kleverson Mariano. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/nheque-de-portera/