Depois de velha e de anos de resistência, entendi que eu curto cozinhar e gosto da minha comida. Não foi sempre assim. Vivi muitas décadas da minha vida em que cozinhar era “para a família” e sinônimo de uma servidão que nunca me coube. Então, não cozinhava. Hoje, gosto.
Tem um monte de coisa que eu sei fazer na intuição, mas, como era de se esperar de alguém que resistiu o quanto pôde, tem um monte que faço seguindo receita.
Preguiça é o pecado capital favorito dessa casa, então procuro receitas simples. Recentemente, descobri um homem no Instagram chamado Gabriel Frazão. Não é publi, não, viu, gente? Não conheço o cara. O bordão dele é “taca na airfryer”. Ou seja, conhece bem o seu público-alvo: nós, que não temos paciência, tempo, dinheiro, cozinha bacana, faxineira ou aptidão para fazer pratos rebuscados.
Ele tem aptidão e uma cozinha bacana, mas falta todo o resto. A sua impaciência é deliciosa. Lá pelas tantas, ele fala “Ah, as nonnas italianas que me perdoem, mas tem um jeito mais fácil de fazer isso” e sai jogando tudo num processador e foi: tá pronto. Adoro.
Escrevo comendo um pãozinho que fiz, a partir do zero, em coisa de, sei lá, uns trinta minutos, sendo que vinte foram esperando a airfryer. De trabalho mesmo não passou de dez. É uma receita adaptada. A original é a do pão de iogurte; procura lá. Depois da massa pronta, borrifei um pouco de água e enrolei as bolinhas de massa no queijo ralado, como se fosse um brigadeiro. Sim, ficou tudo isso que você está imaginando agora.
O problema é que eu estou ficando sovina. Vou num café e me cobram sei lá quantos dinheiros por um pãozinho mequetrefe e um café verde demais, e o que passa na minha cabeça é que eu faço igual ou melhor por um centésimo do custo. E de pijama.
Agora eu experimento qualquer coisa e, imediatamente, fico tentando adivinhar como foi feito, que ingredientes leva e como posso deixar mais ao meu gosto. A resposta, com muita frequência, envolve queijo.
Passei pelo mesmo processo com costura.
Eu entendo cobrar o design, a mão de obra, o branding, a distribuição, o ponto de venda, o vendedor, os anúncios, todos os funcionários e profissionais envolvidos na cadeia de produção. Acredite: nem assim a conta fecha. Não por acaso, a indústria da moda, apenas no Brasil, faturou mais de R$ 200 bilhões em 2024. Não tenho dados mais recentes, mas duvido muito que tenha diminuído.
Tenho essa birra com marcas. Não uso roupa de grife nem que me paguem por isso. Acho, inclusive, meio mico, sabe? Vejo uma pessoa com uma roupa qualquer que custou o preço de um carro popular e a única coisa que passa na minha cabeça é “ridícula”.
Esse foi meio que o motivo pelo qual comecei a costurar. Eu queria uma determinada roupa. Simples. Nada de haute couture, não. Costura baixa, baixinha, da minha altura mesmo. Fui no Brás. No Brás, gente. Não fui nem em shopping. Isso já faz uns doze anos. Queriam me cobrar quatrocentos e cinquenta dinheiros por uma saia de tecido liso, sem enfeites, com um zíper e nada mais. Irritada, na porta da loja mesmo, pesquisei quanto custava uma máquina de costura. Na época, era algo como trezentos dinheiros.
Desde então, passo nas vitrines pensando em como dá para fazer e melhorar, deixando-a mais do meu gosto, a roupa que achei bonitinha na mulher de plástico esquelética sem cabeça.
Quando essa crônica for publicada, estarei fora e, espero, tentando adivinhar como as comidas foram feitas e se encontro os ingredientes aqui em São Paulo. Deve dar para fazer uma medialuna na airfryer; não deve ser difícil. Vou mandar um e-mail pro Frazão.
Crônica “O homem do Instagram”, publicada no Rascunho em 16/07/2026.
Ilustração: Eduardo Mussi. https://rascunho.com.br/cronistas/carolina-vigna/o-homem-do-instagram/

