Crônica "Ben trovato", publicada no Rascunho em 04/06/2026.
Ilustração: Marcelo Frazão. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/ben-trovato/ Crônica "Ben trovato", publicada no Rascunho em 04/06/2026.
Ilustração: Marcelo Frazão. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/ben-trovato/

Escrever crônicas é um eterno exercício de síntese. O formato, mais curto, não suporta grandes explanações de nada. A vida é curta e a gente não tem nem tempo nem paciência.

Eu tenho toooodo um trabalho acadêmico em geocrítica, não vou entediar vocês com isso, mas tem relação com mapas. Eu sou a doida dos mapas. Amo mapas. Tem uma máxima antiga de que a síntese é o melhor mapa e uma história de que o mapa mais preciso, ou seja, aquele com todos os detalhes, é, na verdade, inútil. Recentemente, esbarrei com a citação a seguir, do Jorge Luis Borges, que, como não tive acesso ao livro original, não posso garantir que seja real, mas, ainda assim, aqui vai…

Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era inútil e não sem impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Cartográficas.

Como diz uma amiga, se non è vero, è ben trovato. Se não é do Borges, a gente atribui a ele e tudo bem. Estamos na pós-história, na pós-verdade, na era da burrice natural e da inteligência artificial. Nada mais faz sentido e tanto faz.

Amo que ben trovato pode ser traduzido como bem encontrado, facilmente achado. Poucas coisas poderiam ser mais distantes da verdade.

Volto antes, prematura, antecipada, apressada, corrida, do congresso em Minas. A versão contemporânea do mapa é o GPS. Dependo da tecnologia para achar minha cozinha, que dirá o caminho de volta para casa. Nasci sem bússola, um desastre. Vivi no Rio de Janeiro por décadas. A Zona Sul carioca é composta basicamente de algumas ruas cercadas por montanhas de um lado e pelo Oceano Atlântico de outro. E eu, claro, já me perdi diversas vezes, mesmo com esses referenciais geográficos pouco sutis.

O GPS me manda pela Fernão Dias. Eu, esse ser lesado sem senso de direção, obedeci à máquina.

Contei oito vestígios de acidentes que parecem ter sido fatais.

Em um dos poucos trechos com duas pistas, estou na esquerda, com uma penca de caminhões à direita. Na minha frente, um caminhão lento ultrapassa um caminhão lerdíssimo. Atrás de mim, um carro pisca o farol, gruda na minha traseira, quer passagem. Em um intervalo, na fileira dos lerdíssimos, dou passagem. Andamos mais alguns poucos metros na esquerda, agora na frente o lento, o apressado e eu. Estoura o pneu do lerdíssimo à direita em cima do apressado à minha frente. O coração está assustado até agora. Se eu não abracei uma religião ali, amigo, não há salvação mesmo.

O GPS avisa “perigo na pista” com tanta concentração que nem dá para ver a estrada. Sigo na intuição. Deve ser pra lá. Placas são amigas. E vou.

Minas, como todos sabem, não é outro estado. Não é outro país. É outro planeta. Nunca mais pego estrada. Na próxima, vou de foguete.

 

Crônica “Ben trovato”, publicada no Rascunho em 04/06/2026.
Ilustração: Marcelo Frazão. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/ben-trovato/