A mundana, de Jordi Lafebre & Zidrou A mundana, de Jordi Lafebre & Zidrou

A maravilhosa edição brasileira, em capa dura, da novela gráfica A mundana, de Jordi Lafebre & Zidrou, é na verdade a compilação dos dois volumes de La mondaine (Dargaud, 2014). São de autoria da dupla também a série Verões felizes (Sesi-SP, 2016) e Lydie (Dargaud Benelux, 2010).

A história acontece entre 1937 e 1944. Estamos, portanto, no contexto da Segunda Guerra e vemos a ocupação da França acontecer como cenário. A novela gráfica inclui a Rusga do Velódromo de Inverno de Paris (julho de 1942), uma passagem terrível da história mundial. O maior aprisionamento em massa de judeus na França é contado de uma maneira sutil, com a história conduzida pelo ciclismo, mas nem por isso menos impactante. Há muito que a HQ nos conta sem mostrar.

A dupla Lafebre & Zidrou tem como marca a delicadeza e a utilização do espaço extradiegético na narrativa. Ou seja, entendemos o que não está lá. E que não precisa estar lá.

A narrativa, especialmente na primeira metade, que equivale ao primeiro tomo, vai e volta no tempo várias vezes mas as voltas ao passado aparecem no recordatório, marcando a época com facilidade. “Recordatório” é como chamamos aquele quadrinho no topo da página que não é um diálogo; equivale mais ou menos à voz do narrador.

Em um vídeo de 2017, Zidrou se apresenta como sendo quadrinista há 25 anos e diz que já foi professor; que é casado e tem quatro filhos, três cachorros, dois gatos e que mora na Andaluzia (Espanha). Nessa fala, ele elogia o desenhista Jordi e comenta que trabalhar com ele é dispor dos melhores atores que existem. Digo mais: Jordi Lafebre é também o melhor diretor de fotografia. A QS Comics publicou aqui no Brasil, no final de 2021, o belíssimo Apesar de tudo, que marca a estreia de Jordi Lafebre como escritor, adicionando mais uma categoria em sua brilhante carreira.

O contexto policial, a Segunda Guerra, a cidade de Paris e o nazismo são personagens, mais que ambientação.

A primeira cena da HQ é datada em abril de 1944:

A lua parece ter escolhido seu lado de uma vez. Ela ilumina Paris, que de “Cidade Luz” só guardou o nome, por causa do toque de recolher imposto pelas forças de ocupação.

Nessa cena inicial, o personagem mais pitoresco é o policial nazista. Os diálogos, as narrativas e os personagens são cheios de nuances, delicadezas e camadas. Não há espaço para maniqueísmo, felizmente. O personagem principal, o policial Aimé Louzeau, sonhava em ser um cacique indígena quando criança. No diálogo entre Louzeau e a mãe, saindo do cinema, Zidrou coloca a questão de forma didática:

…Você certamente notou que para variar! no fim, são os caubóis que ganham!

Pudera! No dia em que os índios escreverem e dirigirem seus próprios filmes, os caubóis vão se ver em maus lençóis.

Louzeau pede para ser transferido para a Vícios, departamento da polícia que cuida de tudo que a sociedade da década de 1940 considerava como degenerado. A ética do departamento é bem questionável, já que tem como propósito também a coleta de informações para futuras extorsões e chantagens. Os policiais, obviamente, se envolvem com as prostitutas, bebem, etc. Não há mocinho, não há vilão.

Louzeau, ao chegar, ainda carrega um ar pudico de quem cresceu na fé católica. Seu pai era padre quando engravidaram e Louzeau carrega esse pecado nos ombros. Lafebre é magistral em transmitir todo um conjunto de emoções complexas em um único quadrinho. A expressão de Louzeau, ao ver pela primeira vez uma das “fotos ‘humorísticas’” é a síntese do comentário de Zidrou sobre o desenhista.

Sem culpa cristã

Um dos pontos fortes da HQ é a proposta de quebra da culpa cristã. Como tudo na vida, para romper é primeiro preciso conhecer. Até mais ou menos a metade do livro, o puritanismo de Louzeau é estabelecido. O ponto de virada é o espetáculo bestial da artista performática Eeva, a “pérola dos Alísios”. Em uma leitura desatenta, é até possível achar que é Eeva que intitula a HQ. A mundana, entretanto, pode ser todo um leque de significados. Podemos entender também como uma história mundana e/ou como emoções mundanas. Louzeau demora a abraçar seus demônios internos. A cena na delegacia, com Louzeau interrogando Eeva é uma excelente ilustração de como funciona a homofobia e a gordofobia, por exemplo. O contexto aqui é apenas moralista, mas nem por isso menos elucidativo:

Como uma mulher bonita como você pode ser rebaixar a… tais obscenidades?
Você ficou com tesão?
Co… Como?
Durante o número no Zoothropia, você ficou com tesão?
[Louzeau reage violentamente]
Ficou com tesão!

A partir da segunda metade do livro, Zidrou deixa cada vez mais esfumaçada a diferença entre a realidade e a fantasia, entre a razão e o sentimento.

A cena em que Louzeau é informado que o pai não reconhece mais ninguém mas, logo em seguida, o pai vê o cacique Grande Puma!, apelido pelo qual Louzeau criança pedia para ser chamado, é de emocionar até pedra.

A culpa cristã é uma ameaça. Faz com que Louzeau sofra, que seu pai surte, sua mãe sucumba. Surte não é exagero meu. Em mais de uma ocasião, o pai de Louzeau estripa um animal e usa seu sangue para se pintar inteiro de vermelho e, nu, sair gritando que é o Belzebu. Não é uma HQ para crianças.

A brutalidade do nazismo, a brutalidade do sexo, a brutalidade da vida mundana é esfregada na nossa cara. O bom é que a possibilidade de fuga também é. Conseguiremos ser nós mesmos quando conseguirmos romper com o moralismo, origem de todo mal.

Mundana é a nossa vida, nosso sexo, nossas guerras. Na voz citada de Eeva:

Ela afirmava que o sexo era, e cito de memória, “O último espaço de liberdade, o refúgio derradeiro da nossa animalidade”. Segundo ela, o homem civilizado reprime suas pulsões naturais, mas a bestialidade tem que se exprimir. De uma maneira ou de outra. A guerra terá lhe dado razão, note! Profanar!… Dominar!… Fazer sofrer… Gozar com isso! É pornografia na escala de todo um continente!

A ligação entre as muitas bestialidades humanas permeia toda HQ, desde o início. Como todos os livros da dupla Lafebre & Zidrou, de uma forma absolutamente poética, delicada, bela. É um olhar gentil sobre aspectos terríveis dos seres humanos e de nossa história.

Não apenas a história, mas também em termos plásticos, A mundana é uma obra espetacular. Dá vontade de emoldurar todas as páginas, todos os quadros. E de chorar. E de rir. E de voltar para a terapia. Dá vontade de muita coisa.

A vida é muito curta para não conhecermos a nossa besta interior. Afinal, é tão bonito quando ela acorda…

 

VIGNA, Carolina. Bestialidades humanas. In: Rascunho, v. 22, n. 269, Setembro 2022, p. 29. (impresso e digital)