Crônica "Santa para tudo que é lado", publicada no Rascunho em 28/05/2026.
Ilustração: Marcelo Frazão. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/santa-para-tudo-que-e-lado/
Crônica "Santa para tudo que é lado", publicada no Rascunho em 28/05/2026.
Ilustração: Marcelo Frazão. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/santa-para-tudo-que-e-lado/

Estou em Minas Gerais para um congresso. Dirigi de São Paulo a Três Corações, para almoçar com um amigo importante o suficiente para que eu fosse até lá. Depois, mais uns bons quilômetros de Três Corações até São João del-Rei. O dia inteiro na estrada. Exausta com farofa.

Recepção do hotel:

— Primeira vez na cidade?

— Sim.

— Ali tem sempre um cafézim e, no café da manhã, vai ter bastante pãozim de queijo.

— Pode me indicar um restaurante aqui perto, por favor?

— Claro, ocê segue na esquerda até a farmácia bonitona e aí é a rua. Mas, se ocê quiser, pode pedir que entregam aqui. Tem o iFood, mas o melhor é o UaiRango.

E isso representa 100% da informação recebida. A bem da verdade, o mineiro tinha razão. A farmácia realmente é linda, e eu achei o restaurante. É um tipo de brasileiro que segue uma lógica totalmente própria. Até aplicativo regional de comida tem. Amei.

Cidadezinha típica da região. Ruas de pedra, igreja pra todo lado, estilo arquitetônico colonial dominante. Se você tropeçar e cair de joelhos, aparece do éter um padre para pegar sua confissão.

Sinos tocam de hora em hora, marcando a passagem do tempo. A mim, soam como uma vanitas musical. O tempo está escoando e você aí, pensando em café.

O dia amanhece com neblina, uma agradável vista daqui da janela do restaurante do hotel. Café da manhã, em paz, em um domingo vagaroso, com tudo pronto à minha disposição e zero louça para lavar depois. Pensando bem, talvez não seja a neblina que acho agradável.

Dentro do quarto do hotel tem uma santa. Dentro. Dentro do quarto. Dentro do quarto do hotel tem uma santa. O meu susto, nem conto. Não passa pela cabeça da galera que existem pessoas com outras crenças, ausência de crenças, cosmovisões etc. Mineiro sofreu lavagem cerebral católica apostólica romana na fundação das cidades. Passa um carro de som tocando uma novena. E eu só sei que era isso porque o homem no microfone anunciou que a novena ia até sei lá quando de maio. Não estava prestando tanta atenção assim.

O wi-fi não pega dentro do quarto. Deve ser o firewall da santa, poderosíssimo. Meus Gs estão indo todos embora. Acho que são 5, sinto como se fossem mais. Todos os Gs do mundo.

Saio para almoçar. Intolerante à lactose no estado brasileiro com os melhores queijos. Torçam por mim. Claro, tem outra santa no restaurante. Torcendo para que seja a santa da Lactase.

Conheço pouco de Minas. Para falar a verdade, evito ao máximo o estado para não me encontrar com algumas pessoas indesejáveis do meu passado, especialmente em cidades maiores, como Juiz de Fora ou Belo Horizonte. As menores são, me parece ou me iludo, mais seguras. Não segurança policial, segurança emocional.

Daqui a pouco começa o congresso e a minha contemplação da neblina acaba. Já estou preparada psicologicamente para encontrar santas dentro da universidade pública. Preparada, não conformada.

O passeio de Maria Fumaça ficará para uma próxima vez. Em baixa estação, não funciona de segunda a quinta, e os ingressos de domingo já estavam esgotados um mês antes da minha chegada. A recepcionista do hotel me oferece um passeio de ônibus. Senhora, francamente.

Serei obrigada a visitar amigos queridos em Curitiba e conhecer Morretes.

 

Crônica “Santa para tudo que é lado”, publicada no Rascunho em 28/05/2026.
Ilustração: Marcelo Frazão. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/santa-para-tudo-que-e-lado/